O raro mosaico que retrata cenas de um relato há muito perdido da Guerra de Troia

Segundo arqueólogos, ilustrações podem ter sido baseadas em “Os Frígios”, uma tragédia do dramaturgo ateniense Ésquilo

Mosaico romano da Guerra de Troia – Serviços Arqueológicos da Universidade de Leicester

Em uma descoberta que está sendo aclamada como a mais importante do gênero no Reino Unido no último século, arqueólogos desenterraram um mosaico romano espetacular em Ketton, no centro da Inglaterra. Inicialmente, o tesouro multicolorido, com impressionantes 11 metros de comprimento, foi associado a uma ilustração de cenas da épica Ilíada, de Homero.

No entanto, uma análise detalhada por historiadores e arqueólogos da Universidade de Leicester revelou que a obra de arte retrata, na verdade, passagens de um relato da Guerra de Troia muito mais raro e, em grande parte, perdido: a tragédia grega Frígios, escrita pelo dramaturgo ateniense Ésquilo (Aeschylus) no século 5 a.C.

O achado não é apenas significativo pela sua preservação e dimensão, mas sim pela narrativa que carrega. Ele fornece uma janela fascinante para as influências culturais sofisticadas e “de nicho” que circulavam na província romana da Britânia durante o final do período romano, por volta do terceiro e quarto séculos.

O proprietário da vasta vila rural, cujas ruínas circundam o mosaico, demonstrava um apreço por uma versão da lenda troiana que era praticamente desconhecida em representações visuais na época, conferindo um status cultural único à sua residência.

A descoberta

A epopeia da descoberta começou de forma inesperada em 2020. Enquanto caminhava pelas terras de seu pai na vila de Ketton, Jim Irvine, filho do fazendeiro, notou cacos de cerâmica no solo que não lhe pareciam comuns. Alertado o Conselho do Condado de Leicestershire, pesquisadores do Serviço Arqueológico da Universidade de Leicester (ULAS) foram mobilizados. O que se seguiu foi a revelação de um complexo de villa romana de dimensões consideráveis, com o mosaico formando o piso central de uma das principais salas de recepção.

John Thomas, vice-diretor do ULAS, não poupou entusiasmo: “Esta é certamente a descoberta de mosaico romano mais empolgante no Reino Unido no último século”, repercute a Smithsonian Magazine.

Mosaico romano da Guerra de Troia – Serviços Arqueológicos da Universidade de Leicester

A raridade se intensificou pelo fato de que o mosaico estava rodeado pelo contexto mais amplo da vila, o que é crucial para entender a vida e os gostos de seus habitantes. A descoberta, portanto, não é de apenas uma obra de arte isolada, mas sim de um testemunho cultural encaixado em seu ambiente de origem.

As Três Cenas

O mosaico de Ketton, conhecido hoje como o “Mosaico de Rutland” (em referência ao condado onde foi encontrado), se organiza em três painéis distintos, todos focados no confronto final entre os dois maiores heróis da Guerra de Troia: o grego Aquiles e o troiano Heitor.

  1. O Combate de Carruagens: O primeiro painel mostra Aquiles e Heitor engajados em combate, cada um conduzindo sua carruagem.

  2. O Ultraje e o Luto: A cena central, e talvez a mais dramática, ilustra Aquiles arrastando o corpo sem vida de Heitor atrás de sua carruagem, enquanto o Rei Príamo, pai de Heitor e monarca de Troia, suplica por misericórdia.

  3. O Resgate Ponderado: O terceiro painel, e o mais crucial para a reinterpretação, mostra Príamo medindo o peso do corpo de seu filho em ouro. Este ouro era o preço do resgate pago a Aquiles para que o corpo de Heitor pudesse ser recuperado e ter um enterro digno.

Evidência contra Homero

Foi a minúcia dessas cenas que levou a historiadora Jane Masséglia, da Universidade de Leicester, e sua equipe a questionarem a atribuição a Homero. A Ilíada, de longe a fonte mais famosa da história, descreve esses eventos de maneira diferente em três pontos-chave, fornecendo a base para a nova e mais rara identificação:

  • O Estilo de Combate: Na Ilíada, o confronto final entre Aquiles e Heitor ocorre a pé, em um duelo heroico. O mosaico, no entanto, mostra os dois heróis lutando em suas carruagens.

  • A Integridade do Corpo: Homero afirma que o deus Apolo protegeu o corpo de Heitor de danos, apesar do arrasto. No mosaico, o tronco de Heitor exibe abrasões, indicando lesões.

  • O Processo de Resgate: A divergência mais contundente reside no resgate. A Ilíada detalha o resgate de Heitor como uma coleção de bens valiosos—mantos, ouro, taças, ferramentas—e não há “processo de pesagem” explícito. O painel final do mosaico, ao contrário, retrata graficamente a balança e o peso do cadáver de Heitor em ouro.

Essas diferenças se alinham perfeitamente com fragmentos conhecidos de Frígios (também chamada O Resgate de Heitor), a tragédia de Ésquilo. A peça, embora quase totalmente perdida para a história, apresentava uma versão alternativa e mais gráfica dos eventos após a morte de Heitor.

A escolha desta narrativa “de nicho” — uma peça de teatro que era para os gregos o que Shakespeare é hoje, mas que se perdeu em grande parte — eleva o status cultural do proprietário da vila. Como afirmou Jane Masséglia, o uso dessa versão menos conhecida da história é “raro no império e desconhecido na Britânia”.

A chegada na Britânia Romana

A questão de como essa versão esotérica da história de Troia chegou à Britânia Romana é quase tão intrigante quanto o mosaico em si. Os pesquisadores propuseram três possíveis rotas de transmissão: através de um texto ilustrado de Frígios; por meio de ilustrações em textos romanos posteriores que tomaram emprestado de Ésquilo; ou, o que consideram a opção “mais persuasiva”, por meio de motivos visuais que sobreviveram em moedas, cerâmicas ou outras formas de arte.

Mosaico romano da Guerra de Troia – Serviços Arqueológicos da Universidade de Leicester

Qualquer que tenha sido a fonte de inspiração, a obra de arte histórica prova que seus criadores e o patrono da vila possuíam laços intelectuais surpreendentemente próximos com o mundo clássico. Longe de ser uma província culturalmente isolada, a Britânia romana demonstrou ter uma elite com acesso e apreço por narrativas complexas e variações literárias raras dos mitos fundacionais.

A arqueóloga Hella Eckardt, que não participou da pesquisa, resumiu o significado: “Este é um trabalho de pesquisa empolgante, desvendando as maneiras pelas quais as histórias dos heróis gregos Aquiles e Heitor foram transmitidas não apenas por meio de textos, mas por meio de um repertório de imagens criadas por artistas que trabalhavam em todos os tipos de materiais, de cerâmica e prataria a pinturas e mosaicos.”

O mosaico de Ketton é, assim, uma peça singular de um quebra-cabeça histórico, que nos força a repensar a profundidade e a disseminação da erudição clássica nas fronteiras mais distantes do Império Romano.

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