Almanaque destrincha acontecimentos que marcaram o ano de 1964

  • Entre os fatos estão a Guerra Fria, o Brasil enfrentando o golpe militar e os Beatles se consolidando nos EUA
  • Autora lista dia a dia 

LEONARDO LICHOTE

Filmes e artistas que se destacaram em 1964 Foto: Divulgação
Filmes e artistas que se destacaram em 1964 Divulgação

No calendário do século XX, 1964 está marcado em vermelho como o ano do Golpe no Brasil. Mas a folhinha daquele ano tem marcas que vão além de toda a infâmia que cerca o 31 de março/1º de abril — e seus antecedentes e reflexos futuros. Aquele foi, por exemplo, o ano de “007 contra Goldfinger”, da “invasão” dos Beatles aos Estados Unidos, da eleição da primeira Miss Guanabara negra, do disco “É proibido fumar” de Roberto Carlos. Uma saga multifacetada que a jornalista Ana Maria Bahiana ilumina com leveza em “Almanaque 1964” (Companhia das Letras). Ela autografa nesta sexta-feira o livro, depois de um debate com o colunista do GLOBO Arthur Dapieve sobre a efervescência cultural daquela década, às 18h30m, no CCBB. Na terça-feira que vem, às 19h, é o lançamento oficial, na Livraria da Travessa do Leblon.

No livro, Bahiana acompanha de perto os 366 dias de 1964 — sim, um ano bissexto, iniciado numa quarta-feira, “dia de Mercúrio, deus da comunicação, dos viajantes, da sorte, do comércio, das fronteiras, dos truques e dos ladrões, e guia das almas dos mortos ao submundo”, como escreve a jornalista. Dividido mês a mês, dia a dia, o almanaque marca um fato, uma frase, uma curiosidade daquela data, numa panorâmica que põe lado a lado a densidade histórica da tomada de poder pelos militares (destrinchada hora a hora ao longo dos dias 31 e 1º) e trivialidades como a malícia nonsense de “Bigorrilho”, sucesso naquele carnaval na voz de Jorge Veiga.

— Há muitas narrativas possíveis — diz Bahiana. — Dentro da geopolítica mundial, o golpe fazia todo o sentido. Era parte de um grande processo da Guerra Fria, de Estados Unidos e União Soviética se enfrentando pelo controle do mundo. A guerra do Vietnã e o golpe no Brasil fazem parte da mesma narrativa. Para mim, o momento mais “uau!” disso é a conversa entre Lyndon Johnson e um secretário de Estado, na qual eles falam do Golpe e já conversam sobre o Chile (ocorrido no dia 11 de junho, o diálogo tem falas como “O Brasil foi muito bem” e “Mas agora temos essa eleição no Chile, está indo bem mas ainda temos muito trabalho pela frente”). Por outro lado, a maré de mudança comportamental que vem desde os anos 1950 não é interrompida. E eu queria sobretudo contar a história das pessoas comuns. Me interessa a forma como elas lidavam com falta de luz, que programas viam na televisão. Porque no fim das contas são essas pessoas que vão tocar a continuidade da História. Quis manter todos esses triviais variados, checar preços dos alimentos, previsão do tempo, para dar essa ideia de como as pessoas estavam vivendo enquanto os poderosos faziam seus jogos de xadrez.

Um dos caminhos que ela buscou foi mergulhar nas revistas da época. A editora enviou para ela, que mora nos Estados Unidos, uma caixa repleta de exemplares de “Revista do rádio”, “Manchete”, “Cruzeiro” e outras.

— Meu exercício era pôr a máscara, devido à poeira, e ler como se estivesse na época. As revistas são um dos recursos mais viscerais para isso. Você tem além dos textos, que me impressionaram pela alta qualidade, elementos como a publicidade, muito moderna, com os reclames dos anos 1940 e 1950 sendo rapidamente substituídos por uma estética saturada, de cores não realistas, mais minimalista — avalia Bahiana, que já havia lançado o “Almanaque anos 1970”. — Foi uma imersão completa. Quando eu acabava e ia ligar a TV, era um choque, como quem sai da selva e cai na civilização. Nos primeiros segundos, eu esperava a imagem em preto e branco.

O formato de diário — que oferece a fragmentação típica dos almanaques, ao mesmo tempo em que permite uma narrativa cronológica, dando clareza às tensões da sociedade, às relações de causa e efeito — foi uma escolha sobre a qual Bahiana não tinha muita segurança inicialmente.

— Achei que esse formato de linha do tempo, dia a dia, era o melhor para criar uma narrativa do ano inteiro. Mas fiquei em dúvida. Não sabia se conseguiria material suficiente. Depois o problema foi outro, comecei a ter várias coisas para as mesmas datas! Para escolher o que usar, usava o critério do que era mais iluminador, mais fiel e útil à história contada. Quis também trazer as vozes dos personagens. O almanaque permite essa visão em 360 graus, esse olhar total que abarca alta cultura e baixa cultura, alta política e trivialidade, personagens exaltados e outros dos quais a gente nem sabe o nome.

Fonte: O Globo

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