Por que conflito ocorrido no século 19 ficou conhecido como Guerra da Orelha de Jenkins?
Entenda porque conflito ocorrido no Caribe entre os anos de 1739 e 1748 recebeu um nome tão peculiar

Algumas guerras se destacam pelo grande número de baixas, outras por seu poder bélico. Mas um conflito travado entre a Grã-Bretanha e a Espanha em meados do século 18 costuma ser lembrado por uma outra razão: seu nome peculiar. Aqui falamos sobre a Guerra da Orelha de Jenkins.
É de se imaginar que o conflito em questão tenha surgido em razão da mutilação de alguma figura importante. A história da orelha ficou famosa, é verdade, mas as causas da guerra foram muito mais profundas e estavam ligadas à disputa pelo comércio e pelo domínio dos mares.
Vejamos, no início do século 18, o Império Espanhol ainda controlava diversos territórios no continente americano — e a Grã-Bretanha, por sua vez, buscava ampliar sua presença comercial por essas terras. A ideia era lucrar com mercados que, em grande parte, estavam fechados aos estrangeiros. O resultado disso? Constantes atritos entre comerciantes britânicos e autoridades espanholas.
Um dos principais pontos de tensão envolvia o contrabando. Isso porque, com frequência, mercadores britânicos tentavam vender produtos nas colônias espanholas sem a devida autorização. Por outro lado, os espanhóis patrulhavam o Caribe para impedir essas atividades. Como destaca o portal EBSCO, eles revistavam navios, confiscavam cargas e, até mesmo, interrogavam tripulações caso notassem algo suspeito. Em muitos casos, inclusive, adotavam abordagens violentas.
Foi nesse contexto que ocorreu o episódio que daria nome à guerra.
Um pedaço de orelha
Em abril de 1731, guardas costeiros espanhóis interceptaram o navio do capitão Robert Jenkins quando este se encontrava nas águas de Havana, Cuba, acusando-o de contrabando. Ele havia partido da Jamaica com destino a Londres. Aconteceu que, enquanto seus companheiros de grupo revistavam a embarcação, um dos oficiais teria cortado uma das orelhas de Jenkins.
Posteriormente, dizem os relatos da época, os homens da guarda teriam entregue a orelha cortada à vítima, ordenando que ela a mostrasse o pedaço decepado ao rei britânico como advertência. Durante alguns anos, o incidente ficou relativamente esquecido. Porém, à medida que as tensões comerciais entre as duas potências aumentavam, políticos britânicos passaram a utilizá-lo como exemplo dos abusos espanhóis contra súditos da Coroa. Em 1738, Jenkins foi convocado para depor diante do Parlamento britânico.
No ano seguinte, a guerra foi oficialmente declarada.
Veio então a guerra
O entusiasmo dos britânicos era notório. Muitos acreditavam que o poder espanhol nas Américas estava enfraquecido e que uma ofensiva rápida poderia garantir importantes ganhos territoriais e comerciais. O primeiro grande sucesso ocorreu em novembro de 1739, quando forças comandadas pelo almirante Edward Vernon capturaram o porto de Portobelo, no atual Panamá. Naquele dia, toda a Grã-Bretanha celebrou a vitória e Vernon tornou-se um herói nacional. Era certo que os dias de glória da Espanha estavam contados.
Mas a realidade da guerra era bem mais complexa. Em 1741, os britânicos organizaram uma gigantesca expedição contra Cartagena das Índias, uma importante fortaleza espanhola localizada na atual Colômbia. A operação foi uma das maiores mobilizações militares da época e reuniu dezenas de navios e milhares de soldados.
Os que os comandantes britânicos esperavam era uma vitória decisiva. Porém, o que encontraram foi uma defesa extremamente eficiente liderada pelo experiente almirante espanhol Blas de Lezo, que, apesar de possuir menos recursos, aproveitou as fortificações da cidade assim como as dificuldades enfrentadas pelos invasores.
Além dos espanhóis, é justo dizer, britânicos tinham um outro inimigo a enfrentar: as doenças tropicais. Naquele tempo, febre amarela, malária e outras enfermidades se espalharam rapidamente entre as tropas, matando milhares de soldados. Assim, após semanas de ataques fracassados e inúmeras baixas, a expedição foi obrigada a recuar.
Enquanto isso, outras operações continuavam em diferentes regiões. Uma das mais notáveis foi a viagem de circum-navegação liderada pelo almirante George Anson, que, entre 1740 e 1744, percorreu os oceanos com sua esquadra. Embora a expedição tenha enfrentado enormes dificuldades, de tempestades à escassez de suprimentos e doenças, Anson conseguiu capturar o galeão espanhol Nuestra Señora de Covadonga, carregado com uma valiosa carga de prata proveniente da Ásia. A apreensão presenteou a Grã-Bretanha com um importante ganho financeiro que ajudou a compensar algumas das perdas sofridas em outras frentes.
A descaracterização do conflito
Mas, à medida que os combates prosseguiam, a Guerra da Orelha de Jenkins começou a perder sua identidade própria e, em 1740, a Europa mergulhou em um conflito muito maior: a Guerra da Sucessão Austríaca. Logo, as disputas entre britânicos e espanhóis passaram a fazer parte desse cenário maior e que envolveu diversas potências europeias. Como consequência dessa ampliação do conflito, os objetivos originais relacionados ao comércio no Caribe ficaram em segundo plano.
O fim oficial do conflito viria em 1748, com a assinatura do Tratado de Aquisgrão, que restaurava, em grande medida, a situação anterior à guerra. Nenhuma mudança territorial significativa foi promovida àquela altura.
























