Medicina? Que nada! Graduação mais procurada por baiano é Direito

Marcos Felipe Soares
Número equivale a 11,7% de todas as matrículas durante o períodoNúmero equivale a 11,7% de todas as matrículas durante o período (Arquivo/CORREIO)

Entre 2016 e 2021, mais de 66 mil alunos ingressaram em cursos no estado

Se engana quem pensa que, aqui na Bahia, o ‘curso dos sonhos’ da maioria é Medicina, que, aliás, está longe disso. Pelo menos, é o que mostra o Censo da Educação Superior realizado entre 2016 e 2021.

Segundo a pesquisa, divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Direito foi a graduação mais procurada pelos baianos, com 66.312 novos alunos no estado. O número equivale a 11,7% de todas as 565.950 matrículas durante esse intervalo de tempo.

Antes de ter entrado na Universidade Federal da Bahia (Ufba), por meio do Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Humanidades, a recém-formada Amanda Coutinho, 24 anos, já sabia que, depois, teria como rumo a Escola de Direito. Longe de ter uma visão romântica sobre a área, lhe faltava apenas decidir a carreira que viria a seguir.

“Eu tinha noção de como era o mercado de trabalho, de quais eram as possibilidades, em que o profissional de Direito atua”, conta Amanda. Pra quem não conhece, no BI, o estudante elege uma área do conhecimento que seja de seu interesse, mas também tem que cursar disciplinas de outras duas — no caso dela, a artística e a científica.

Mesmo com a vasta oferta de cursos para ingressar após a conclusão do primeiro bacharelado, a jovem se manteve firme em sua decisão. “Onde eu pudesse colocar uma matéria de Direito, pra adiantar meu lado, eu colocava lá. Meu foco não mudou em nenhum momento”, garante ela.

Já no mercado de trabalho e aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) — que lhe vai conferir o título de advogada —, Amanda, hoje, almeja o cargo de defensora pública. “Eu só bati o martelo quando comecei a estagiar na Defensoria. Aí, esse semestre, eu tô tentando fixar uma rotina, pra começar a estudar a vero no semestre que vem”, se planeja.

Recém-formada em Direito, Amanda Coutinho quer seguir carreira como defensora pública (Foto: Acervo pessoal)

Na sequência dos cursos mais procurados, vêm Administração (40.890), Enfermagem (32.292), Fisioterapia (26.430), Engenharia Civil (26.160), Pedagogia (24.210), Psicologia (23.556), Nutrição (20.718), Ciências Contábeis (18.102) e Educação Física (17.016). Medicina (8.406) nem sequer aparece no ‘Top 10’ dos baianos.

Além disso, a Classificação Internacional Normalizada da Educação Adaptada para Cursos de Graduação e Sequenciais de Formação Específica do Brasil (Cine Brasil) indica que Negócios, administração e direito é a área de conhecimento preferida por quem aqui mora, com 152.982, ou 27%, dos ingressos em universidades no período.

Exame de Ordem da OAB 

Para poder exercer a profissão de advogado, é necessário obter a aprovação no Exame de Ordem da OAB. Aplicada três vezes ao ano, a prova é composta de duas fases — uma objetiva e uma dissertativa, com a elaboração de uma peça processual. E, embora, acabe sendo uma pedra no caminho de algumas pessoas, é ‘imprescindível para a advocacia e o mundo do Direito’, define o diretor-tesoureiro da OAB Bahia (OAB-BA), Hermes Hilarião.

Conforme explica Hilarião, o exame serve para preservar o exercício da advocacia, diante da abertura de muitos cursos de Direito ao longo dos últimos anos, o que, diz ele, provoca um ‘estelionato educacional’. “[O exame] Isso é uma preservação não só da advocacia mas também da sociedade, porque nós advogados e advogadas somos porta-vozes da cidadania perante o Poder Judiciário”, destaca o diretor-tesoureiro.

Advogada há 11 de seus 35 anos, Gabriela Cerqueira também fez a escolha por sua área de atuação, direito do trabalho, durante o estágio. “Por afinidade e pelas oportunidades que se abriram pelo caminho”, compartilha. Ela considera a prova ‘um grande desafio’, principalmente, por causa da carga emocional que envolve.

Ainda assim, Gabriela assegura que o esforço vale a pena. “Desistir por conta de uma ou mais reprovações não pode ser opção”, acredita a advogada trabalhista. “A advocacia, ao contrário do que muitos pensam, não tem apenas glamour. […] O foco, sempre, é advogar com propósito e persistir”, acrescenta.

Desafios do mercado de trabalho

Com tantas pessoas buscando a área de Direito, é comum ouvir falar que o mercado de trabalho está ‘saturado’. Procurada pela reportagem, a OAB-BA não enviou, até o fechamento desta matéria, informações sobre o total de cursos de graduação presentes na Bahia nem o número de pessoas formadas a cada ano, assim como o índice de aprovação no Exame de Ordem.

Apesar da falta de dados precisos, Hermes Hilarião estima que cerca de 10 mil pessoas ingressem na advocacia anualmente, sendo que a quantidade atual de profissionais atuando na Bahia varia entre 50 mil e 55 mil. No entanto, para o presidente da Comissão Especial de Apoio à Advocacia perante a Justiça Federal e Juizados Especiais Federais, Daniel Vila Nova, ainda há espaço pra quem quiser se achegar.

“A busca deve ser sempre no sentido de enxergar novos nichos de atuação. Nesse sentido, é importante manter a dedicação à carreira, para obter resultados cada vez melhores”, aconselha Vila Nova, que é advogado tributarista e, antes de ter aberto seu próprio escritório, passou por outras quatro empresas.

Por isso, quem está começando agora deve esquecer o ‘glamour’ associado à carreira e ‘meter as caras’, já que a remuneração inicial, de acordo com ele, vai de R$ 1,5 mil a R$ 1,8 mil — abaixo do que orienta a OAB. “É um valor que, muitas vezes, não é suficiente para o custeio de suas despesas, mas você vai aprendendo, adquirindo experiência e, com o tempo, buscando seu espaço”, aconselha o advogado.

Segundo Hilarião, “a OAB tem uma luta histórica pelo estabelecimento do piso salarial para o advogado empregado, mas, para isso, precisa de uma lei estadual”. Ele esclarece que a decisão está nas mãos da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).

Vila Nova avalia que, por ora, a solução é empreender e agarrar as oportunidades que vêm pela frente. “É você ter seu escritório, criar sua carteira de clientes e não ficar dependendo só de uma remuneração do escritório”, opina. “Eu acho que as redes sociais têm sido um facilitador nesse sentido.”

Há também a opção de seguir carreira acadêmica. Mas o que a maioria tem feito mesmo é buscar concursos públicos. “Infelizmente, nós temos muitos colegas que têm desejo de advogar, mas acabam, antes mesmo de iniciar, desistindo da advocacia, para buscar o concurso público, porque proporciona, acima de tudo, estabilidade econômica”, avalia Hilarião.

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