Empresa americana está pesquisando terras raras na Bahia
Companhia multinacional adquiriu direitos minerários em área que engloba três municípios
Por Donaldson Gomes

Os recursos naturais brasileiros, como os minerais, são alvos de interesses internacionais Crédito: José Cruz/Agencia Brasil
Os governos do Brasil e dos Estados Unidos podem até estar em pólos opostos no cenário de disputa comercial, mas ainda assim têm algo em comum: conhecem muito pouco sobre o processo mineral aqui no Brasil. Faz tão pouco sentido o encarregado de negócios norte-americano no Brasil, Gabriel Escobar, procurar o Ibram, entidade que representa as empresas de mineração no Brasil, para dizer que os EUA têm interesse nos minerais brasileiros, quanto o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, responder que “ninguém põe a mão” no petróleo, no ouro e em outros minerais que o país tem.
De um lado, o representante diplomático mais graduado do governo americano por aqui ignora um fato simples: não são as empresas do setor as responsáveis por discutir possíveis acordos sobre minerais críticos e estratégicos. Segundo o Ibram, foi este um dos pontos da pauta que motivou Escobar a solicitar uma reunião com a direção da instituição em Brasília. Um cada vez menos improvável acordo neste sentido, dada a escalada de tensões nas relações entre os dois países, deveria se dar numa conversa entre os dois governos.
Como noticiamos aqui na última quinta-feira, o representante diplomático, que ocupa o cargo de embaixador interino, já que o governo Trump não designou um nome efetivo para o Brasil, demonstrou interesse na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos em preparação pelo governo brasileiro, bem como iniciativas parlamentares nesse mesmo contexto. Vale repetir, um interesse totalmente legítimo, mas que deveria ser tratado com o governo brasileiro.
Foi preciso que o presidente do Ibram, Raul Jungmann, explicasse melhor como funcionam as coisas por aqui. “Eu expliquei a ele que, como a Constituição determina que o subsolo e suas riquezas são da União, essa é uma pauta do governo”, contou ao Jornal Nacional. “Pode vir a ser uma carta a mais na manga para os brasileiros, mas isso depende do que o presidente e o nosso negociador chave venham a propor”, concluiu.
Do outro lado da mesa, o presidente Lula apostou na retórica ao responder. Literalmente jogou para a plateia ao mandar essa durante um evento em Minas Gerais. “Temos todo o nosso petróleo para proteger, temos todo o nosso ouro para proteger, temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, bradou. “A única coisa que eu peço ao presidente americano é que ele respeite o povo brasileiro como eu respeito o povo americano”, completou para delírio da plateia.
Se o objetivo era jogar para a torcida, o discurso funcionou perfeitamente, mas, em termos práticos, Lula ignora que empresas americanas, canadenses, inglesas, chinesas e de vários outros lugares do mundo já exploram as riquezas do subsolo brasileiro. E que não há nada de errado nisso, vale frisar.
Há cerca de um ano, mostramos aqui neste mesmo CORREIO que uma multinacional norte-americana, a Energy Fuels, adquiriu 17 direitos minerários no Brasil, todos na Bahia. Na época, a empresa estava consolidando os números relacionados ao projeto, mas havia grandes expectativas de encontrar em áreas que englobam os municípios baianos de Prado, Alcobaça e Caravelas minerais como tório, lantânio e cério – todos cruciais para a transição energética.
As terras raras (ETR) são elementos essenciais em produtos como monitores de TV, baterias de carros elétricos e equipamentos para a produção de energia. A corrida pelos minerais estratégicos deve movimentar, em todo o mundo, o equivalente a R$ 1,2 trilhão, de acordo com dados da Agência Internacional de Energia. O abastecimento deste mercado pode render um acréscimo de receitas de até R$ 125 bilhões aos cofres dos países ricos nos recursos necessários.
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial dos minerais. É óbvio que estes recursos devem ser utilizados para a geração de riquezas no país. Quem tiver interesse precisa respeitar o caminho institucional e pagar o preço correto para ter acesso. E ao governo brasileiro cabe garantir que todo este potencial se converta em desenvolvimento e não se preocupar com respostas que só servem para bombar nas redes sociais. É só uma opinião.
A jogada errada
Ainda em Minas Gerais, o presidente Lula aparece em um vídeo se gabando de ser bom de truco, e que se Trump “estiver trucando” com o início do tarifaço de 50% contra o Brasil para o dia 1º de agosto, “ele vai tomar um seis”. A curiosidade levou a uma rápida pesquisa sobre o jogo e os seus conceitos. “Pedir um seis” é desafiar o adversário a aumentar a aposta, então ficam aqui duas perguntas. A primeira, o jogo que está sendo jogado é truco, ou xadrez? Perdoem o desconhecimento, mas o leigo aqui enxerga no truco um jogo de azar, ainda que demande a habilidade de blefar. Xadrez é estratégia e parece mais apropriado para o momento. A questão mais importante é a seguinte: vale a pena apostar o futuro do Brasil? Chamou bastante a atenção a reação dos demais integrantes do palanque de Lula. Em um vídeo nas redes sociais, é possível ver claramente o senador mineiro Rodrigo Pacheco, os ministros de Minas e Energia, Alexandre Silveira e até Rui Costa, da Casa Civil, todos bastante sérios e sem aplaudir o lance de truco do presidente. Na imagem, a única que aparece rindo é a primeira-dama Janja Lula.
A preocupação de Trump
Enquanto o mundo está em polvorosa com a chegada de 1º de agosto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta suas atenções para outras questões. No último dia 20, ele ameaçou interferir em um acordo para a construção de um novo estádio de futebol americano em Washington DC, se a equipe do Commanders não voltar a utilizar o seu antigo nome. O time abandonou a alcunha de Redskins, peles vermelhas, em português, por conta do seu significado considerado pejorativo e ofensivo. A expressão era utilizada pelos europeus para se referirem aos nativos norte-americanos. “Posso impor uma restrição de que, se eles não mudarem o nome de volta para o original ‘Washington Redskins’ e se livrarem do apelido ridículo, ‘Washington Commanders’, não farei um acordo para que construam um estádio em Washington”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social. Não é possível que este homem não tenha nada mais importante para fazer, gente.


























