Adolescentes em guerra com o próprio corpo

Quase um terço dos entrevistados por pesquisa de estudiosa da UFPE não gosta da própria aparência

Marcionila Teixeira

 

Júlia (nome fictício) luta contra a bulimia:
Júlia (nome fictício) luta contra a bulimia:”Não tenho vontade de comer. Se insistir, vomito” – Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press

A medida da satisfação de Júlia (nome fictício), 16 anos, varia de acordo com sua aparência corporal. O ápice da felicidade pode residir no fato dos ossos da clavícula apontarem sobre seu busto. Tanto melhor quando a coluna mostra-se proeminente em suas costas. No dia da entrevista, a garota alimentou-se apenas com um copo de água e três bolachas. Apesar do estômago vazio, dizia não ter fome. Pesa 58 kg distribuídos em 1,65 m, mas se acha gorda. Está tão apreensiva com o “excesso de gordura” que se pesa todo dia, em busca de constatar gramas perdidas.

O drama de jovens como Júlia foi revelado em uma pesquisa inédita realizada com pessoas entre 10 e 19 anos em 20 escolas estaduais do Recife. O levantamento apontou que três em cada dez adolescentes entrevistados (30,9%) estão insatisfeitos com o corpo. Apesar de estarem no peso ideal, desejam ser magros. O olhar negativo sobre a silhueta se materializa da pior forma: comportamentos alimentares que pode levar à bulimia e à anorexia.

A pesquisa revela outra novidade: a doença é mais cruel com as filhas de pais com menos escolaridade. “Muitas vezes as famílias até estimulam o regime, achando que é bobagem. Alguns não percebem os filhos doentes, pois saem cedo para trabalhar. É um mito pensar que só os mais ricos, com abundância de alimento, têm a doença”, explica a psicóloga Tatiana Bertulino, autora do estudo desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Neuropsiquiatria e Ciência do Comportamento da UFPE.

Filha de empregada doméstica e moradora da Bomba do Hemetério, Júlia chegou a ser levada pela mãe para acompanhamento psicológico. “A psicóloga mostrava fotos de meninas muito magras. Minha mãe comprou remédios para abrir o apetite, mas joguei fora. Não tenho vontade de comer. Se insistir, vomito”.

Os maiores riscos envolvem os jovens de 14 e 15 anos, faixa na qual estão as taxas mais altas de sintomas de transtornos alimentares e insatisfação corporal, segundo a pesquisa. “Essa tendência pode estar relacionada às expectativas da sociedade para homens e mulheres”, afirma a psicóloga. Segundo ela, é como se esses jovens não tivessem outro motivo para ser felizes, pois dirigem à forma física ideal todo o prazer de viver.

Pata Tatiana, o estudo revela a necessidade de campanhas e programas que estimulem a aceitação corporal e a adoção de hábitos saudáveis. “É interessante também reduzir a influência da mídia de modo a desvincular a imagem do corpo magro à atratividade e ao padrão de beleza ideal”, pontua.

Mães e filhas

A insatisfação com o corpo e os transtornos alimentares podem envolver também ambientes familiares desorganizados e relações parentais problemáticas, sobretudo com a mãe. A observação é do psiquiatra Amaury Cantilino. Outro aspecto é o fator biológico. “É algo que pode ser geneticamente determinado. Essas pessoas têm chances maiores que podem ser despertadas”.

Lara Pacheco, 23 anos, estuda fisioterapia e ensina pilates. “Trabalho o corpo e ensino as pessoas a conhecerem os delas”, diz. Mas a relação de Lara consigo nem sempre foi saudável. Ela teve um quadro grave de bulimia e anorexia entre os 16 e 17 anos, iniciado a partir da morte de um parente. Foi internada por um mês. A gravidez inusitada de Sofia, hoje com cinco anos, foi a salvação. “Se a gestação não tivesse acontecido, eu não estaria aqui hoje”. Para Lara, o combate ao transtorno alimentar está no amor dos familiares e na negação do preconceito.

Bulimia

A bulimia é uma doença na qual uma pessoa exagera na ingestão de alimentos ou tem episódios regulares em que come em excesso e sente perda de controle. Dessa forma, a pessoa com bulimia usa vários métodos, como vômitos, abuso de laxantes e excesso de exercício, para impedir o ganho de peso. Segundo Tatiana Bertolino, apresenta-se em personalidades mais impulsivas

Anorexia
Pessoas com anorexia podem ter um medo intenso de ganhar peso, mesmo quando estão abaixo do peso normal. Elas podem abusar de dietas ou exercícios, ou usar outros métodos para perder peso. Segundo Tatiana Bertolino, manifesta-se em personalidades controladoras, mais rígidas. Normalmente são considerados ótimos filhos e alunos

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A pesquisa

20 escolas estaduais do Recife foram visitadas
9 escolas são da Gerência Norte e 11 da Gerência Sul

1.441 adolescentes foram ouvidos entre 10 a 19 anos

37,1% das meninas entrevistadas estão insatisfeitas com o corpo

17,7% dos meninos entrevistados estão insatisfeitos com o corpo

14 e 15 anos é a faixa etária com maior
índice de sintomas de transtorno alimentar

34,10% das meninas ouvidas têm sintomas

27,40% dos meninos ouvidos têm sintomas

Fonte: Diário de Pernambuco

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