O tribunal dos aliados: as indicações de Jerônimo para o TCM e o avanço do patrimonialismo
Por Rodrigo Daniel Silva

Governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues Crédito: Manu Dias/GOVBA
Amigos, o governador petista Jerônimo Rodrigues indicou a esposa do deputado federal Mário Negromonte Júnior, Camila Vasquez, para ser conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Mas antes, o mesmo Jerônimo indicou o ex-presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), Adolfo Menezes, para integrar a mesma Corte. Mas antes, nomeou o deputado estadual Paulo Rangel, do seu próprio partido, para o tribunal. Mas antes, escolheu o auditor Ronaldo Sant’Anna, ligado ao PT, para ocupar outra cadeira de conselheiro. Mas antes, indicou a enfermeira Aline Peixoto, esposa de seu aliado e ex-governador Rui Costa, também para o TCM.
E assim, ocupou todas as cinco vagas abertas durante seu governo em uma Corte que possui apenas sete cadeiras. Transformou um órgão que deveria exercer controle técnico sobre as contas dos 417 prefeitos baianos em espaço de acomodação de aliados políticos, amigos e parceiros de ocasião. E assim, como observou o jurista e sociológico Raymundo Faoro no século passado, os “donos do poder” continuam a confundir as fronteiras entre o público e o privado, utilizando as estruturas do Estado não para servir ao interesse coletivo, mas para acomodar aliados, recompensar lealdades e preservar interesses particulares.
Jerônimo Rodrigues afirmou ontem, durante o Bahia Farm Show, que a escolha de Camila Vasquez seguiu um “critério técnico”. É verdade que ela é procuradora. Mas até as pedras do Palácio de Ondina sabem que não foi o currículo o fator determinante para sua chegada ao Tribunal de Contas dos Municípios. Foi a proximidade política.
Nos bastidores, comenta-se que Mário Negromonte Júnior condicionou sua permanência na base governista à indicação da esposa para a vaga que, curiosamente, hoje é ocupada por seu próprio pai, o ex-deputado federal Mário Negromonte, que se aposenta compulsoriamente.
Se a Assembleia Legislativa da Bahia tivesse a mesma independência demonstrada por senadores que votaram contra a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF), talvez rejeitasse o nome da procuradora. E, muito provavelmente, também teria rejeitado outras indicações feitas ao TCM nos últimos anos. Mas não tem. A Alba deverá atuar, mais uma vez, como mera homologadora da vontade do governador.
Apesar de ser aliado do presidente Lula, o senador Cid Gomes se posicionou contra a indicação de Jorge Messias para a Suprema Corte. Disse ele: “ele (Lula) indicou o Zanin (para o Supremo Tribunal Federal), que tinha sido advogado dele. Um advogado competente, respeitado, muito bem. Depois indicou um cara (Flávio Dino) que é da política, aliado dele historicamente. Tudo bem, foi aprovado. Depois vira brincadeira. Acho que faltou espírito republicano na indicação”.
Se o critério for o espírito republicano, o governador Jerônimo Rodrigues também não tem passado no teste nas indicações aos tribunais. Virou brincadeira!

























