
RIO – O salão do Clube Monte Líbano, na Lagoa, estava apinhado de gente quando o maquiador Salvador — com os cabelos metade raspados metade longos, vestindo regata com os dizeres “Chanel #sóquenão” — dava os últimos retoques de gloss na estrela da noite, Preta Gil.
Era uma quinta-feira de janeiro e ela se preparava para mais um ensaio do Bloco da Preta, fenômeno que arrastou cerca de 300 mil pessoas na Avenida Rio Branco no último carnaval e promete repetir o feito este ano, no próximo dia 23. Às 2h, o público, já empanturrado de funk em ritmo de samba que o grupo de abertura entoava desde as 23h, clamava por ela. Mesmo pronta desde meia-noite, a cantora só subiu ao palco duas horas depois. Nesse ínterim, Preta recebeu. Recebeu amigos, como o ator e cantor Thiago Martins; parte da seleção brasileira de vôlei masculino; e, sobretudo, fãs. Muitos.
Ela sabe o nome de cada fã que entra no seu camarim. E mais. Comenta a roupa, fala que emagreceu, tira foto para o Instagram, faz vídeo, dá selinho.
— Não sou nada sem meus fãs.
‘Sou espontânea’
Com fama de polêmica, ela está acostumada a suscitar tudo, menos a indiferença. Desde que se lançou no mercado fonográfico, há dez anos, com o disco “Prêt-à-porter”, em cuja capa aparece seminua, já deu declarações à imprensa que soaram bombásticas, como uma marcante entrevista para a revista “Trip”, em 2003, em que se assumiu bissexual, afirmou ser pegadora e deu detalhes da vida amorosa.
— Nunca me arrependi de nada que disse. Nada do que eu fiz na minha carreira até hoje foi com a intenção de chocar ou causar polêmica. Sempre fui essa pessoa — diz, em entrevista em seu apartamento, em São Conrado. — Obviamente, hoje tenho uma maturidade maior, mas sou espontânea. E as pessoas não estão acostumadas com gente espontânea. Principalmente no mercado. É todo mundo muito pré-moldado, com textinho pronto, um assessor que fica dizendo o que pode falar, o que não pode…
A espontaneidade teve seu preço. Filha de Gilberto Gil e Sandra Gadelha, e mãe de Francisco, de 18 anos, Preta diz ter sido mal compreendida. Enfrentou um enxurrada de críticas, virou motivo de chacota e foi alvo de uma série de piadas de gosto duvidoso em programas de humor. Ela não gosta da palavra bullying para descrever o que fizeram (“Acho muito light para o que passei. Ainda prefiro palavras pesadas, como preconceito, perseguição e racismo”).
Como não leva desaforo para casa, foi em cima de quem a atazanou durante esses dez anos: processou o programa “Pânico” (ainda na Rede TV!) depois de uma paródia de uma foto sua tomando um caldo na praia de Ipanema e ganhou. Procurado pelo GLOBO, Emílio Surita, responsável pelo “Pânico”, não retornou as ligações. Brigou com o humorista Danilo Gentili por causa de uma piada no Twitter. E espezinhou o deputado Jair Bolsonaro, que, ao ser indagado por ela, no programa “CQC”, sobre como reagiria se um filho seu se apaixonasse por uma negra, declarou: “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.
Aos 39 anos, menos ansiosa e oito quilos mais magra, admite ter sido ingênua:
— Fui criada de uma maneira livre, com muito amor, vendo pessoas se amando de todos os jeitos. Quando comecei a minha carreira, nunca tinha dado uma entrevista. E ali tinham duas coisas juntas que não dão certo: uma vontade grande de se expor com ingenuidade. Sou fruto do tropicalismo e achava que não existia caretice. Nunca imaginei que na minha hora fosse bater na trave. Foi um choque de moralismo. Era muito mais fácil me rotular como a filha polêmica do ministro.
‘Não namoro, moro junto’
Na cartilha amorosa de Preta, vale dançar homem com homem, mulher com mulher, só não vale um “deixa a vida me levar”. Preta não fica e não namora. Ela casa.
— Nunca fiquei com alguém sem saber o que estava se passando. Não namoro, moro junto. Agora, fui pedida em casamento pela primeira vez. Antes, eu que comprava as alianças.
Após saber da inclinação casamenteira da moça, o personal trainerRodrigo, atual namorado (e responsável por fazer a cantora malhar todo dia), correu para a joalheria. Pediu sua mão no último dia 24, na ponte aérea Rio-Salvador (“Foi zero romântico, todo mundo em volta”). Será a estreia de Preta no altar.
A decisão de virar cantora aos 29 anos veio num período que define como um “resgate tardio de si mesma”, momento em que libertou a artista do armário — faceta que abafou desde a adolescência, quando recebeu um convite para a minissérie “Sex appeal”, aos 17 anos, e declinou (“Foi o famoso cagaço”). Preferiu a opção mais segura: um estágio na agência de publicidade DM9, em São Paulo, oferecido por Nizan Guanaes. O namoro com Otávio Müller, pai de Francisco, que morava em SP, pesou na decisão.
— Hoje vejo que foi uma decisão muito equivocada.
