A lupa na saúde, as dores de cabeça de Jerônimo, a auditoria dos respiradores de Rui Costa e o petista zangado
Do Pombo Correio

Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia Crédito: Marina Silva/ Arquivo CORREIO
Enquanto o governador Jerônimo Rodrigues (PT) insiste em vender a imagem de uma saúde pública fortalecida, a própria máquina estadual tratou de dar um banho de água fria no discurso do petista. Decisões finais da Diretoria de Vigilância Sanitária e Ambiental (Divisa), publicadas no Diário Oficial desta quinta-feira (16), revelam uma sucessão de autuações em unidades da rede estadual e de fundações ligadas ao governo. Entre os problemas apontados estão falhas na potabilidade da água, irregularidades na esterilização de materiais, inutilização de produtos por risco sanitário, descumprimento de protocolos de radiodiagnóstico e até falhas em procedimentos hemoterápicos. Em outras palavras, o governo acabou reprovado pela própria fiscalização. Quem paga o preço é o povo.
Reação em cadeia
O episódio do 2 de Julho em que o governador Jerônimo Rodrigues afastou com um movimento brusco o braço de uma mulher que se aproximou para fazer uma pergunta acendeu um sinal de alerta na campanha à reeleição. A avaliação interna é de que a cena, que repercutiu nacionalmente e foi interpretada por muitos como uma atitude agressiva, ainda está rendendo impactos negativos e produziu um desgaste maior do que o inicialmente previsto, especialmente entre o eleitorado feminino. Nos bastidores, integrantes da equipe já discutem estratégias para conter os danos e reduzir os efeitos do episódio. O entendimento é que o caso deixou marcas e pode custar votos se não for neutralizado rapidamente.
Respirando por aparelhos
O avanço das investigações sobre a compra frustrada de respiradores pelo Consórcio Nordeste, cuja apuração atinge em cheio o ex-ministro Rui Costa, acendeu um sinal de alerta no Palácio de Ondina. Interlocutores do governo admitem, reservadamente, que a divulgação da auditoria do TCE, que aponta “erros administrativos grosseiros” e abre caminho para responsabilizar Rui Costa pelo prejuízo de R$ 48,7 milhões, elevou a preocupação dentro da gestão Jerônimo Rodrigues. O temor é que novos desdobramentos ampliem o desgaste do ex-governador, principal liderança do PT baiano, e acabem contaminando o ambiente político às vésperas da disputa de 2026.
Zangado
Por falar em Rui Costa, o ex-ministro anda cada vez mais irritado em entrevistas e agendas públicas do grupo governista. Parlamentares e aliados que acompanham o petista dizem que as expressões de ódio e raiva estão cada vez mais comuns e intensas durante as atividades políticas. Deputados observam que o estilo áspero sempre foi uma marca de Rui, mas piorou consideravelmente desde que deixou a Casa Civil de Lula e voltou à Bahia para disputar o Senado. Em uma reunião com a base nesta semana, relataram parlamentares, o destempero foi evidente e até causou incômodo em alguns dos presentes. Ao final, alguns se questionaram se a irritação crônica tem sido motivada pelo caso dos Respiradores ou pelo aumento da rejeição do grupo petista.
Sinal vermelho
O clima de festa nos PGPs do PT contrasta com o clima de tensão observado nos bastidores da base petista nos últimos dias. Deputados aliados passaram a relatar uma preocupação crescente com o cenário eleitoral de 2026. O motivo são pesquisas internas que, segundo parlamentares, apontam desgaste na imagem do governador Jerônimo Rodrigues e também de Rui Costa e Jaques Wagner. Na avaliação desses governistas, o desempenho dos três tem sido afetado pela combinação entre o desgaste natural de um grupo que está há quase duas décadas no poder e o impacto das investigações envolvendo Rui e Wagner. No interior, onde muitos deputados mantêm contato diário com prefeitos e lideranças locais, o relato é de que o sentimento de rejeição ao grupo governista já extrapolou os levantamentos quantitativos e passou a ser percebido nas ruas.
Cadê Dandan
O ex-candidato a prefeito de Barreiras, Danilo Henrique, tem se visto rodado depois de ter sido desafiado a debater temas regionais com um vereador da cidade de Wanderley. É que apesar de bancar a fama de ser o mais preparado da política local, ele não consegue explicar o estranho giro que fez para migrar à base do PT nem tão pouco explicar as promessas não cumpridas do governo Jerônimo, do qual ele virou emissário inglório aos 45 do segundo tempo.
Peroba
Mesmo diante da repercussão negativa da não-obra da ponte Salvador-Itaparica, o ex-ministro Rui Costa resolveu dobrar a aposta e antecipar uma discussão sobre o valor do pedágio da travessia fantasma. Mas para isso, entrou em outra enrascada: disse que o preço será o mesmo da tarifa do Ferry-boat. Administrado pelo Governo do Estado, o ferry virou, ao longo dos anos, sinônimo de reclamação, com filas intermináveis, embarcações antigas e um serviço de péssima qualidade, se analisado o preço que se paga. Para uma obra prometida há quase duas décadas, e que já virou motivo de piada, a comparação de Rui não poderia ser mais infeliz.
Bomba em Brasília
Enquanto o governo Lula queima as pestanas lá em Brasília com a pauta-bomba que passou pelo Senado Federal, aliados do presidente aqui na Bahia comemoram, sem o menor constrangimento, a aprovação de matérias que lhes conferem proveitos eleitorais, mas criam um gargalo orçamentário de bilhões para o Planalto. É o caso da PEC 14, que, apesar de fazer justiça garantindo aposentadoria diferenciada a agentes comunitários de saúde e de combate a endemias, traz um impacto fiscal de R$ 27,9 bilhões em dez anos de vigência.
Fogos na Bahia
Quem puxou a fila das comemorações foi o deputado federal Zé Neto (PT), chamando o momento de “uma vitória expressiva” e capitalizando o feito para si em razão de ser o coordenador da frente parlamentar mista que discute os interesses da categoria dos agentes. Outro que também colocou a digital na proposta foi Antonio Brito (PSD), relator da PEC na Câmara. Se depender dos aliados baianos, Lula ficará apenas com o ônus da história.
Ameaça e tirania
O vídeo do prefeito de Érico Cardoso ameaçado demitir servidores que não votarem no governador Jerônimo Rodrigues virou, na avaliação de observadores da política, a síntese do estado de desesperou que abateu o campo petista nas últimas semanas. Mas estranho mesmo foi o silêncio da esquerda baiana e dos defensores da democracia diante da típica política de cabresto que ocorre à luz do dia nas redes sociais. Os mesmos que cantam “com tiranos não combinam”, emudeceram quando a tirania pareceu conveniente.

























