Pesquisa inédita revela os números por trás da economia do tráfico

A coleta foi viabilizada por uma metodologia própria do Instituto Phi, que capacita moradores das favelas para atuarem como pesquisadores

Uma das pesquisas mais abrangentes já realizadas no Brasil com pessoas envolvidas no tráfico de drogas expõe, com dados, o que as periferias brasileiras gritam há décadas: a economia do crime não se alimenta apenas de armas, mas de fome, desemprego e abandono estatal. O recente estudo “Raio X da Vida Real”, realizado pelo Data Favela, em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas) e apoio do Instituto Phi, entrevistou 3.954 pessoas diretamente envolvidas com o tráfico, em favelas de 23 estados brasileiros.

A coleta foi viabilizada por uma metodologia própria do Instituto Phi, que forma e capacita moradores das favelas para atuarem como pesquisadores em suas próprias comunidades. Com margem de erro de 1,56 ponto percentual, a pesquisa oferece uma escuta inédita da base do crime, revelando o que leva essas pessoas a entrar, permanecer e o que poderia motivá-las a sair.

Os dados mostram que a entrada no crime está menos ligada ao desejo de poder ou prestígio e mais às condições materiais: 36% dos entrevistados ingressaram no tráfico para sustentar a família, enquanto 21% disseram não enxergar outra alternativa de renda. Apenas 5% citaram o reconhecimento social como motivador.

Apesar do risco constante, 52% recebem até R$ 3 mil por mês, e apenas 6% ultrapassam R$ 10 mil. Em muitos casos, os valores não cobrem nem os custos familiares básicos.

Questionados sobre o que os faria deixar o tráfico, 61% apontaram um emprego com salário equivalente ou superior ao atual. Outros 43% disseram que só sairiam com proteção física para si e seus familiares, dado que revela o alto risco envolvido na tentativa de ruptura. Além disso, 38% indicaram acesso à educação ou formação técnica como caminho para reconstruir a vida.

A pesquisa também desconstrói a tese da “família desestruturada” como causa central do ingresso no crime. Apenas 13% apontaram episódios de alcoolismo, uso de drogas ou violência doméstica como fatores de entrada no crime.

As mulheres representam 18% da amostra. Muitas ingressam por laços afetivos ou familiares e acumulam a função de chefia do lar. Nesses casos, a permanência no crime está ligada à falta de creche, de alternativas de renda e ausência de rede de apoio.

É claro que o combate ao consumo também precisa ser considerado, mas o estudo mostra que, embora o enfrentamento policial siga necessário, a repressão atinge apenas a superfície do problema. Por oferecer um retrato objetivo das engrenagens que sustentam o tráfico e das condições reais para enfrentá-lo de forma efetiva – basta observar a falta que uma creche faz -, o estudo do Data Favela merece atenção prioritária de gestores públicos e candidatos às eleições de 2026. Sua principal conclusão é que só políticas públicas bem estruturadas e sustentáveis têm o poder de desarticular a base econômica e social que mantém o crime organizado nas periferias.

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