Dragada pelo mundo da publicidade, virou executiva, andava de pasta, fazia planilha. Não demorou para abrir sua própria produtora, a Dueto, junto com a prima Monique Gardenberg e o amigo Augusto Casé. Tinha tino para o negócio. Ganhou independência, responsabilidade e dinheiro. Mas se sentia infeliz, angustiada. Saía da produtora e ia chorar no divã do analista. Foi quando desenvolveu uma compulsão por comida e compras. Não podia ver uma bolsa de marca (“meu apelido era Preta Prada Gucci Gil.”). A família e o terapeuta tiveram de intervir, e Preta passou por umrehab de shopping: cheques suspensos e cartões bloqueados. Vivia de mesada.
— Não queria saber quanto eu tinha no banco, saía comprando! Foi um período triste — recorda. — Dava um desespero. Colocava pra dentro comida, bolsa e sapato. Aí começou a busca: o que vai tapar esse buraco?
A descoberta do seu público
Com a ajuda do terapeuta e o incentivo de amigos como Caetano Veloso e a cantora Ana Carolina, decidiu largar tudo e dar voz, literalmente, à alma de artista que pulsava desde pequena, num début ensopado por lágrimas dos familiares e amigos no extinto Mistura Fina. Foi uma comoção. No repertório, a já eclética mistura que a caracteriza: de Baby Consuelo (“minha musa inspiradora”) a Kelly Key.
Passado o baque inicial das críticas, Preta atingiu o que chama hoje de “sentimento de plenitude”. Ela relaciona sua segurança profissional à descoberta do seu público. Após lançar o segundo disco, “Preta” (2005), bolou o show Noite Preta, que começou no também extinto e mínimo Cinemathèque, e rapidamente passou para a gigantesca boate The Week, tamanha a fila.
— Eu não tinha ideia de quem gostava da minha música. Foi nesse show que eu entendi. Eu perguntava: “Por que você gosta de mim?” Queria entender. Praticamente beijava na boca quem apareceu nos primeiros shows. O Lulu (Santos) ia sempre, subia no palco. E eu nunca chamei, era espontâneo. Hoje, tenho tanta certeza de quem eu sou, o quanto sou boa em tantas coisas, o quanto não sou boa em tantas outras.
— Preta e eu somos “de casa”, família estendida no melhor sentido. O viés hi-lo que ela aplica na vida e no trabalho é de uma esperteza única — diz Lulu Santos.
Ele é um dos amigos que fazem participação no DVD “Bloco da Preta”, que a cantora lança junto com o desfile, no dia 23. Ainda há artistas como Ivete Sangalo, Anitta e Thiaguinho, e o Monobloco.
A perseguição da imprensa de fofoca até deu uma trégua, mas Preta ainda é alvo de polêmicas. Recentemente, uma coluna publicou que, durante um show seu, quando requisitada por um fã a cantar “Beijinho no ombro”, hit de Valesca Popozuda, Preta teria dito que não conhecia a música, causando mal-estar entre as cantoras.
— Imagina! Adoro e admiro a Preta. Cantei essa música com ela em seu último aniversário. Deve ter sido um mal-entendido — assegura Valesca.
E, segundo Preta, foi mesmo:
— Gente, é claro que não! Eu só não tinha decorado a letra ainda e pedi para o meu fã cantar. Adoro a Valesca!
Ame-a ou odeie-a, Preta sabe entreter como poucos. É garantia de casa cheia e arrebanha fãs onde quer que pise, principalmente um público gay fidelíssimo (“Toda cantora tem público gay, acho que é essa coisa da diva, mas eu sempre falei a mesma língua que eles, há uma identificação”). A atual segurança não acabou, porém, com o terror de ficar sozinha. Vive cercada de gente. Tanto que levou dois fãs para morarem com ela. Na mesma casa. Ela explica:
— Odeio ficar sozinha. Faço até xixi de porta aberta, tomo banho com a Ju (fã 24 horas) deitada no corredor conversando comigo. Quando eu me separei do Cacau (o mergulhador Carlos Henrique Lima, com quem ficou por cinco anos), fiquei com muito medo de ficar só. E chega uma hora que você se sente chata, reclamando com os amigos o tempo todo. E eles (os fãs) não deixavam eu ficar triste. A gente se diverte muito, e ele entendeu — diz, apontando com o olhar para o filho, que passava pela sala. — Foi aí que chegaram as “manas que não deitam”.
A expressão é uma gíria criada por Preta para designar os amigos que não esmorecem diante das agruras da vida. Amigo que é amigo não vai embora, não ignora, não deixa fraquejar. Ou seja, não deita. Anitta fez até música, “Mana que é mana não deita”, que Preta deve cantar no bloco.
O crucial desfile na Mangueira
Apesar de a ligação com o carnaval vir desde a infância em Salvador, foi quando encarnou a rainha de bateria da Mangueira, em 2007, que sua paixão pela folia carioca acendeu de vez. Passou a convidar ritmistas para subirem com ela no palco ao final dos seus shows e, naturalmente, há três anos surgiu a ideia de criar um bloco para chamar de seu.
— No primeiro ano, achava que iriam umas 20 mil pessoas… foram 200 mil! E só cresceu. Quando vi aquele bando de gente subindo nos carros estacionados na Vieira Souto, entendi que tinha saído do controle e pedi um espaço maior. Me deram a Rio Branco! É uma festa, toco sucessos do meu repertório, um pouco de axé, MPB… é o que eu sou, essa mistura. E eu sou o Brasil.
Fonte: O Globo



























