Sem direito sequer de sepultar o filho

Morreu ontem no Recife aos 105 anos de idade um dos maiores símbolos de bravura e persistência no combate ao regime militar que se instalou entre nós em 64: Elzita Santa Cruz Oliveira. Ela teve a infelicidade de ver o filho, Fernando, sequestrado e morto no Rio de Janeiro, cujo nome ainda figura na relação dos “desaparecidos políticos”, dado que seu corpo jamais foi devolvido à família para que tivesse um enterro digno.

Dona Elzita viveu uma enormidade e enquanto teve lucidez e saúde jamais abdicou da luta para localizar o paradeiro do filho, que era militante de uma organização clandestina quando foi capturado pela repressão em dezembro de 1973.

Uma suposta pista sobre o paradeiro dele foi contada pelo delegado capixaba Carlos Guerra no livro “Memórias de uma guerra suja”, porém nada do que ele relatou foi comprovado pela Comissão Nacional da Verdade. O delegado afirma que Fernando Santa Cruz Oliveira foi assassinado na “Casa da morte”, em Petrópolis, um dos centros de tortura do regime militar, e depois incinerado no forno da Usina Cambahyba, pertencente ao ex-vice-governador do Rio, Heli Ribeiro Gomes, no município de Campos dos Goytacases.

Ainda que essa história macabra fosse verdadeira, poderia ter dado um alento à genitora do estudante, fazendo com que ela morresse em paz por ter descoberto, finalmente, o paradeiro do corpo do filho. Mas nem esse direito a ditadura lhe deu. (Inaldo Sampaio)

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