Treze vigilantes morreram e mais de 80 ficaram feridos em ataques a carros-fortes e bases entre 2016 e 2018; veja relatos

G1 entrevistou seguranças que sobreviveram no Ceará e no Piauí. Levantamento se baseou em dados da ABTV e Contrasp.

Por Kleber Tomaz, Maria Romero, Megui Donadoni e Verônica Prado

Treze vigilantes morreram e mais de 80 ficaram feridos em ataques a carros-fortes

Treze vigilantes morreram e mais de 80 ficaram feridos em ataques a carros-fortes

Tendo apenas coletes, revólveres 38 e espingardas calibre 12 para se defender, vigilantes têm sucumbido diante de rajadas de metralhadora .50, arma de guerra usada para abater helicópteros, tiros de fuzis e explosões de dinamites que estão em poder das quadrilhas que atacam carros-fortes no Brasil.

Levantamento feito pelo G1 a partir de dados da Associação Brasileira de Transportes de Valores (ABTV) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Segurança Privada (Contrasp) mostra que ao menos 13 vigilantes morreram e outros 85 ficaram feridos no país após ataques criminosos. Os dados são entre 2016 e o primeiro semestre de 2018.

De janeiro a junho deste ano, quatro seguranças foram mortos e mais 20 acabaram machucados. Entre os sobreviventes, estão Guilherme*, que chegou a ser feito refém, e Pedro*, que foi baleado no braço (leia mais abaixo e veja vídeo acima com o depoimento de um deles e outros casos de seguranças mortos e feridos).

Vigilantes mortos e feridos no Brasil (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida - G1 Artes)Vigilantes mortos e feridos no Brasil (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida - G1 Artes)

Vigilantes mortos e feridos no Brasil (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida – G1 Artes)

Vigilante sobrevive no CE

Guilherme foi atingido numa troca de tiros contra criminosos em 28 de junho em Umirim (CE), a 95 km de Fortaleza. Em entrevista ao G1, ele contou como foi feito refém e o que ocorreu após assaltantes em outro veículo ultrapassarem o carro-forte onde estava com outros vigias seguindo por uma rodovia federal.

“Estávamos transportando R$ 2,5 milhões, pela BR-222. O trecho está em obras e as duas pistas uma é mais elevada e a outra mais baixa. A elevada estava em obras e tivemos de seguir pela pista baixa. Um carro nos ultrapassou e parou logo à frente, fechando a estrada. Desceram atirando. Mandaram que a gente saísse do carro e nos levaram a uma distância de 15 metros, aí explodiram o carro-forte. Depois nos obrigaram a recolher o dinheiro”, relata o vigia.

Notas ficaram espalhadas pela via e um matagal às margens da pista.

Explosão de carro-forte espalha cédulas em pista e população procura dinheiro

Explosão de carro-forte espalha cédulas em pista e população procura dinheiro

“Quando eles fugiram, ainda tivemos que conter a população que caiu em cima das cédulas que ficaram [no chão]: a gente tinha que resguardar o que sobrou”, lembra Guilherme.

“Os carros de transporte de valores são sucateados, sem manutenção. Os para-brisas têm pouca visibilidade. Nós não nos sentimos seguros carregando valores até R$ 3 milhões sem armamento adequado e em um veículo que está sempre precisando de manutenção.”

Com esses problemas, o segurança avalia que, a cada dia, as quadrilhas responsáveis por esses ataques ganham força e importância ao terem acesso a armamentos diferenciados. “Eles se sentem importantes pois seus armamentos são superiores aos que nós temos. Além disso, com a dificuldade de comunicação, a polícia demora a chegar e o armamento dela [da polícia] também é inferior.”

Vigia do PI avalia se continua

Pedro, um vigilante de 47 anos, foi baleado no dia 29 de junho em um assalto ao carro-forte no qual ele e mais três colegas de trabalho seguiam de Picos para Simões e Patos do Piauí, a cerca de 400 km ao Sul da capital Teresina. Os estilhaços do projétil ainda estão no braço direito dele, que conta não conseguir esquecer a “chuva de tiros” que atingiu o carro-forte naquele dia.

“Eles botaram para matar, porque mesmo depois que saímos do carro, eles continuaram atirando. Eu achei que eles tinham matado meus companheiros, chorei de alegria quando vi que estavam vivos, porque eu achei que tinham acertado eles”, contou.

Carro-forte foi assaltado na BR 407, a 10 km de Jaicós. (Foto: Cidades da Net)Carro-forte foi assaltado na BR 407, a 10 km de Jaicós. (Foto: Cidades da Net)

Carro-forte foi assaltado na BR 407, a 10 km de Jaicós. (Foto: Cidades da Net)

O veículo foi abordado pelos assaltantes na BR-407, a 10 km da cidade de Jaicós. Os criminosos ultrapassaram o carro-forte e atiraram diretamente no vidro da frente. “A gente só viu quando o vidro de trás do carro deles quebrou e apareceram os canos das armas por dentro de três aberturas na placa de metal blindada que eles usam para se proteger. Nós nem atiramos, nem revidamos. O nosso motorista tentou tirar o carro, mas eles continuaram atirando”, lembra.

O motorista perdeu o controle do carro-forte e desceu o início de uma ribanceira na lateral direita da rodovia. Os quatro seguranças conseguiram sair, mas os assaltantes continuaram atirando. O segurança atribui a sobrevivência dele e a dos companheiros a um milagre. “Nós corremos e nos escondemos na mata e ouvimos só a explosão no carro.”

