Autora de polêmicas fotos diz que família russa largou drogas
Em 2008, fotos de uma família de São Petersburgo (Rússia) chocaram a internet. As imagens feitas pela fotógrafa russa Irina Popova, nascida emTver, mostraram o cotidiano de Lilya e Pasha, um casal desempregado e viciado em drogas, ao lado da filha, Anfisa, então com 2 anos. As fotos lhe renderam prêmios e polêmica.
Os registros na residência apertada, insalubre e decadente revelam imagens que pertubaram muita gente, a ponto de ser lançada uma campanha na web para que os pais perdessem a guarda da filha. Nas fotos, Anfisa é vista com cigarro na boca, dividindo a cama com os pais nus e correndo risco de queda na janela aberta do apartamento.
Em entrevista exclusiva ao PAGE NOT FOUND, Irina contou como foi a experiência com a família conterrânea, defendeu-se das críticas por não ter intervindo e revelou que mantém contato com Lilya e Pasha. Segundo a fotógrafa, os russos retratados por ela agora experimentam uma nova situação, livre das drogas. Irina lançou um livro sobre a experiência.


PAGE NOT FOUND: Como você descobriu a família e como a convenceu a posar para o controvertido ensaio?
IRINA POPOVA: Eu encontrei Lilya em uma rua à noite. Comecei a fotografá-la e ela me convidou a visitá-la em casa. Acabou que fiquei lá por duas semanas, com apenas um intervalo.
PAGE NOT FOUND: Você pagou algum “cachê” à família?
IRINA POPOVA: Não paguei nada. Às vezes comprava comida e ajuda com a menina. Mas isso é o que uma pessoa normal faz quando vai visitar ou ficar na casa de alguém. Eles me aceitaram lá e eu os aceitei enquanto estive na casa. Lilya era o meu principal contato. Tive uma excelente relação com ela.


PAGE NOT FOUND: Alguns críticos dizem que você deveria ter intervindo para proteger a criança. O que você tem a dizer sobre isso?
IRINA POPOVA: Eu já havia intervindo com a câmera, com um resultado doloroso para todos. Não creio que eu tivesse o direito de mudar o que quer que fosse na família. Como experiente fotógrafa, posso dizer que já vi coisas terríveis em orfanatos russos. Se eu tivesse que tomar uma decisão, ela seria ficar do lado de qualquer família. Não tenho o direito de mudar o destino das pessoas. Acho que a revolta da sociedade é uma característica da própria sociedade: agressiva, intolerante e destrutiva. Acredito que muitas pessoas que comentaram negativamente sobre a série de fotos na internet sejam mais terríveis que os punks que fotografei. Acredito que a sociedade necessita de um bom sistema de apoio e integração, não um sistema de punição. Acima de tudo, essa família atraiu a atenção pública por ser mais aberta e ingênua. Eles
deixaram uma fotógrafa entrar, e a fotógrafa foi ainda mais ingênua acreditando que as coisas mudariam na sociedade.
PAGE NOT FOUND: Qual foi a coisa mais terrível que você testemunhou durante a estada na casa?
IRINA POPOVA: Eu realmente não vi tantas coisas terríveis. Cresci em um lugar e numa época em que as crianças dos amigos da minha mãe morriam todo ano em consequência de drogas e álcool. O jardim onde eu costumava brincar era cheio de seringas. Esse tempo passou, mas não totalmente. A coisa mais terrível da história talvez tenha sido quando eles tentaram enfrentar o problema das drogas e foram a um monastério em Valaam (arquipélago de na parte norte do Lago Ladoga pertencente à República da Karelia, unidade da Federação Russa). Lá, eles têm um programa para a recuperação de pessoas desempregadas, sem teto e viciadas. Depois dessa viagem exaustiva, eles foram rejeitados pelos monges, que disseram que não havia vagas. Outra coisa terrível foi a reação da sociedade e os seus comentários na internet.


PAGE NOT FOUND: Uma das fotos que mais chamaram atenção foi a que mostra Anfisa com cigarro na boca. Como isso aconteceu?
IRINA POPOVA: Ela simplesmente achou os cigarros da mãe e começou a brincar.
PAGE NOT FOUND: Após as fotos serem divulgadas, foi lançada uma campanha na web pedindo que Anfisa fosse retirada dos pais. Isso não aconteceu. Você acredita que essa tenha sido a melhor decisão?
IRINA POPOVA: Não posso julgar o que foi ou é a melhor decisão. Não tenho direito. Estou feliz que não tenha havido qualquer acontecimento trágico.

Irina Popova (Outros trabalhos da russa aqui)

‘Uma família diferente’, livro de Irina Popova
PAGE NOT FOUND: Seis anos após as fotos, você ainda mantém contato com Lilya e Pasha?
IRINA POPOVA: Sim, sei como eles estão. Mas foi um acordo separarmos a história da vida real. Prefiro deixar a vida deles na esfera privada e não fazer dela um show para a TV com atualizações contínuas. Tudo o que posso dizer é que eles não usam mais drogas e a menina está bem. A família tem uma forma de viver bem particular, mas é a forma deles.
PAGE NOT FOUND: Você pretende fazer um novo trabalho fotógrafico com a família?
IRINA POPOVA: Não pretendo.
As fotos deste post foram cedidas por Irina Popov
(O Globo)


























