Em 1955, psicografia de Chico Xavier acertou 88% das previsões
Pesquisa da UFJF revisita sessão de 71 anos com Chico Xavier, reacendendo o debate entre ciência e espiritualidade

Vinte anos após sua morte, Chico Xavier volta ao centro do debate público e acadêmico. Um estudo recente conduzido por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com especialistas portugueses, analisou uma gravação histórica de 1955 e concluiu que 88% das informações apresentadas durante a sessão mediúnica atribuída ao médium estavam corretas.
Publicado na revista científica Explore, o trabalho examina uma fita de áudio de 54 minutos registrada em 3 de junho de 1955, em Pedro Leopoldo, Minas Gerais. Na ocasião, Chico Xavier recebeu o líder espírita português Isidoro Duarte Santos e, ao longo do encontro, psicografou mensagens, poemas e cartas supostamente ditados por espíritos ligados ao visitante.
Acertos de Chico Xavier
Segundo os pesquisadores, o áudio reúne uma quantidade incomum de dados passíveis de verificação objetiva. Ao todo, foram identificados 65 itens informacionais verificáveis — entre descrições físicas, traços de personalidade, acontecimentos da vida dos falecidos e referências geográficas ligadas a Portugal. Desses, 87,7% foram classificados como corretos, enquanto apenas 3% foram considerados incorretos.
A sessão, segundo o estudo, teve como figura central Isidoro Duarte Santos, importante nome do espiritismo português. Durante o encontro, Chico Xavier não apenas psicografou uma carta atribuída à primeira esposa falecida do visitante, como também descreveu, em sequência, cerca de 18 pessoas mortas que teriam feito parte da trajetória de vida de Santos. O médium mencionou características físicas, episódios específicos, comportamentos e circunstâncias pessoais, muitas delas confirmadas posteriormente pelos pesquisadores.
O psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida, diretor do núcleo da UFJF e um dos autores do artigo, destacou que um dos pontos centrais do trabalho foi justamente avaliar se essas informações poderiam ter sido obtidas por meios ordinários, como conversas prévias, pesquisa documental ou acesso indireto a dados biográficos do visitante.

A conclusão foi que, em aproximadamente 31% dos casos, seria altamente improvável que o médium tivesse obtido o conteúdo por vias convencionais. Isso porque parte das informações dizia respeito a aspectos extremamente específicos da vida de pessoas que viveram em regiões pouco conhecidas de Portugal, com escassa circulação documental no Brasil da época.
O estudo também chama atenção para o aspecto literário da sessão. Entre os textos produzidos, havia dois poemas atribuídos a autores portugueses já falecidos, como Antero de Quental e João de Deus. Os autores da pesquisa afirmam que os versos apresentavam marcas estilísticas e métricas compatíveis com a obra dos poetas, incluindo o uso de formas linguísticas arcaicas do português.
Uma discussão persistente
A publicação, contudo, não encerra o debate. Embora o artigo apresente os resultados como evidências que desafiam explicações tradicionais, o tema permanece controverso no campo científico. A mediunidade, e particularmente a psicografia, segue sendo tratada com ceticismo por parte de muitos pesquisadores, que apontam possíveis vieses metodológicos, interpretação subjetiva dos dados e limitações na replicabilidade dos fenômenos.
Ainda assim, o estudo se insere em uma linha de investigação que busca compreender experiências espirituais a partir de métodos empíricos, sem necessariamente validar uma explicação sobrenatural. Em vez disso, os autores sustentam que o caso de Chico Xavier oferece um material raro para o exame científico da chamada “recepção anômala de informação”.
A repercussão do artigo também recoloca em evidência a figura histórica de Chico Xavier, um dos nomes mais emblemáticos do espiritismo brasileiro. Nascido em 1910, em Pedro Leopoldo, o médium publicou centenas de livros psicografados e se tornou uma referência nacional tanto no campo religioso quanto no imaginário popular brasileiro.
A nova pesquisa soma-se a estudos anteriores sobre cartas psicografadas atribuídas ao médium, alguns deles também conduzidos por pesquisadores ligados à UFJF. Em trabalhos anteriores, índices igualmente elevados de precisão em informações verificáveis já haviam sido apontados, embora os resultados continuem sendo alvo de intenso debate entre defensores e críticos da abordagem.

























