Mensageiros das facções: câmeras flagraram advogados de traficantes na Bahia recebendo ordens em presídio

Gravações obtidas durante investigação mostram profissionais recebendo instruções sobre tráfico, armas, homicídios e sequestros

Por Wendel de Novais

Ícaro Cardoso Viana e Fernanda Oliveira Borges foram flagrados em vídeos Crédito: Reprodução/Fantástico

Vídeos gravados com autorização judicial revelaram como advogados investigados por atuar como mensageiros de facções criminosas recebiam e levavam ordens de traficantes custodiados no Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, unidade destinada a líderes do crime organizado na Bahia.

As imagens, registradas entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, foram obtidas pelo Fantástico e mostram encontros em que os profissionais recebiam instruções sobre tráfico de drogas, armamentos, homicídios, sequestros e movimentação financeira das organizações criminosas.

As gravações fazem parte da investigação que resultou, na última sexta-feira (3), na prisão de dez advogados durante uma operação do Ministério Público da Bahia (MP-BA), com apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). Além dos profissionais, também foram cumpridos mandados judiciais contra 12 detentos apontados como integrantes das facções.

Os investigadores flagraram os advogados recebendo bilhetes com determinações das lideranças criminosas. Para escapar da fiscalização, os documentos eram escondidos sob as roupas íntimas antes de serem retirados do presídio. As imagens ainda mostram os presos repassando orientações detalhadas sobre compra e venda de armas, contabilidade do tráfico e planejamento de assassinatos e sequestros.

Entre os investigados está o advogado Ícaro Cardoso Viana. Em um dos vídeos, ele aparece recebendo instruções para buscar duas pistolas com a tia de um dos traficantes. Em outro momento, faz anotações enquanto um detento dita valores de drogas utilizando codinomes como “peixe” para cocaína, “óleo” para crack e “chá” para maconha. As investigações apontam ainda que a organização utilizava cheques bancários para controlar parte da movimentação financeira.

Outra advogada citada é Fernanda Oliveira Borges. As imagens mostram a investigada retirando papéis de dentro das roupas enquanto recebe informações sobre balanços financeiros do tráfico. Conforme a apuração, ela também anotava ordens para cobranças de dívidas mediante ameaça e instruções relacionadas ao planejamento de sequestros.

Maria Mariana Batista de Oliveira também foi registrada durante as visitas ao presídio. De acordo com a investigação, ela mantinha contato frequente com uma liderança do Comando Vermelho. Em uma das gravações, a advogada aparece emocionada ao comunicar ao preso a morte de um integrante da facção durante a Operação Contenção, realizada na Bahia.

Na sequência, o detento afirma que pretende matar policiais, enquanto ela recebe informações sobre o paradeiro de uma carabina, identificada pelo codinome “CT”, além de detalhes sobre munições e orientações para embalar cocaína em pinos plásticos destinados à comercialização.

Os relatórios produzidos pelos investigadores indicam que os advogados extrapolavam a atuação jurídica e prestavam assessoria informal às facções fora dos processos judiciais. Conforme a investigação, eles mantinham os chefes das organizações atualizados sobre o fluxo de caixa do tráfico e ainda auxiliavam na divulgação de fotos e vídeos promocionais de drogas em aplicativos de mensagens para ampliar as vendas e fortalecer a atuação dos grupos criminosos.

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