“Já temos evidências sólidas para o uso em casos de epilepsia refratária, especialmente em crianças. Outro campo muito promissor é o alívio da dor — um dos sintomas que mais impactam a qualidade de vida dos pacientes. Também vemos bons resultados em quadros de ansiedade, distúrbios do sono e até como coadjuvante no tratamento de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. Em oncologia, a cannabis tem sido uma grande aliada para amenizar efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômitos e falta de apetite”, destaca Badaró.
Segundo o especialista, o segredo da versatilidade da cannabis está na sua interação com o sistema endocanabinoide — um conjunto de receptores que todos os seres humanos possuem, responsáveis por regular funções como sono, dor, apetite, humor e memória.
Benefícios
“A cannabis ajuda a promover o equilíbrio do organismo, o que pode trazer efeitos muito positivos, como a melhora do sono, o controle da ansiedade, a redução da dor e da inflamação, além de estimular o apetite e aliviar náuseas”, explica o especialista. “Em doenças neurológicas, por exemplo, observamos melhora na qualidade de vida dos pacientes, com mais foco, menos espasmos, e até ganhos cognitivos em alguns casos.”
Ainda segundo o médico, os benefícios vão além do alívio de sintomas. Muitos pacientes relatam uma transformação profunda no seu cotidiano. “Mais do que tratar sintomas isolados, a cannabis tem um papel importante no bem-estar geral. Muitos relatam uma sensação de retomada da autonomia, porque voltam a dormir melhor, a sentir menos dor, a viver com mais disposição. E isso, para nós médicos, é talvez o maior benefício: ver a pessoa voltar a viver com dignidade.”
Tratamentos convencionais x cannabis medicinal
Ao comparar a cannabis medicinal com terapias convencionais, Badaró faz uma distinção fundamental: nem todos os produtos de cannabis são iguais.
“Hoje, apenas alguns medicamentos à base de cannabis, como Epidiolex e Sativex, foram aprovados por agências regulatórias após passarem por todas as etapas exigidas de estudos clínicos. Já os produtos de cannabis para uso medicinal, cada vez mais utilizados no Brasil com prescrição médica, ainda estão em fase de estudo, mas apresentam resultados promissores”, explica.
Dependência e efeitos colaterais: o que dizem os dados?
Uma das preocupações mais frequentes é sobre o risco de dependência. Mas, segundo Badaró, esse risco é baixo em contextos médicos. “Em pacientes que usam produtos com prescrição, o risco de dependência é muito baixo — especialmente quando falamos do CBD, que não é psicoativo e inclusive tem sido estudado como uma possível alternativa no tratamento da dependência de outras substâncias”.
Já o THC, composto com efeito psicoativo, requer atenção. Pode ter potencial de abuso, mas seu uso em formulações terapêuticas controladas é seguro, desde que monitorado.



























