Médicos são afastados após pacientes perderem a visão em mutirão realizado em Salvador

Ao menos 33 dos 138 pacientes idosos atendidos apresentaram graves complicações de saúde

Por Maysa Polcri

Itens foram apreendidos para serem usados nas investigações Crédito: Divulgação

Três médicos investigados por supostas irregularidades em um mutirão de cirurgias oftalmológicas realizado em fevereiro deste ano, em Salvador, tiveram o afastamento imediato de suas atividades médicas por determinação judicial. A informação foi divulgada pela Polícia Civil nesta quarta-feira (20).

No início de março, a Clínica Clivan, localizada na Avenida Garibaldi, foi interditada após as denúncias. Ao menos 13 pacientes perderam a visão após participar do mutirão, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que acompanha as vítimas.

A rotina de dezenas de famílias baianas mudou drasticamente após o mutirão de cirurgias de catarata realizado pela clínica Clivan, localizada na Avenida Garibaldi, no fim de fevereiro por Arisson Marinho

De acordo com a polícia, o afastamento foi autorizado pela 1ª Vara das Garantias de Salvador, após representação da polícia, com o objetivo de preservar provas e aprofundar as investigações. A ação foi realizada por meio da Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), unidade vinculada ao Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV),

De acordo com as investigações, ao menos 33 dos 138 pacientes idosos atendidos durante o mutirão apresentaram graves complicações de saúde, incluindo perda parcial e irreversível da visão. Até o momento, foram registradas 33 denúncias de lesão corporal culposa, além de indícios da prática dos crimes de perigo para a vida ou saúde de outrem e infração de medida sanitária preventiva.

Durante o cumprimento da ordem judicial, foram apreendidos documentos e materiais que podem auxiliar na elucidação dos fatos. Entre os itens apreendidos estão: o livro de cirurgias, guias de solicitação de internação, livro de registro de esterilização do Centro de Material e Esterilização (CME), livro de registro de ocorrências da unidade, além de cinco computadores, um tablet, um pendrive, receitas e notas fiscais.

“As diligências têm como objetivo reunir elementos probatórios que permitam esclarecer as circunstâncias dos fatos e identificar eventuais responsabilidades criminais. Estamos tratando de uma situação grave, que envolve a saúde e a integridade de pessoas idosas, o que exige rigor técnico e celeridade na investigação”, destacou o delegado titular da Deati, Francisco Tálisson.

O material apreendido foi encaminhado ao Departamento de Polícia Técnica (DPT), onde será submetido a exames periciais. As investigações seguem em curso para aprofundar a apuração e responsabilizar todos os envolvidos.

Interdição

A Clivan foi interditada após as denúncias de pacientes que perderam a visão. A clínica é particular, mas oferece mutirões em convênio com o SUS. Após o ocorrido, a Prefeitura suspendeu o contrato com a unidade.

A Secretaria Municipal de Saúde confirmou a interdição do estabelecimento e disse que a clínica está “devidamente licenciada junto à Vigilância Sanitária Municipal, com alvará sanitário vigente”. A pasta ainda afirmou que o mutirão que contou com mais de 130 procedimentos não foi autorizado pela Prefeitura.

Sobre as denúncias, a Clivan afirma, em nota, que todos os protocolos clínicos, técnicos e de biossegurança foram seguidos desde a avaliação pré-operatória até o acompanhamento pós-cirúrgico dos pacientes. “A clínica realiza mais de oito mil cirurgias por ano, mantendo um histórico sólido de segurança, qualidade e excelência, o que reforça o caráter pontual do episódio”, acrescenta.

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