Inseto odiado, barata vira esperança para a humanidade e meio ambiente; entenda
Estudos da USP e UFRJ descobriram potencial no animal
Da Agência Correio

Baratas podem te ajudar a ter um futuro mais limpo Crédito: Wikimedia Commons
Na rua, no banheiro ou na cozinha, quem encontra uma barata jamais considera estar em boa companhia. Mas, para pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma aliança inesperada com o inseto pode ser a chave para encontrar uma matriz energética mais limpa.
O estudo inédito no Brasil investigou o eficiente sistema digestivo da barata-americana (Periplaneta americana), comum em ambientes urbanos. O objetivo foi entender como o animal, que se alimenta de uma vasta gama de matéria orgânica, é capaz de digerir de forma tão completa.
Os cientistas descobriram que o processo enzimático da barata, se replicado em escala industrial, pode otimizar a produção de bioetanol, o biocombustível de cana-de-açúcar.
Isso significa mais eficiência e menos impacto ambiental, pois a tecnologia permite aproveitar melhor o bagaço da cana. Com isso, seria possível reduzir custos e o espaço necessário para o plantio, fazendo com que essas áreas possam ser ocupadas por florestas.
As baratas são conhecidas como detritívoras, ou seja, se alimentam de “restos” da natureza. Apesar de serem consideradas sujas, elas têm o importante papel de “faxineiras” dos ecossistemas.
A dieta variada e a capacidade de processar diferentes alimentos fez com que desenvolvessem um sistema digestivo “coringa” ao longo de milhões de anos. Essa característica foi o foco do estudo.
Biomimética e bioenergia
O pesquisador Marcos Buckeridge, do Departamento de Botânica da USP, explica, ao Jornal da USP, que o objetivo do estudo era entender quais enzimas e quais estruturas da barata atacavam a biomassa, a matéria orgânica utilizada como alimento.
Com essa compreensão, é possível identificar funções metabólicas que podem ser adaptadas para uso industrial. Essa abordagem, conhecida como biomimética, é baseada na observação da natureza.
“Com isso, teríamos uma potência muito maior de degradação da biomassa para produção do etanol”, ressalta Buckeridge. O estudo abre a possibilidade de aumentar a eficiência e reduzir os custos de produção, o que aceleraria a degradação da biomassa.
Segundo o pesquisador, “aprimorar a tecnologia e melhorar a extração energética da cana reduz o espaço necessário para plantio – e essa área pode ser ocupada por florestas”.
O papel das baratas na produção de etanol
O objetivo dos cientistas não é criar usinas lotadas de baratas. Ednildo Machado, professor da UFRJ e coautor do artigo, esclarece ao Jornal da USP que: “O objetivo é entender como elas fazem uma digestão tão completa para que possamos reproduzir isso em escala industrial”.
Segundo ele, a proposta dos pesquisadores é usar essa capacidade de forma sustentável para enfrentar o desafio de traduzi-la para a indústria.
A tecnologia desenvolvida no Brasil transforma a celulose do bagaço de cana-de-açúcar em açúcar, que depois vira etanol. Segundo os cientistas, o desafio para reduzir a emissão de poluentes é a viabilidade econômica, já que as alternativas verdes tendem a ter um custo muito alto.
A replicação do coquetel de enzimas do trato intestinal das baratas pode acelerar e aumentar a eficiência da produção, diminuindo o custo final. “Se conseguirmos produzir mais etanol de forma mais barata, poderemos produzir mais em menos área”, destaca Buckeridge.
Processo de digestão e próximos passos
O processo de digestão das fibras da cana nas baratas acontece em quatro etapas. O professor Machado explica que “o intestino da barata é como uma linha de produção: cada parte tem uma função específica para triturar, degradar e aproveitar ao máximo o material”.
Primeiro, as fibras são trituradas pelos “dentes” de quitina. Em seguida, as enzimas quebram a biomassa em uma câmara digestiva. Por fim, as bactérias finalizam a digestão. É essa sequência, aperfeiçoada pela seleção natural, que os cientistas querem reproduzir na indústria.
Os próximos passos da pesquisa envolvem o estudo de outros insetos, como cupins e tenébrios. Os cupins, por exemplo, degradam quase 90% da celulose e podem trazer novas possibilidades para o mercado.

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