114 anos do Titanic: por trás dos mitos e teorias sobre o emblemático naufrágio

Da suposta troca de navios à “teoria do FED”, entenda o que é fato e o que é lenda no naufrágio do RMS Titanic, que completa 114 anos

Fotografia do RMS Titanic / Crédito: Getty Images

Nesta semana, o mundo recorda os 114 anos de uma das tragédias mais emblemáticas da era moderna: o naufrágio do RMS Titanic. O transatlântico, que partiu de Southampton com a promessa de ser o auge da engenharia humana, encontrou seu fim nas águas gélidas do Atlântico Norte na madrugada entre 14 e 15 de abril de 1912. Mais do que um acidente marítimo, o evento tornou-se um marco cultural que encerrou a euforia da Belle Époque e deu início a uma era de questionamentos sobre a infalibilidade tecnológica.

Mais de um século depois, o fascínio pelo Titanic persiste não apenas pelo desastre técnico, mas pelo que ele revela sobre a natureza humana. O navio tornou-se um “microcosmos da humanidade”, onde a avareza, o heroísmo, a covardia e a generosidade se manifestaram em um curto espaço de tempo.

Para a Sociedade Histórica Brasileira do Titanic (SHBT), a maior referência nacional no estudo do navio, o legado do naufrágio é eterno porque marca o fim da arrogância tecnológica da época. Como resumiu a SHBT, o episódio representa uma mudança drástica de paradigma: tudo que há de bom e de ruim no ser humano aflorou naquelas duas horas e quarenta minutos, transformando o Titanic em um arquétipo das nossas próprias qualidades e falhas.

Representação do naufrágio do Titanic / Crédito: Getty Images

Para compreender o que é fato e o que é lenda após mais de um século do naufrágio, o Aventuras na História conversou com Victor VilaHenrique AcquavivaBruno PiolaJean Scuissiato e Luiz Henrique Martins, da SHBT, a maior referência nacional no estudo do navio.

Queda do “inafundável”

Um dos mitos mais enraizados é o de que o Titanic teria sido amplamente divulgado como um navio “inafundável”. Segundo a SHBT, essa afirmação tem base em fatos, mas sua importância foi extrapolada ao longo do tempo. A revista The Shipbuilder afirmou, em 1911, que o navio seria “praticamente inafundável”, e existem registros de frases como “nem Deus afunda o Titanic” proferidas por funcionários do porto ou passageiros.

Entretanto, a popularização massiva dessa ideia deve-se, em grande parte, ao livro ‘Uma Noite Fatídica’, de Walter Lord. “A popularidade do livro fez parecer que essa frase era muito mais popularizada do que os registros dão a entender”, explica a SHBT. Mais do que uma estratégia de marketing, a crença na segurança absoluta do navio refletia o otimismo excessivo da época. O naufrágio colocou essa lógica em xeque, tornando-se um prenúncio da insegurança que a Primeira Guerra Mundial traria anos depois.

Teorias da conspiração

Com a ascensão das redes sociais, teorias conspiratórias ganharam fôlego, como a que envolve a criação do Federal Reserve (FED). A tese sugere que o magnata J.P. Morgan teria planejado o naufrágio para eliminar opositores à criação do banco central americano: John Jacob AstorBenjamin Guggenheim e Isidor Straus. A SHBT classifica a teoria como “absurda”, apontando que Isidor Straus era, na verdade, a favor do banco, além de que seria impossível planejar uma colisão com um iceberg para um assassinato seletivo.

Outra lenda persistente é a da “Troca dos Navios“, que afirma que o Titanic e seu irmão, o Olympic, foram invertidos em um esquema de fraude de seguro. Porém, nesse caso, as evidências técnicas refutam qualquer chance de fraude. Isso porque, conforme destaca a SHBT, o Titanic possuía melhorias em cabines e áreas da tripulação que o diferenciavam nitidamente do Olympic; o tempo em que os navios estiveram juntos em Belfast foi curto demais para as extensas reformas necessárias para uma troca de identidade; e os destroços confirmam a numeração de série das peças e o nome do navio no casco.

Quanto à teoria de que um incêndio nos bunkers de carvão teria enfraquecido o aço, a SHBT esclarece que, embora tenha ocorrido um fogo por cerca de 12 dias, ele foi confinado a uma região pequena. “A hipótese do incêndio permanece como uma ideia exagerada e irreal, com um viés conspiratório”, afirma a Sociedade, reiterando que o impacto do iceberg sozinho foi suficiente para o desastre.

Cinema x realidade

cultura pop, especialmente o filme de 1997 de James Cameron, moldou grande parte da percepção pública sobre o desastre, embora nem sempre de forma fiel. Enquanto Jack e Rose são personagens fictícios, figuras históricas como o Capitão Smith e o diretor da White Star Line, Bruce Ismay, sofreram distorções narrativas. Smith é frequentemente retratado como catatônico, mas registros indicam que ele foi proativo na evacuação. Ismay, por sua vez, não era o vilão que as telas pintam; e nem mesmo há provas de que ele ordenou o aumento da velocidade para quebrar recordes.

Cena do naufrágio em ‘Titanic’ (1997) / Crédito: Reprodução/20th Century Fox

Sobre o comportamento a bordo, um dos mitos mais dolorosos é o de que passageiros da terceira classe foram trancados em seus conveses. A SHBT esclarece que os portões de ferro existentes visavam segregar áreas de tripulação e passageiros, e não impedir o acesso aos botes por maldade. No entanto, houve sim um atraso crítico: “Contudo, a terceira classe, foi, sim, impedida de subir aos botes até bem depois de uma da manhã, ou seja, cerca de 90 minutos após a colisão. Só que esse impedimento não aconteceu nos interiores do navio, e sim numa área externa, conhecida como convés da popa.”

Outro ponto revisto é o destino dos oficiais. O suposto suicídio do oficial Murdoch, mostrado no cinema, carece de evidências factuais. Sobreviventes como o oficial Lightoller relataram tê-lo visto ser engolido pelas águas enquanto trabalhava.

Navio robusto

Por décadas, especulou-se que o Titanic seria um navio “fraco” ou construído com material defeituoso. No entanto, a análise dos destroços e estudos metalúrgicos modernos derrubaram essa ideia. Embora o conhecimento sobre impurezas no aço (como a escória nos rebites) tenha evoluído muito desde então, para os padrões de 1912, o navio era indiscutivelmente o que havia de melhor.

A SHBT destaca que a robustez do navio é provada no próprio fundo do mar: “Chapas de aço dobradas a 90° sem rachaduras ou rebites soltos, mesmo com todo estresse de seu naufrágio, não há evidências de chapas de aço quebradas por conta da baixa temperatura. O Titanic se partiu porque foi submetido a tensões que ele não foi projetado.”

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