Embora seja descendente Tupinambá, na região de Valença, por parte de pai, e Cariri-Sapuyá, em Jequié, cidade da mãe, Gleice Ferreira viveu “no contexto urbano”, como conta. Ainda em Jequié, onde nasceu e cresceu, cercada de muitas histórias, ela se sente pertencente à cultura indígena de corpo e alma e luta para resgatar sua tradição, que considera apagada pelo próprio sistema.

“Antigamente, todo o mundo precisava esconder de onde era, quem era. Isso tudo faz parte de uma política de apagamento de nomes e dos povos indígenas… não colocar nome indígena, de se proteger, de se preservar vivos, se manter vivos”, conta Gleice para explicar por que os ancestrais dela recebiam o nome do colonizador e não da aldeia de nascimento.
Tentando achar o fio da meada de toda sua história, Gleice não desanima e participa de um grupo de estudos em busca de resgate dos seus antepassados. “Eu estudo juntamente com um professor que me dá muitas – assim vamos dizer – ferramentas e por onde começo a procurar, porque a história de minha avó é um pouco vaga, porque apagam muita coisa nossa”, afirma.
Embora visite as terras dos pais, Gleice vivencia sua ancestralidade na cultura do povo Xukuru-Kariri, de Palmeiras dos Índios, em Alagoas, cuja aldeia tem esse nome pela junção de duas etnias, presentes no Nordeste brasileiro.

“Foi o povo de que eu mais me aproximei, tive contato. Aí a gente costuma dizer que abraça e é abraçado pela cultura de um povo. Então, pra você não ser desaldeada total, já que não restou quase nada dos Tupinambás, em Valença, para que procurasse a minha história, e do povo Cariri-Sapuyá, onde estou em um grupo de estudos, costumo falar que sou abraçada e abraço aquela cultura (Xukuru-Kariri)”, revela.
“Porque o povo com que eu tenho mais contato e é o primeiro povo originário em que eu mergulhei um pouco mais na história, então tem a vivência, tem uns virtuais fechado”, conta.

A necessidade de Gleice em reconhecer-se como indígena é visceral e a faz participar de vários momentos com a tribo que a abraçou, como ocorre neste Abril Indígena, projeto dos Xukuru-Kariri, quando viverá plenamente o Dia dos Povos Ìndigenas.
Segundo Gleice, o Abril Indígena é o momento de aproveitar as experiências espirituais dos povos Xukuru-Kariri, além de ajudá-los.

“Eles vêm para cá para arrecadar mantimentos e fundos para a aldeia, pois durante os meses de maio e junho, é um período de muita chuva em Mata da Cafurna, em Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas. Então, eles ficam sem sair, o terreno é íngreme, ficam sem viver e se manter do que se planta. Eles vêm para Salvador e fazem parceria com escolas, com universidades, com locais que queiram vivenciar um pouco da cultura. Eles dividem o que pode da cultura, o que pode ser passado”, conta Gleice.
Um dos momentos esperados em Salvador é a tradicional roda de xanduca, que ocorre no momento em que o cacique da aldeia, em meio ao chacoalhar do maracá, fuma o cachimbo, ou a xanduca.
“Às vezes, as pessoas dizem: – Ah, o índio e o cachimbo da paz. É muito mais que um cachimbo da paz. A fumaça, para o povo indígena, é o que traz a conexão com a ancestralidade, com o sagrado. O indígena vai viver sempre em comunidade, vai ser sempre o coletivo. Tudo é consagrado, os homens são recolhidos para fazer a vivência. Não é apenas viver porque é o Mês do Indígena, é você se reconectar com sua ancestralidade e essência”, diz.
Professora, atriz, escritora, conteudista Parú, membra do Mulherio das Letras Indígenas e do Coletivo Mulheres Maravilhosas, além de operadora de luz e poeta, Gleice pensa um dia em reescrever sua história.
E para celebrar a cultura índígena, e o resgate desses povos, Gleice preparou no moquém adaptado um peixe na folha de bananeira. O moquém ou moqueteiro é uma grelha de madeira usada para defumar carne ou peixe, que apoia-se sobre forquilhas de madeira fincadas ao solo, muito utilizado pelos povos indígenas.
“É assim que a gente fala, moquear o peixe. E para deixar ele pronto, assado na folha de bananeira, porque é o que tem mais perto, ou em folha de taioba. Também é muito usada a folha de taioba. Eu via minha avó fazer isso, minha avó materna, ela fazia muito essa coisa e depois virou gourmetizado acho que eu posso dizer assim, gourmetizaram”, explica.

Peixe no moquém
Ingredientes:
1 peixe grande da sua preferência, tratado e lavado com limão (usei o peixe dourado de rio, peixe conhecido pelos pescadores como o rei do rio).
Sal
Limão
Pimenta-do-reino a gosto.
Modo de preparo:
Deixe o peixe marinar por 5 minutos.
Enquanto isso, acenda o fogo e deixe o carvão em brasa média.
Unte a folha de bananeira com um pouco de azeite doce, para não grudar o peixe.
Envolva o peixe na folha da bananeira e coloque para assar por 30 minutos, revezando os lados do peixe.
Farofa d´água
Ingredientes:
1 xícara de farinha
1/2 xícara de água morna
Cheiro-verde a gosto
Cebola a gosto
1 pitada de sal
Modo de preparo:
Misture tudo com as mãos até ficar homogêneo.
Monte ou decore o prato a seu gosto.
Come-se com a mão, se preferir.
Fonte: A Tarde






























