O difícil equilíbrio de lidar e dar apoio às vítimas do Alzheimer

Com o envelhecimento da população, doença se alastra e afeta idosos, deixando sequelas, também, em seus parentes

Priscilla Costa 

Thiago/Arte FolhaPE

Cada vez mais comum, o Alzheimer é uma doença que afeta e desequilibra a estrutura de muitas famílias. De acordo com a médica geriatra e presidente da Associação Brasileira de Alzheimer em Pernambuco (Abraz-PE), Carla Núbia Borges, o tipo de demência mais comum entre a população idosa, surge lentamente e muitas vezes não é percebida. Fatos ocasionais, como perda de memória ou comportamentos estranhos, vão se tornando cada vez mais frequentes e doenças clínicas, como depressão, anemias, infecções urinárias ou distúrbios hormonais, podem simular um tipo de demência ou acelerar sua evolução. “Para um diagnóstico correto é necessário uma completa avaliação da história clínica, exames laboratoriais e por imagem. O resultado definitivo vem apenas com biópsia ou autópsia”, explicou a especialista, que trabalha há 15 anos na área.

Além do tratamento clínico, os portadores precisam de apoio total, pois não podem ser deixados sozinhos. “É um trabalho integral, que requer muita paciência e uma dedicação de corpo e alma. Por isso, deve ser feito com muito amor”, relatou a técnica de Enfermagem Woleide Maria da Silva, que há quatro anos cuida da paciente com Alzheimer, Maria de Lourdes, de 73 anos. Assumir o cuidado de uma pessoa com esta doença não é uma tarefa fácil, pois exige do cuidador – seja ele um familiar, um enfermeiro ou um acompanhante – dedicação, motivação e muito apoio.

Apesar dos desafios encontrados durante o dia a dia, a cuidadora Woleide disse se sentir motivada para exercer a função após assistir aulas de geriatria do curso técnico em Enfermagem. “A capacitação me ajudou a entender mais sobre o Alzheimer e como ele se agrava durante a meia idade. Depois que cuidei do meu pai, que sofria do mal, vi que tinha jeito. Me identifiquei de imediato”, contou. Segundo ela, para garantir uma boa qualidade de vida dos pacientes, é preciso não apenas estimulá-los a executar tarefas sozinho, mas sobretudo respeitá-lo, reconhecendo toda sua história de vida. “O idoso com a doença passa a ser uma criança, por isso é preciso paciência e dedicação por inteiro. Mas está comprovado que o cérebro, mesmo idoso, tem capacidade para novos aprendizados, por isso que é bom estar sempre em atividade”, ressaltou.

Hesíodo Góes/Folha de Pernambuco

Técnica de Enfermagem, a cuidadora Woleide ensina que é preciso amar e respeitar

No caso de Maria de Lourdes, o Alzheimer foi desencadeado devido a um erro médico durante uma cirurgia de reconstrução do colo do fêmur, realizada em 2010. De repouso, na cama, durante um mês, ela não respondia positivamente ao processo normal de recuperação e os sintomas da depressão se acentuaram. “Lembro que mamãe sofria de depressão e tinha alguns lapsos de memória bem antes da cirurgia, mas nada que me fizesse despertar para a doença. Achava que era algo normal da idade”, disse um dos filhos, o empresário Paulo Bezerra, 37 anos. Preocupado com o avanço do quadro clínico da mãe, Paulo resolveu, então, procurar ajuda médica. Segundo ele, após realizar vários exames, foi detectado que Maria de Lourdes já sofria da doença há seis anos. “Ao receber o diagnóstico, fiquei bastante surpreso, pois jamais iria imaginar que aqueles sintomas de depressão e os esquecimentos eram sinais de um quadro já avançado. Lembro que o que me deixou mais firme para encarar a doença foram os tratamentos psicológicos e o apoio da minha noiva”, relembrou.

Para ele, o fato de muitas famílias demorarem a procurar ajuda se justifica pela falta de informação e também na negação da doença. “É frequente que a demora na identificação aconteça pelo receio de enfrentamento das mudanças. O atraso no diagnóstico pode gerar culpa nos familiares, por não terem oferecido tratamento previamente. Hoje, passo a minha história adiante para outras pessoas como uma forma de alertá-las. É na fase idosa que se deve estar atento a tudo, por mais que pareça um simples problema”, aconselhou Paulo Bezerra.

Fases – A doença possui três fases – leve, moderada e severa ou grave – , com características diferentes. Porém, não há limite, nem tempo preciso de cada etapa. Segundo a especialista Carla Borges, por mais que se use remédios para retardar o agravamento dos sintomas, chega um momento em que o portador da doença já não consegue fazer nada só, por isso a importância de se contratar um profissional especializado para cuidar de pacientes com Alzheimer. avançado.

Encontro – A Associação Brasileira de Alzheimer em Pernambuco (Abraz-PE) promove, no mês de abril, o encontro “Falando de Alzheimer”, com o objetivo de levar palestras e experiências de quem lida diretamente com pacientes portadores da doença. Para se inscrever ou obter outras informações: (81) 8808.0263.

Fonte: FolhaPE

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