Mãe de aluna usa folha de compensado como quadro para ajudar nas aulas remotas

Por: Marcionila Teixeira

Foto: Peu Ricardo/DP
A folha de compensado estava encostada em um canto da casa. Um dia, Kátia olhou para ela e teve uma ideia. Transformaria aquela antiga peça de uma cômoda desmontada em um quadro escolar. Assim, poderia auxiliar a filha de nove anos nos desafios das aulas remotas impostos pela pandemia do novo coronavírus. Deu certo. Kátia ganhou mais adesão da filha Maria Heloísa Cordeiro aos estudos e aproveita para se atualizar. A iniciativa chamou a atenção da professora da criança.
Kátia Davi Cordeiro, 45, é formada em magistério e já teve uma escolinha em Casa Amarela. O educandário tinha o nome da avó dela, mas foi fechado por conta da alta inadimplência. Hoje, está desempregada e trabalha com congelados e faxina. Dispõe de mais tempo para acompanhar a filha mais nova. Também tem mais domínio das técnicas de ensinar. Essa, no entanto, não é a realidade da maioria dos pais dos colegas de sala de Heloísa.
“Se tem uma explicação da professora, pego o compensado e faço as tarefas de português e matemática com ela. As outras matérias eu leio com ela. Quando preciso apagar, uso uma bucha um pouco úmida e espero enxugar”, explica Kátia. A mãe acredita que no português, por exemplo, a criança pode tentar imitar a caligrafia dela. “Eu também estou aprendendo, ficando mais atualizada com o que está se passando no mundo quando leio sobre outras matérias”, comentou Kátia.
A ex-dona de escolinha diz que os pais com disponibilidade podem usar outras coisas, muitas vezes sem uso dentro de casa, para auxiliar os filhos no aprendizado. “Uma ideia é cortar papelão e colar em alguns pedaços figuras e em outros, os nomes dessas imagens para as crianças identificarem. No compensado, eu também gosto de trabalhar com a elaboração de novas palavras. Ponho, por exemplo, a palavra capacidade e, dela, retiro outras, como idade. Para mim, tudo isso atrai mais a criança”, explica Kátia.
A professora de Heloísa, Maria do Carmo Santos, 52, conta que ela mesma também sentiu falta de um quadro escolar para gravar as aulas remotas. Terminou comprando um. Ela ensina na Escola Municipal Rosemar Macedo de Lima, na Avenida Norte, no Recife, para uma turma de 27 crianças do 4º ano, cujas idades variam de 8 a 9 anos. Ao todo, 25 estão acompanhando as aulas virtuais. Os outros dois alunos a professora acredita que não voltam mais este ano aos estudos. Três alunos têm necessidades especiais e recebem acompanhamento diferenciado de Maria do Carmo.
“Gravo os vídeos de um minuto e mando pelo WhatsApp da turma. Um é só para dar bom dia aos meninos e meninas. No outro, coloco as imagens do livro didático. Se for assunto novo, faço um vídeo explicativo e mando”, explica Maria do Carmo.
A professora diz que o esforço dos pais das crianças tem sido imenso. A maioria, segundo ela, trabalha fora e somente chega à noite em casa, horário em que podem mandar as tarefas dos filhos prontas pelo grupo do WhatsApp. “Geralmente as famílias só têm um celular. Não são famílias ricas, onde as crianças dispõem do equipamento. Mandam as tarefas de noite e até pedem desculpas pelo horário”, explica.
Maria do Carmo contou que sensibilizou-se com uma das mães de aluno da turma que perdeu o emprego e precisou entregar a casa alugada no Recife. Voltou para Escada, onde tem casa própria. Mas a criança continua participando das aulas. “A maioria está participando bem e muitos até se divertem”. Maria do Carmo, já aposentada pelo município, dá as mãos e segue junto com as famílias. Nem que seja virtualmente.

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