“Cegueira facial”: neurocirurgião explica distúrbio que faz Brad Pitt não reconhecer rostos

“Em casos graves, a pessoa tem dificuldade até de reconhecer o seu próprio rosto perante o espelho”, afirma o neurocirurgião Cláudio Falcão, do Hospital Jayme da Fonte

A dificuldade em lembrar-se de pessoas conhecidas pode ter base científica. O que antes era banalmente colocado como “uma péssima memória” pode ser o principal sintoma do distúrbio neurológico da prosopagnosia, também conhecido como “cegueira facial”.

A condição se popularizou nas últimas semanas e despertou a curiosidade das pessoas ao redor do mundo após o astro do cinema norte americano, Brad Pitt, compartilhar os dilemas de viver com o transtorno.

O neurocirurgião Cláudio Falcão, do Hospital Jayme da Fonte, no Recife, explica que a condição é caracterizada pela perda ou comprometimento da capacidade de reconhecer rostos, incluindo pessoas do convívio cotidiano como colegas de trabalho, amigos e parentes. “Em casos graves, a pessoa tem dificuldade até de reconhecer o seu próprio rosto perante o espelho”, afirma.

De acordo com Cláudio Falcão, a principal preocupação dos pacientes que convivem com a prosopagnosia é justamente o medo de serem interpretados como arrogantes, como relatado pelo astro de Hollywood.

“Muitas vezes essas pessoas são conhecidas como arrogantes, prepotentes, porque têm essa dificuldade de reconhecer o rosto de pessoas, inclusive, a depender do grau, de pessoas da própria família”, conta o médico.

As causas, segundo o neurocirurgião, podem ser desde congênitas, quando se nasce com o distúrbio, ou adquiridas, após acidente vascular cerebral, trauma de crânio, tumores ou doenças degenerativas, como o Alzheimer, que afetam áreas cerebrais ligadas ao reconhecimento da face.

“Quando adquirida, geralmente ocorre quando há um grande acometimento do lobo temporal, do lobo occipital e de uma região no cérebro chamada de “giro fusiforme”, que controla a percepção do rosto, da face e a memória”, explica o especialista .

Apesar de pouco conhecida, Cláudio Falcão destaca que a condição não é tão rara como se imagina. “Pesquisas recentes mostram que uma a cada 47 pessoas, aproximadamente, convive com esse distúrbio de forma leve e em média uma a cada 108 pessoas desenvolvem o quadro grave”.

O diagnóstico, assim como o de outras neurodivergências, é consolidado após uma combinação de avaliações neurológicas associadas a testes cognitivos específicos, além de exames de imagem do cérebro, como uma ressonância que pode identificar lesões associadas.

Com relação ao tratamento, o neurocirurgião esclarece que, como não há uma cura para a prosopagnosia, consiste no desenvolvimento de estratégias compensatórias para minimizar o impacto no dia a dia e, em casos mais complexos, terapias cognitivas e comportamentais.

“A pessoa que tem dificuldade para reconhecer rostos pode identificar roupas com cheiro, perfume, de pessoas do convívio dela, que podem ajudar a identificar sem a necessidade do reconhecimento facial”, sugere o especialista.

Apesar de não haver formas conhecidas de se prevenir a condição congênita do distúrbio, nos casos adquiridos alguns fatores podem levar à prevenção de doenças que podem, consequentemente, levar à prosopagnosia. “Controlar a pressão, a diabetes e evitar o risco de doença cerebrovascular é extremamente importante”, alerta o médico.

É importante ressaltar que na prosopagnosia as áreas cerebrais referentes à visão não estão comprometidas. “Estão comprometidas outras áreas de reconhecimento, é aquela coisa de ver e não enxergar. Isso tem que ficar bem claro”, finaliza Falcão.

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