Para lavar dinheiro levantado ilegalmente em pagamentos irregulares, esquema das empreiteiras da Prefeitura do Recife utilizaria outras empresas, entre elas a Aço Concept Ltda., com ligações próximas a membros da família Campos
Do Blog Manoel Medeiros
O esquema das empreiteiras da gestão João Campos no Recife teria utilizado a empresa Aço Concept Ltda., com sede num galpão em Campo Grande, Zona Norte do Recife, para lavar dinheiro desviado no período da eleição de 2024 (entre agosto e outubro). Apenas nesse período específico, o valor transacionado teria ultrapassado R$ 1,6 milhão a partir de operações sem lastro.
A informação foi denunciada aos órgãos de controle federais (Polícia Federal e Ministério Público Federal) e segue em investigação, já que os procedimentos nesse âmbito não foram alvo – pelo menos até aqui – do travamento determinado pelo ministro Gilmar Mendes a pedido do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em relação ao trabalho do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE).

De acordo com a denúncia documental, ratificada por este Blog a partir de informações repassadas por fonte que já trabalhou no grupo empresarial, a empresa de propriedade do empresário Gregório Bernardino da Silva Neto tem relação direta (e pessoal, no caso do seu administrador) com membros da família Campos e prestou serviços para os gabinetes parlamentares tanto de Pedro Campos quanto de João Campos na Câmara Federal, além de outros membros da cúpula do PSB pernambucano.
O CNPJ foi criado em 2019 como “empresário individual” e enquadrado como microempresa, mas no ano da eleição municipal de 2024 faturou milhões.

A movimentação de mercadorias realizada entre a Aço Concept Ltda. e as construtoras Sinarco (de Minas Gerais), Alca Engenharia e Max Construções, ambas de propriedade do empresário e engenheiro Carlos Augusto Góes Muniz, centrais no esquema investigado, objetivaria regularizar contabilmente o repasse de recursos entre o grupo, permitindo o ingresso de valores desviados nas mãos dos operadores políticos do esquema.

Nesse sentido, haveria registros até mesmo de centenas de milhares de reais em produtos adquiridos pelas construtoras à Aço Concept Ltda. para aquisição de complexos sistemas de irrigação com o objetivo de legalizar os repasses de recursos supostamente roubados.
Na gestão João Campos, a empresa Aço Concept Ltda. alcançou um patamar incompatível com seu histórico no fornecimento e prestação de serviços à Prefeitura, além de transacionar com outras empreiteiras envolvidas no inquérito investigado pela Operação Barriga de Aluguel, travada por determinação do STF.
As investigações chegariam diretamente ao núcleo familiar do prefeito João Campos (PSB) clareando o que está por trás do ímpeto do prefeito em impedir as investigações. Outro episódio que levanta a suspeita da grande preocupação de João Campos com essas investigações se relaciona ao escândalo do fura-fila, quando o filho de um juiz que também havia anulado suspeitamente a operação Barriga de Aluguel foi ilegalmente nomeado pelo prefeito do Recife dois anos e meio após o concurso e depois da anulação do inquérito. O candidato, que não se inscreveu como PcD, foi nomeado pelo prefeito nas vagas específicas de pessoas com deficiência na antevéspera do Natal, em edição extra do Diário Oficial do Recife.

A prestação de serviços realizada por Gregório Bernardino da Silva para a cúpula do PSB teve origem no gabinete do ex-deputado federal Tadeu Alencar na Câmara Federal. De fevereiro de 2016 a dezembro de 2022, por meio da cota parlamentar, o gabinete de Alencar pagou R$ 143 mil à empresa Ilumídia Mídia Exterior e Locações pela locação de móveis para utilização no escritório parlamentar do Recife, com notas fiscais assinadas por Gregório Bernardino da Silva. O gabinete de João Campos na Câmara também pagou pelo mesmo serviço, entre abril de 2019 e dezembro de 2020, R$ 37,8 mil à Ilumídia (também com notas assinadas pelo mesmo Gregório Bernardino da Silva, sócio proprietário da Aço Concept).
O irmão do prefeito, o deputado federal Pedro Campos (PSB), também contratou a empresa de Gregório Bernardino da Silva para o seu gabinete, nesse caso especificamente a própria Aço Concept Ltda.. A locação dos móveis para Pedro Campos custou R$ 45 mil aos cofres públicos de julho de 2023 até dezembro de 2024. Suplente de João Campos, o ex-deputado federal Milton Coelho também contratou a mesma empresa para o mesmo serviço, tudo pago com recursos públicos federais oriundos da cota parlamentar: R$ 45 mil (aluguel de móveis de janeiro de 2021 a janeiro de 2023).


O esquema das empreiteiras da Prefeitura do Recife se iniciou no final de 2021 e movimentou mais de R$ 220 milhões, incluindo recursos federais. Em 2024, ano eleitoral, os pagamentos ao grupo (Sinarco/Alca/Max) alcançaram um recorde e ultrapassaram os R$ 100 milhões. Um dos achados investigativos, ratificado inclusive por representação do Ministério Público de Contas do Estado de Pernambuco, diz respeito à elevação dos pagamentos ao grupo no período das eleições. Investigações também levantam indícios de que parte dos recursos desviados da Prefeitura do Recife turbinaram a compra de material gráfico eleitoral em julho de 2024.


