Vídeo mostra carro-forte atacado na BR-407

Vídeo mostra carro-forte atacado na BR-407

Interior do veículo ficou completamente destruído após o assalto na BR 407. (Foto: Cidades na Net)Interior do veículo ficou completamente destruído após o assalto na BR 407. (Foto: Cidades na Net)

Interior do veículo ficou completamente destruído após o assalto na BR 407. (Foto: Cidades na Net)

De volta à pista, o vigia lembra que sentia muita dor de cabeça e tontura, pela perda de sangue. Ele foi levado ao hospital e desmaiou. Quando acordou, os médicos informaram que tinha sido atingido apenas no antebraço direito e que os estilhaços continuavam alojados. “Eles disseram que era melhor não fazer cirurgia, porque podia comprometer os movimentos da minha mão”, explica.

Segundo Pedro, a mulher e as duas filhas pedem que ele abandone a profissão. “Mas não tem como, a gente tem que trabalhar. De vez em quando vêm na cabeça as cenas dos tiros, tudo. Nesses dias de jogos do Brasil [pela Copa do Mundo da Rússia], quando soltavam fogos, eu ficava só lembrando, mas estou tranquilo. Nesses 18 anos de profissão, nunca tinha acontecido e se Deus permitir, será a última vez.”

Cartuchos de armas longas foram encontradas na BR 407, a cerca de 10 km da cidade de Jaicós. (Foto: Cidades na Net)Cartuchos de armas longas foram encontradas na BR 407, a cerca de 10 km da cidade de Jaicós. (Foto: Cidades na Net)

Cartuchos de armas longas foram encontradas na BR 407, a cerca de 10 km da cidade de Jaicós. (Foto: Cidades na Net)

Vídeo: morte em SP

Um vigilante foi morto em 2 de março deste ano em Araçariguama, interior paulista, durante tentativa de assalto a um carro-forte. Criminosos atacaram um veículo que abastecia caixas eletrônicos num shopping, perto de um posto de combustíveis. As filmagens mostram parte da ação (veja abaixo).

Câmera de segurança registra tentativa de assalto a carro-forte em Araçariguama

Câmera de segurança registra tentativa de assalto a carro-forte em Araçariguama

Câmera: ferido na BA

Uma câmera de segurança gravou o momento em que dois vigilantes de carro-forte são baleados, em 1º de junho de 2018, durante tentativa de assalto a uma casa lotérica em Salvador, na Bahia. Os seguranças estavam saindo do local com malotes de dinheiro quando foram abordados pelos criminosos. Os feridos sobreviveram (assista abaixo).

Assalto termina com segurança baleado; câmera registrou toda a ação

Assalto termina com segurança baleado; câmera registrou toda a ação

Armas e vigilantes

“A grande preocupação dos vigilantes que transportam numerário em todo o país hoje é o aumento da quantidade de ataques violentos”, diz João Soares, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Segurança Privada.

“Lamentavelmente a gente queria que não fosse nenhum [vigilante morto ou ferido]”, diz Ruben Shechter, diretor presidente da Associação Brasileira de Transportes de Valores.

Tanto a Contrasp quanto a ABTV querem uma lei que autorize os vigilantes a usar armas mais potentes sob a alegação de que elas os ajudarão a se defender do armamento utilizados pelos criminosos.

“Os bandidos usam .50, AR-15, AK-47 equanto os vigilantes usam revólver calibre 38 e uma calibre 12”, lamenta Soares, da Contrasp.

“Já existe uma solicitação feita junto à Polícia Federal [PF] para que seja autorizada a utilização de novos armamentos, mas nós acreditamos que isso somente vai se viabilizar com a promulgação do novo estatuto da segurança privada”, disse Shechter. “Queremos ter elementos legais para oferecer aos nossos vigilantes armamento mais potente, volto a dizer, não para confronto com os criminosos, mas sim para maior segurança das operações”.

Para José Vicente da Silva Filho, consultor em segurança pública, porém, a solução para reduzir a letalidade de vigilantes não está em dar armas mais pesadas a eles. “Essa é uma solução burra, como nós chamamos. Porque aumentar a capacidade de confronto só vai gerar mais morte, pura e simplesmente”.

“O fato está numa solução muito simples”, sugere Silva Filho, que foi secretário Nacional de Segurança Pública e é ex-coronel da Polícia Militar (PM) de São Paulo. “É fácil pegar o dinheiro, é fácil encurralar um veículo de transporte de valores, é fácil retirar os vigilantes, ameaçando, eventualmente matando. Isso tem que ter fim e o fim é fácil: é só ter dispositivo de destruição das notas.”

Para o vigilante Lúcio Cláudio de Sousa Lima, os seguranças não querem armas para combater os criminosos, mas para se defender deles.”Precisamos de armamento que venha competir, não de igual para igual, porque é impossível, mas pelo menos aproximar dessa situação aí que o crime organizado traz”, aponta Sousa Lima, que dirige o Sindicato dos Trabalhadores em Serviços de Carros Forte, Guarda, Transporte de Valores, Escolta Armada, seus anexos e afins do estado de São Paulo (Sindforte).

“É mais ou menos essa ideia: tentarmos escapar dos ataques vivo. Sairmos vivos”, diz o vigilante.

Criminosos usam armas de guerra para intimidar seguranças (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida/ G1)Criminosos usam armas de guerra para intimidar seguranças (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida/ G1)

Criminosos usam armas de guerra para intimidar seguranças (Foto: Juliane Monteiro e Karina Almeida/ G1)

* Os nomes são fictícios, porque os entrevistados pediram para não ser identificados.

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