Epidemia silenciosa: em Salvador, mais de 35% das crianças e jovens estão com excesso de peso

Epidemia global de excesso de peso envolve fatores genéticos e de comportamento, como o sedentarismo e o alto consumo de ultraprocessados

Por Priscila Dórea, do Portal A Tarde

Carolina Farias Perelo de Almeida com a filha Laura Farias – 
Um desafio diante de uma epidemia global, ligada normalmente a um estilo de vida sedentário (com o excesso de telas) e ao consumo de alimentos ultraprocessados, o combate à obesidade infantil exige um esforço em conjunto da sociedade e o comprometimento da família.

De acordo com o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde, 35,8% das pessoas entre 0 e 19 anos em Salvador estão com excesso de peso – uma porcentagem maior até que a nacional, que é de 32,8%. Para mudar esse cenário, especialistas apontam que a prevenção e o cuidado precoce são as regras para combater a obesidade.

Fatores genéticos, ambientais, sociais e comportamentais podem causar a obesidade, porém esse último possui uma influência grande.

“Uma alimentação rica em açúcar, gordura e sódio, e o consumo excessivo de alimentos processados, são os fatores que mais prejudicam as crianças nesse contexto. É preciso ter cuidado com a criação do chamado ambiente obesagênico: é responsabilidade dos pais não criar um ambiente repleto de alimentos que não fazem bem”, explica a nutricionista pediátrica e materno-infantil, Kelley Adriana Gonçalves.

Nutricionista no Hospital da Obesidade (HDO) – que possui um programa completo e interdisciplinar para tratar a obesidade e doenças correlacionadas em todas as idades –, Kelley afirma que o número de jovens com sobrepeso têm aumentado nos últimos anos.

“E o tratamento precisa envolver a família, assim como precisa considerar as individualidades de cada criança, pois elas estão em fase de crescimento. Tudo isso com muita ludicidade também”, explica.

Kelley Adriana Gomes Gonçalves, nutricionista pediátrica | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

Paciente do HDO, foi Arthur Dias, de 11 anos, que falou com a mãe, a servidora pública Gabriela Mendes, sobre o hospital.

“Extravasamos nas férias de 2019 e engordamos, sabe? O objetivo era emagrecer com a volta da rotina, mas veio a pandemia e a rotina mudou. Chegamos a melhorar a alimentação em casa e fomos ao pediatra, mas Arthur não emagrecia e já havia começado a ouvir comentários de coleguinhas, o que começou a incomodar ele. Então, um dia, um carro do HDO passou por nós, ele me mostrou e perguntou: Mamãe, será que isso funciona mesmo?”, recorda Gabriela.

O menino chegou ao hospital com esteatose hepática tipo 1 (gordura no fígado) – “uma doença de adulto”, enfatiza a mãe. No hospital, além de ser acompanhado por endocrinologista, nutricionista e psicóloga, ele participa de atividades educacionais e físicas.

“Ele está mais maduro. Conversamos muito e isso é importante, porque a mudança tem que partir da família também. O tratamento da obesidade em crianças tem que começar cedo, para que os resultados venham logo, pois as consequências à saúde a curto, médio e longo prazo são inúmeras”, alerta Gabriela.

Gabriela Mendes com o filho Arthur Dias Mendes | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

Diagnósticos que uma criança com sobrepeso pode ter

  • Esteatose hepática
  • Diabetes tipo 2
  • Doenças cardiovasculares (hipertensão e colesterol alto)
  • Apneia do sono
  • Doenças respiratórias
  • Problemas ortopédicos

Hábitos e ambiente

Para além de fatores relacionados aos hábitos e ao ambiente, situações de estresse podem contribuir para a obesidade infantil, aponta a psicóloga e docente de psicologia da Wyden, Edilma Silva.

“Crianças que vivem situações estressantes, como conflitos familiares, separação, luto, ausência de afeto ou violência podem recorrer à comida”, explica.

Psicanalista e psicoterapeuta, Carolina Farias é mãe da Laura, de 12 anos, que tem uma história diferente da maioria das outras crianças obesas. Foi após uma cirurgia, aos 9 anos, para retirar um crâniofaringioma (tumor cerebral), onde seu hipotálamo (área responsável por regular a fome e emoções) foi lesionado e ela desenvolveu obesidade hipotalâmica.

“Com o sensor da fome comprometido, ela passou a sentir fome constante, sem distinguir entre necessidade real e vontade de comer. O corpo deixou de produzir diversos hormônios essenciais, e isso trouxe consequências logo após a cirurgia: ela entrou na UTI com 34 kg e dez dias depois saiu com 12 kg a mais”, recorda Carolina.

Para agravar a situação, a condição de Laura exige o uso contínuo de corticóides, que contribuem para o ganho de peso. Em tratamento no HDO, Laura chegou à instituição com um laudo que afirmava que ela poderia infartar antes dos 15 anos.

