Regulamentada pelo governo federal em abril, a doula oferece suporte físico, emocional e informativo, acompanhando a gestante desde o início da gestação, durante o parto e também no puerpério. Para muitas profissionais, mães e especialistas, a doulagem é mais do que uma profissão. É um resgate da força e protagonismo feminino, da ancestralidade do parto natural e da delicadeza do “cuidar de quem cuida” no momento mais especial e vulnerável da vida.
Doula e técnica de enfermagem, Cristina Delmira, de 52 anos, carrega em sua história a memória das parteiras, transmitida pela mãe há quase 50 anos. Vivência que moldou sua percepção sobre nascimento, cuidado e maternidade.
“Minha mãe me falava muito sobre as parteiras, ela teve todos os filhos em casa. Quando estava nos momentos finais, mandava buscar a parteira. Eu achava aquilo maravilhoso, aquele contato entre as mulheres, algo que foi se perdendo com o tempo. Ela também falava muito sobre o sentimento de ser mãe via parto normal, aquilo tocou o meu coração”, lembra Cristina.
Por essa vivência, Cristina tinha o sonho de parir de forma natural. Porém, devido a complicações na gravidez, por diabetes gestacional, não foi possível realizar esse desejo.
“Descobri com seis meses e precisei ficar os três restantes internada no Imip, sozinha, sem o apoio de ninguém conhecido. No dia 8 de novembro, meu aniversário, a minha médica me internou para ter Gabi. Perguntei se o parto seria normal, porque ouvi a minha mãe dizer que a recuperação era boa. Mas não consegui dilatação suficiente e Gabi só nasceu no dia seguinte”, conta.
Foi em 2012, através do convite de uma colega de trabalho, que Cristina Delmira conheceu o universo da doulagem e a vocação de “cuidar” durante uma formação gratuita oferecida pela Prefeitura do Recife. Com a qualificação, passou quase cinco anos atuando como doula, em especial como voluntária na Policlínica Arnaldo Marques, no bairro do Ibura, Zona Sul do Recife.
“Foi a partir do que aprendi fazendo esse belíssimo trabalho que comecei a estudar enfermagem, para cuidar melhor das pessoas. Porém, veio a pandemia e tive que parar, então acabei focando só na enfermagem, porque não aceitavam mais uma pessoa na maternidade”, explica a doula.
Anos depois, ela se prepara para ser o pilar da filha, a advogada Gabriele Lima, de 29 anos, no parto da primeira neta, Maria Antonella. “Quando Gabi engravidou, no ano passado, eu já estava com o meu coração ardendo para ajudá-la na hora do parto, tentando incentivá-la para que fosse o mais natural possível”.

“Eu fiquei muito feliz de poder estar ajudando outra mulher. Estar ao seu lado não só como mãe, mas como mulher. Mostrando a força, a garra e o carinho. Isso é muito importante”, complementou Cristina.
Há cerca de um ano, Gabriele enfrentou um momento de profunda vulnerabilidade após uma perda gestacional. O apoio da mãe foi fundamental. Mesmo sem a reciclagem formal como doula na época, Cristina aplicou os conhecimentos que havia adquirido no passado, proporcionando alívio nas dores e suporte emocional.
Com o anúncio da gestação de Maria Antonella, Cristina decidiu fazer o curso de reciclagem da Associação de doulas de Pernambuco (Adope) para atualizar os conhecimentos de doula e poder estar ao lado da filha de forma ainda mais ativa nesse momento.
Grávida de 34 semanas, Gabriele ressalta o privilégio de ter sua própria mãe como doula, tornando sua jornada de maternidade ainda mais especial, e a importância de ter alguém que “cuide de você desde o princípio”.
“Ter minha mãe comigo nesse momento é ter segurança. Saber que estou segura, que a ansiedade não vai tomar conta, porque tem alguém cuidando de mim como eu menos esperava. Com amor, colo é ter tudo. Se eu conseguir vencer, é por conta dela”, afirma a advogada.
Para Gabriele, ter uma doula traz segurança e confiança para enfrentar qualquer desafio do parto, seja ele por via natural ou cirúrgica. Ela lembra que, durante a perda gestacional no ano passado, as manobras aplicadas e o apoio da mãe tornaram as contrações e o procedimento de expulsão em si mais suportáveis, mesmo diante da dor da perda.
“Minha mãe já tinha o conhecimento de doula e soube conduzir. Ela me deu forças e eu precisei ser forte. Fiquei 30 dias com o feto morto no meu ventre para poder passar pelo procedimento de expulsão. Agora, a expectativa é grande para esse momento, que é tão especial na vida da mulher, e estou confiante que vai dar tudo certo”, diz Gabriele.
Obstetra corrobora benefícios
Coordenadora da emergência obstétrica do Hospital da Mulher do Recife (HMR), a médica obstetra Marilia Lima de Mendonça corrobora a importância da doula, destacando que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já indica a profissional há bastante tempo, em relação à humanização e às experiências positivas.
“É uma profissional que ensina para a mulher toda a autonomia que ela tem na hora do parto, preparando para as possibilidades, ajudando na posição, com massagens e técnicas de alívio da dor”, pontua a médica.
A médica obstetra Marilia Lima de Mendonça. Foto: Reprodução/Redes Sociais/Instagram
De acordo com a obstetra, existem estudos que mostram que a presença da doula reduz as taxas de cesárea, o tempo de parto e as intervenções, além de ter desfechos positivos na mortalidade, tanto da mãe quanto do bebê.
“É um suporte que nós obstetras não conseguimos dar, pois ela não atua tecnicamente, mas sim como apoio emocional e educacional inclusive no pós-parto, que muitas vezes é delicado”, destaca a obstetra.
Humanização do “partejar”
Integrante da diretoria da Associação de Doulas de Pernambuco (Adope), Elizabeth Lopes enfatiza que a doula não faz o parto, mas resgata a humanização do “partejar”, fortalecendo a rede de apoio que toda mulher merece.
Ao preparar a mulher para o parto, a doula orienta sobre as intervenções e atua como um “olhar de uma experiência” que pode identificar o que é pertinente ou não, abrindo um diálogo entre a equipe médica, a gestante e a família. Além disso, a profissional veio para somar e não substituir a presença do acompanhante na sala de parto, que também é direito da gestante.
“A doula oferece suporte físico, emocional e informativo, acompanhando a gestante em três fases. No início da gestação, envolvendo a família e a rede de apoio; no parto, ajudando a evitar a violência obstétrica e a diminuir o tempo; e no puerpério, oferecendo suporte para a recuperação e amamentação, ensinando a preparar a ‘lua de leite'”, completa Elizabeth.
O que é preciso para ser doula?
Para ser doula, é necessário ser maior de 18 anos e ter o segundo grau completo. Além disso, é preciso ter um curso com carga horária superior a 120 horas, conforme determinação do Ministério da Educação (MEC), ou seguir o cronograma básico aprovado pela Convenção Nacional da Doula (Conadoula), que atualmente gira em torno de 200 horas.
A Adope oferece cursos de formação e reciclagem. Este último possui condições especiais, com carga horária e conteúdo dentro das orientações nacionais da Conadoula, tendo carga horária de 180 horas.
Com aulas presenciais, o curso é ministrado por doulas em parceria com parteira, enfermeiro, psicólogo, nutricionista e terapeutas, e inclui visita técnica à maternidade e rodas de conversa com gestantes. O investimento é a partir de R$ 900, e as interessadas devem entrar em contato com o número (81) 9.9724-6147, através do WhatsApp.




























