Planserv descumpre decisão judicial e nega tratamento a menino de 4 anos com Síndrome de Down, diz família
Plano de saúde dos servidores afirma que terapias determinadas pela Justiça estão em fase de encaminhamento
Por Maysa Polcri

Exames podem revelar novo diagnóstico de menino de 4 anos Crédito: Acervo pessoal
O desespero de uma mãe que tenta incansavelmente cuidar da saúde do filho fez com que Larissa da Rocha Marquez entrasse na Justiça para garantir o tratamento de Samuel Lucas, de 4 anos, que possui Síndrome de Down. Mas a vitória judicial sobre o Planserv, que determinou o custeio da terapia intensiva e exames essenciais, não teve efeitos práticos. Segundo a família, o Estado da Bahia ainda não cumpriu a decisão, enquanto relatórios médicos recentes apontam o “risco grave de morte”.
Em 22 de janeiro deste ano, a Justiça baiana determinou que o Planserv, o plano de saúde dos servidores estaduais, indicasse e custeasse a realização de exames em unidade laboratório privado, sob pena de multa diária de R$ 500. O prazo de 48 horas não foi cumprido e, em março, uma nova decisão mandou que o Estado se manifestasse sobre a ausência de respostas.
Procurado para responder sobre o caso, o Planserv informou que realizou o acolhimento da mãe de Samuel e que ela foi orientada “sobre o fluxo de atendimento e organização do plano terapêutico multidisciplinar”. O plano diz ainda que uma consulta foi agendada para o dia 17 de abril e que o caso está sendo tratado de forma prioritária.
“As terapias indicadas estão em fase de encaminhamento, com início do processo assistencial previsto a partir do acolhimento. Em relação aos exames laboratoriais, o Planserv já viabilizou a realização em unidade próxima à residência do beneficiário, garantindo maior comodidade e celeridade no atendimento”, informou o plano. Veja a nota na íntegra abaixo.
O impasse jurídico ocorre em um momento crítico, onde relatórios médicos recentes apontam um “risco grave de morte” devido a crises imunológicas e infecções de repetição. A jornada de Samuel Lucas pela saúde teve início cedo. O menino já foi submetido a mais de dez cirurgias. Além da Síndrome de Down, ele nasceu com megacólon congênito, condição rara que provoca o refluxo de fezes do intestino para o estômago e boca.
Desde que se recuperou das últimas cirurgias, Samuel recebeu indicação médica para realizar tratamento multidisciplinar intensivo e exames. As decisões judiciais determinaram o custeio pelo Planserv, já que ele é beneficiário do plano, sendo neto de servidora pública baiana.
Justiça
“A disputa judicial começou ano passado, quando nós demos entrada para o Planserv liberar alguns exames laboratoriais que eles não liberaram. São exames específicos para nós concluirmos um novo diagnóstico do meu filho. Eles não liberaram e não deram opção de outros locais”, explica a mãe.
Larissa explica que a busca pela Justiça foi o último recurso. “A briga na justiça começou ano passado, quando nós demos entrada para o Planserv liberar alguns exames laboratoriais que eles não liberaram e que são exames específicos para nós concluirmos um novo diagnóstico do meu filho. E aí eles não liberaram, não me deram opção de outros locais, então nós entramos na justiça”, relata.
A resistência do Estado da Bahia em cumprir as ordens judiciais baseou-se, inicialmente, em tentativas de restringir o atendimento à sua rede credenciada em Salvador. Para a família, que reside em Governador Mangabeira, no Recôncavo, significaria deslocar Samuel por cerca de 140 quilômetros para realizar sessões de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional.
O Judiciário, ao analisar o caso, classificou essa exigência como abusiva, destacando que o deslocamento frequente por longas distâncias comprometeria a própria eficácia terapêutica e o desenvolvimento do paciente. O Planserv informou que viabilizou a realização em unidade próxima à residência da família.
Suspeita
Atualmente, o desespero da família concentra-se na urgência diagnóstica. Samuel apresenta suspeita de espinha bífida oculta, uma malformação na coluna que pode exigir uma nova e delicada intervenção cirúrgica. “Ele provavelmente tera que operar e também já estou na luta para o plano liberar esses exames que tem que fazer e eles não liberam”, desabafa a mãe. O menino é atendido pelo Hospital Santa Izabel, em Salvador.
Larissa detalha a rotina exaustiva de cuidados e a complexidade das necessidades do filho, que incluem medicamentos manipulados e restrições alimentares severas.
“Ele tem diversas alergias alimentares, medicamentosas. Nós temos que fazer os remédios dele todos formulados. Inclusive também nós estamos para entrar na Justiça contra o Planserv para poder bancar esses remédios, que são muito caros”, diz. A família já recebeu doações e conseguiu o valor suficiente para pagar o tratamento durante seis meses. Mas os remédios são de uso contínuo.
Em 2 de março deste ano, o juiz Márcio da Silva Oliveira proferiu um novo despacho, reiterando a gravidade do quadro e estabelecendo prazo improrrogável de 48 horas para o cumprimento das obrigações. A decisão indica que se o Planserv não comprovar o atendimento imediato, será autorizado o bloqueio judicial de valores diretamente das contas públicas para custear o tratamento na rede particular.
“Hoje, para ligar para o Planserv, eu fico tremendo, me dá vários gatilhos, porque nunca eles se resolvem. É consulta que não tem disponível, é exame que não cobre, e as coisas do meu filho são de custo muito alto”, desabafa a mãe.
Neste mês, o governo estadual oficializou a criação de uma nova unidade administrativa para centralizar a representação judicial do Estado em matérias relativas ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Planserv. A medida foi publicada na edição de sexta-feira (3) do Diário Oficial.
Agora, processos, ações ou demandas envolvendo direito à saúde movidos contra o Estado, como a do caso do menino Samuel, devem ser tratados pela Procuradoria Especializada de Demanda de Saúde (PDS).
Veja o que diz o Planserv
“Nota de Esclarecimento – Planserv
O Planserv informa que, em relação ao caso mencionado, envolvendo o beneficiário citado, está adotando todas as providências necessárias para o cumprimento das determinações judiciais, bem como para assegurar a continuidade da assistência à saúde do paciente.
No âmbito do acompanhamento assistencial, já foi realizado o acolhimento da responsável, com a devida orientação sobre o fluxo de atendimento e organização do plano terapêutico multidisciplinar. A consulta inicial já se encontra agendada para o dia 17 de abril. As terapias indicadas estão em fase de encaminhamento, com início do processo assistencial previsto a partir do acolhimento.
Em relação aos exames laboratoriais, o Planserv já viabilizou a realização em unidade próxima à residência do beneficiário, garantindo maior comodidade e celeridade no atendimento. Ressalta-se que a responsável está ciente de todas as etapas necessárias para a realização dos exames e continuidade do tratamento.
O Planserv reafirma seu compromisso com a assistência integral aos seus beneficiários e informa que o caso segue sendo acompanhado de forma prioritária, com adoção das medidas necessárias para garantir a efetividade do atendimento, em conformidade com a decisão judicial”.



