“O tratamento que ela faz no HDO vai desde consultas com psicóloga e nutricionista, até atividades físicas e sociais, onde ela conversa com outras crianças e elas se apoiam. O caso dela é raro e mais complicado que outros, mas o fato é que a obesidade ser um problema de saúde pública ainda é pouco aceito na sociedade. As pessoas obesas precisam de ajuda”, afirma.

A própria Carolina tem obesidade e já precisou passar por uma cirurgia bariátrica. “E desenvolvi ainda na infância, entre a idade de 10 e 12 anos. Hoje eu sei que, se houvesse a oportunidade de me tratar como hoje minha está sendo cuidado, não precisaria ter sofrido tanto ao longo da vida. Cuidar da obesidade infantil é salvar vidas, porque você pode poupar as crianças de alguns sofrimentos futuros. E estou falando também dos impactos psicológicos e emocionais”, afirma Carolina Farias.

“Quando a gente fala de tratamento, eu diria que a palavra deveria ser prevenção”, afirma a endocrinologista do HDO, Dandara Reis, salientando que prevenir é mais fácil do que tratar.

De acordo com o Sisvan, 32,6% dos soteropolitanos entre 0 e 4 anos estão com sobrepeso, e 32% daqueles entre 6 meses e 2 anos já consomem alimento ultraprocessados.

“A gente percebe que é preciso atuar em uma rede familiar, não só na criança, mas também com quem cuida dessa criança. Conversar sobre a obesidade ainda na idade gestacional”, sugere.

O envolvimento da família é o ponto-chave

Taiane Cazumbá – nutricionista e professora

“Quando os pais cozinham, comem juntos à mesa e dão o exemplo de escolhas saudáveis, a criança absorve esses hábitos de forma natural e positiva. O ato de cozinhar em família e fazer as refeições juntos, sem a distração de telas, fortalece a relação com a comida e torna o processo mais prazeroso e eficaz. Com o aumento do uso de telas, as crianças passam menos tempo brincando ou praticando esportes”, explica.

Mãe de Melinda Lefundes, de 4 anos – que está saudável e com o peso ideal para a idade –, a assistente administrativa Jane Souza conta que a escolha de matricular a filha na natação foi, primeiro, pela segurança (na piscina e no mar) e para tirar ela do sedentarismo das telas.

“Queríamos que ela fizesse uma atividade para extravasar, sabe? Ela é muito ativa e sociável, e sabemos o quanto as telas hoje são um problema, então procuramos uma atividade divertida, Ela come de tudo um pouco, mas tem muita energia para gastar e eu, como uma pessoa que foi uma criança obesa, sei o quanto isso é importante”, reflete a mãe.

Além da natação, Melinda anda de bicicleta, acompanha os pais em corridas e até já fez aulas de Zumba Kids que, assim como a natação, ela faz na Academia Podium, que possui inúmeras atividades voltadas para crianças, explica a professora de educação física da Podium, Dalila Bastos.

“O número de casos de obesidade infantil é crescente e isso só coloca em evidência a importância da atividade física. Hábitos saudáveis são a melhor estratégia. E isso tem que começar cedo, pois não é um problema que devemos resolver depois”, alerta.

Dalila Bastos professora, Jane Souza, mãe de Melinda Lefundes | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

Problema gera impactos psicológicos nas crianças

Relacionada ao ambiente em que a criança vive, a obesidade infantil é um fator de risco para inúmeras doenças crônicas, mas também diagnósticos psicológicos. Além dos impactos fisiológicos, os danos emocionais são profundos, como bullying, exclusão social e baixa autoestima, o que pode desencadear quadros de depressão e ansiedade.

A prevenção, portanto, não é opcional, é urgente – e exige uma ação conjunta da sociedade. “O bullying por aparência física é uma das formas mais cruéis de violência psicológica na infância”, afirma a mestre em psicologia Edilma Silva.

 

Além de eliminar a autoconfiança, o bullying por aparência afeta o rendimento escolar e pode deixar marcas duradouras, explica a psicóloga.

“Isso facilita o surgimento de transtornos mentais como o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), transtorno de ansiedade social, depressão, transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), bem como os transtornos alimentares, como: compulsão alimentar, bulimia e anorexia nervosa”, explica Edilma Silva, apontando ainda que a forma como os pais abordam alimentação e imagem corporal pode moldar profundamente a autoestima e os hábitos de vida dos filhos.

Cuidados

“Os pais precisam transformar a comida em aliada e não em vilã. Evitando rótulos e julgamentos sobre alimentos, assim como não usar comida como punição ou recompensa, pois isso pode criar uma relação emocional com a comida que pode gerar compulsão ou culpa. É importante também valorizar o corpo pela funcionalidade, não pela aparência, mostrando que todos os corpos merecem respeito e cuidado. Fale sobre saúde com leveza. Acolha as emoções sem associá-las, incentive atividades físicas. Converse sobre redes sociais, filtros e padrões irreais. Mostre que beleza é diversa e que o valor de alguém vai muito além da aparência”, aconselha a psicóloga aos pais.

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