Reconstituição da prisão de jagunços pelo exército brasileiros na Guerra de Canudos, no interior da Bahia, 1897

Em setembro de 1897, o Exército enviou a Canudos a quarta e última expedição para derrotar Antônio Conselheiro e seus seguidores. O fotógrafo Flávio de Barros se juntou a eles com o objetivo de retratar oficiais, tropas, prisioneiros e a vila incendiada. Naquele momento, o arraial já havia sofrido sérias derrotas, e o próprio Antônio Conselheiro estava morto – embora o Exército ainda não soubesse disso. Canudos estava cercada, as estradas, controladas pelo Exército, e não havia mais água nem comida para a população local. Os militares estavam certos de sua vitória, e a missão de Flávio de Barros era registrar esse sucesso.
 Fotografia de Flávio de Barros
Além disso, ele deveria construir uma visão edificante dos militares e minimizar suas dificuldades. As condições das tropas eram precárias. Os soldados estavam cansados, havia falta de alimentos e munição. Mas isso tudo era omitido sob censura rígida do Exército. Planejadas e estáticas, suas fotos sempre mostram os sertanejos como derrotados.
Augusto Flavio de Barros notabilizou-se pela documentação que fez da Guerra de Canudos. Foi o autor dos únicos registros até hoje conhecidos do dia a dia das tropas, da rendição e destruição do arraial organizado por Antônio Conselheiro. Flavio de Barros criou um álbum de 70 fotografias do confronto, tendo registrado a paisagem árida do sertão baiano, a destruição do Arraial de Canudos, a imagem do corpo exumado de Conselheiro, grupos de oficiais e além de, segundo Boris Kossoy, “uma pretensa cena de ação montada onde se vê um grupo de jagunços sendo dominado pela cavalaria do Exército”. O fotógrafo havia sido contratado pelo Exército para registrar as ações militares, acompanhando a Divisão de Artilharia Canet, sob o comando do general Carlos Eugênio de Andrade Guimarães. Partiu de Salvador, em 30 de agosto de 1897, passou por Alagoinhas, Queimadas, Tanquinho, Cansanção, Quirinquinquá e Monte Santo. Chegou em Canudos, em 26 de setembro, onde ficou até, provavelmente, 12 de outubro.
São poucos os dados biográficos sobre Flavio de Barros, mas se sabe que na última década do século XIX ele possuía um estúdio de retratos na cidade de Salvador na Rua do Lyceu, 3. No início do século XX, era proprietário do estabelecimento Photografia Americana, na rua da Misericórdia. Segundo o pesquisador Claude Santos, no artigo “A fotografia e Canudos”, de 1997, antes de ser fotógrafo, Flavio de Barros havia sido pintor.
O nome de Flávio de Barros sequer era mencionado na imprensa, não sendo ele considerado correspondente porque na época não era possível publicar fotos em jornais. Só se sabe que esse obscuro fotógrafo baiano foi incumbido pelo exército, sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, da perigosa e estafante missão de documentar a campanha de Canudos, pouco atraente para os fotógrafos mais renomados da Bahia. Não sabemos se ele foi pago pelo governo, mas é de se supor que não diretamente. De qualquer forma as fotografias, uma mercadoria, eram comercializadas, sendo o exército e os oficiais provavelmente os seus melhores consumidores. Não se sabe se foi um bom negócio, talvez nem tanto, porque de outro modo o número de álbuns preservados até hoje deveria ser maior.
Foi a primeira vez que o próprio exército brasileiro fez questão de documentar uma guerra fotograficamente. Essas imagens foram elemento significativo no conjunto dos esforços propagandísticos do exército e das elites, no sentido de uma política de informações e desinformações perante a opinião pública no Brasil e no mundo, com freqüentes comunicados para a imprensa nacional e internacional. Uma das primeiras atividades da quarta e última expedição foi a construção do telégrafo de Queimadas até Monte Santo, posto avançado da civilização perto de Canudos e base das operações, com papel portanto não só estritamente militar. Mediante o controle do telégrafo e, de modo geral, dos correios, o exército praticou uma ferrenha censura, além de ameaças físicas contra correspondentes que divulgassem notícias indesejáveis para a tropa, como no caso do corajoso Manuel Benício, do Jornal do Commercio, obrigado a deixar a zona da guerra.
Outros correspondentes desfrutaram do convívio amistoso com oficiais e comandantes pois, de modo geral, havia estreita colaboração entre a imprensa e o exército, com militares escrevendo artigos e, mais tarde, livros, mas também com jornalistas que eram oficiais da reserva.
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