Opinião – Cabeça em jogo

 

Por Juliana Albuquerque

Quase no fim do primeiro ano do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o todo poderoso ministro da Fazenda, Fernando Haddad, enfrenta seu primeiro grande embate com integrantes da cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT). O principal se dá com a presidente da sigla, Gleisi Hoffmann, que parece que até hoje não se conformou por ter sido deixada de fora por Lula do primeiro escalão desse terceiro mandato do líder petista.

Essa falta de sintonia ficou evidente no último fim de semana, durante a conferência nacional do Partidos dos Trabalhadores sobre as eleições municipais de 2024, em Brasília. Na ocasião, o ministro da Fazenda rebateu publicamente a presidente da sigla, que parecia entender mais de economia do que o escolhido por Lula.

Durante o embate, Gleisi defendeu um déficit nas contas públicas de 2% no ano que vem, o que foi endossado por outros integrantes do partido, a exemplo do líder do Governo na Câmara, José Guimarães. Sem papas na língua, Haddad afirmou em alto e bom som que uma coisa é controlar o déficit cortando do pobre, outra coisa é fazer com que quem não paga imposto pague.

“Eu acho que a gente consegue ajustar os parafusos de um jeito em que o juro possa cair, resolvendo alguns gastos tributários, fazendo a Reforma Tributária. Não tem bala de prata. ‘Faz o déficit e resolve tudo’. Não existe isso. É um conjunto de medidas para fazer a economia crescer”, rebateu Haddad.

A fala de Haddad não foi bem recebida pelos integrantes do PT, que temem que o ministro da Fazenda possa se opor à expansão do gasto público no ano que vem, quando ocorre eleição municipal, momento o partido almeja mais que dobrar a sua base nas prefeituras, saindo de 227 para cerca de 500 chefes dos executivos municipais.

Não será de se estranhar que, diante do imbróglio, a cabeça do superministro de Lula seja posta em rifa. Afinal, rebater publicamente a presidente do partido em plena convenção, por mais correto que Haddad possa estar, pode colocar em xeque os planos do PT para 2024. A conferir.

Histórico – Não é de hoje que Gleisi e Haddad divergem sobre questões econômicas. Em março, ela criticou o ministro da Fazenda após a pasta autorizar o retorno da cobrança dos impostos federais sobre os combustíveis. Na época, a presidente do PT publicou em suas redes sociais que o momento escolhido pelo ministro para o retorno da taxação iria “penalizar o consumidor, gerar mais inflação e descumprir o compromisso de campanha”.

Vitória – Com o aval do presidente, a decisão de reonerar o imposto foi interpretada como uma vitória a Haddad sobre Gleisi, mas para os integrantes do partido foi vista como o início de uma relação que até hoje segue estremecida. Isto porque, aliados do presidente Lula defendiam a prorrogação da desoneração dos impostos federais sobre gasolina e etanol para evitar um repique na inflação e uma eventual perda de popularidade do chefe do Executivo.

Divergências – Gleisi e Haddad também divergem sobre a meta fiscal. A presidente do PT defendeu, em entrevista ao Valor Econômico, em agosto, a revisão da meta de zerar o déficit em 2024. Já o ministro da Fazenda defende a manutenção do equilíbrio fiscal de forma enfática. Em outubro passado, ela voltou a tocar no tema, após Lula dizer que “dificilmente” a meta fiscal será cumprida. Na ocasião, Gleisi afirmou que o presidente “protegeu” Haddad porque “o resultado primário zero será impossível no ano que vem”.

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