Bela, carismática, talentosa, decidida e generosa. Ao longo do tempo, esses foram alguns dos muitos adjetivos usados para descrever Violeta Lima e Castro (1878-1965), a Bebê, uma das principais musas da belle époque carioca e considerada a primeira miss Brasil da história, muito antes do surgimento dos famosos concursos. Nascida em Paris, numa família cuja fortuna teve origem em fazendas na região de Macaé, Bebê fez fama como cantora e colecionou admiradores (e detratores, claro) nos principais salões do Rio. Personagem ainda pouco conhecida, ganha agora uma biografia que traz à luz sua trajetória única.
Uma joia e um cravo. Esse foi o inusitado ponto de partida para que o músico e professor Marcelo Fagerlande resolvesse concentrar suas energias nos últimos três anos para contar a história Bebê Lima e Castro. Lançado na semana passada, “Muito além dos salões: Bebê Lima e Castro, musa do Rio em 1900” (Editora 7Letras) nasceu das lembranças de quando Fagerlande era ainda um cravista em formação, na Escola Superior de Música de Stuttgart, na Alemanha.
— Eu estava terminando os meus estudos e falei para minha mãe que era importante retornar ao Brasil com um instrumento de qualidade. Foi quando ela decidiu vender uma joia para viabilizar a compra desse cravo, que tenho até hoje. O caso é que essa joia foi herdada pelos meus avós justamente da Bebê, de quem eles eram muito amigos. Eu lembrei dessa história após ler o nome de Bebê no livro “Metrópole à Beira-mar — O Rio moderno dos anos 20”, do Ruy Castro, e comecei a pesquisar sobre ela. Logo ficou claro para mim que havia uma necessidade de contar a história dessa mulher tão fascinante — lembra Fagerlande, que ainda tem o instrumento, um Merzdorf de 1983.
A história ilustra um traço marcante da personalidade de Bebê: a generosidade. Sem filhos e sem parentes próximos, ela administrou com zelo e competência a vasta herança que recebeu dos pais e deixou um longo e detalhado testamento no qual distribuía sua fortuna entre amigos de toda a vida, empregados e instituições beneficentes.
— A joia foi apenas uma parte. Ela deixou para meus avós dois apartamentos e um Cadilac. Eu me lembro do carro, era uma coisa meio folclórica. Na pesquisa para o livro, tive acesso ao testamento e pude ver que ela deixou bens beneficiando mais de cem amigos, empregados e instituições. Ela deixou um carro para o meu avô e outro para o motorista dela — relata o autor.
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De volta ao começo
Mulher de espírito livre, nascida em uma era de padrões rígidos, Bebê teve que lutar bastante para construir sua história como desejava. Jovem, acompanhava a mãe nas mais badaladas festas da alta sociedade carioca e também nos teatros, onde as grandes atrações eram as óperas mais famosas da época. Com o tempo, desenvolveu gosto especial pela música lírica. Teve aulas de canto com o barítono italiano Renzo Russo, que se estabeleceu no Rio na última década do século XIX. Estava plantada a semente que acompanharia Bebê durante toda a vida.
Sua beleza e graça já eram comentadas nas altas rodas da cidade quando, em 1900, a revista “Rua do Ouvidor”, publicação de prestígio daquele período, promoveu um amplo e inédito concurso para escolher a mais bela mulher do Rio. A disputa gerou bastante interesse na então capital do país e passou a ser considerado o primeiro do gênero no Brasil, de onde vem a comparação inevitável com os concursos de miss que só se tornariam populares décadas mais tarde, a partir dos anos 1950.
A disputa, conta Fagerlande, envolveria apenas moradoras do Rio conhecidas nas rodas sociais da cidade ou sugeridas pelos leitores. A ideia pegou. Em pouco tempo, o concurso “viralizou” e se tornou assunto obrigatório na ruas e nas casas cariocas. Foram três edições até que se conhecesse a vencedora. Na primeira parcial, Bebê Lima e Castro aparecia em terceiro lugar, com 519 votos. Na edição seguinte, assumiu a liderança e não perdeu mais. Ao fim do concurso, 1.497 votos elegeram Bebê a “primeira miss” brasileira. A vitória valeu a Bebê uma pomposa premiação, com direito a medalha de ouro entregue pelos organizadores e à consolidação de sua fama.
Passado o momento de febre pela conquista, em 1901, veio outro episódio que marcaria profundamente a vida de Bebê.
— Ela se casou com sujeito, sobre o qual pouco se sabe, que se anunciava como barão, mas não era barão coisa alguma. Bebê, então, indo completamente contra os padrões, a norma da época, pede a anulação do casamento — conta Fagerlande.
A separação assume ares de escândalo na sociedade. Bebê, no entanto, não se abala.
— Ela levantou a cabeça e depois de um tempo voltou a frequentar os salões. Bebê conversava de igual para igual com políticos, como Sousa Dantas e Pinheiro Machado. Era uma mulher corajosa — resume o autor.
Não é possível dizer que Bebê fosse uma feminista, tal como o termo é usado nos dias de hoje, mas seu comportamento era certamente o de uma mulher que não aceitava passivamente as imposições de uma sociedade regulada por homens. Em 1920, Bebê faz uma palestra pública sobre o tema “A mulher e o amor”, na qual critica o comportamento dos homens.
— Além de superar sua origem de grã-fina, me impressiona como ela enfrentou o preconceito que a sociedade tinha contra as mulheres descasadas. Bebê impôs sua presença nos salões e mostrou que ninguém a segurava — observa o escritor Ruy Castro, que assina texto na contracapa do livro de Fagerlande no qual se pergunta: “Onde estivemos por todos esses anos que não soubemos de Violeta — Bebê — Lima e Castro?”.
Elogios de João do Rio
Depois da anulação do casamento, Bebê, mesmo contra a vontade do pai, passou a se apresentar de forma amadora cantando árias nos principais palcos da cidade. Aclamada pelo público, mereceu elogios do jornalista e escritor Paulo Barreto, o João do Rio, que reverenciava em texto seu “talento polimorfo” e a classificava como “a fascinação em pessoa”. Atento, o cronista notou ainda que Bebê era uma “notável artista, que a sociedade avaramente negou ao teatro”.
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João do Rio entendeu tudo. O pai de Bebê, fazia forte oposição a qualquer tentativa da filha de enveredar pelo mundo das artes. Após sua morte, ela vai para a Itália estudar canto lírico e retorna. Em 1925, estreia profissionalmente, com relativo sucesso. Três anos depois, no entanto, em récita da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, no Theatro Municipal, é alvo de uma estrondosa vaia e dá por encerrada, aos 50 anos, a carreira de cantora.
Até o fim da vida, Bebê continua a frequentar os salões e a participar de pequenos saraus privados. Em abril de 1965, O GLOBO registrou na primeira página, com direito a foto, a morte de Violeta “Bebê” Lima e Castro, aos 86 anos. O título: A beleza que se vai.
Retrato do Rio na belle époque
Fruto de ampla pesquisa realizada pelo cravista Marcelo Fagerlande em jornais, revistas e outras publicações de época, o livro “Muito além dos salões: Bebê Lima e Castro, musa do Rio em 1900” (Editora 7Letras) traça um perfil daquela que é considerada por muitos a primeira miss Brasil. De suas 183 páginas surge também um retrato de como era o Rio de Janeiro na chamada belle époque, período compreendido entre o fim do século XIX e início do século XX. A obra traz ainda farto material iconográfico com mais de 50 fotos, além da reprodução de publicações e anúncios dos espetáculos e festivais de música.

























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