Restos mortais da maior heroína de Três Rios podem não estar na cidade
Condessa do Rio Novo é tida como ícone no município por ter, há mais de 130 anos, distribuído terras a mais de 300 escravos

Os cerca de 80 mil moradores da pacata Três Rios, no Centro-Sul do estado, estão em polvorosa: os restos mortais da maior representante da História da cidade, Marianna Claudina Barroso de Carvalho, a Condessa do Rio Novo, não estariam sepultados na cripta da família, nos fundos da Capela de Nossa Senhora da Piedade, marco de fundação do município, no bairro Cantagalo, como se é cultuado e propagado há 133 anos.
A constatação de que o povo, historiadores e turistas teriam sido enganados por mais de um século foi feita por integrantes do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG), liderados pela pesquisadora trirriense Cinara Jorge, de 62 anos. Marianna é tida como heroína por ter distribuído, antes de morrer, possivelmente de câncer, aos 66 anos, em 1882, seus bens e terras a mais de 300 escravos que tinha, que também ganharam alforria seis anos antes da Lei Áurea.
“Gelei quando recebi, no dia 3 deste mês, do amigo Hariolo Araújo, da Embaixada do Brasil na Inglaterra, um e-mail com os seguintes dizeres: ‘Ela está aqui’”, conta Cinara. Hariolo se referia à ossada da condessa, que, conforme documentos e fotos, pode estar numa urna de madeira, num jazigo no subsolo da Igreja de St. Mary’s, em Londres, onde ela assistiu a sua última missa. “A meu pedido, ele e outros amigos do grupo checaram o paradeiro da condessa em todos os cemitérios de Londres, chegando a esse templo. Foi um baque enorme, pois todos nós queríamos que os restos mortais dela estivessem em Três Rios”,

Foto: Divulgação
As investigações foram iniciadas por Cinara ao colher informações reunidas no livro ‘Pioneiros dos Três Rios – A Condessa do Rio Novo e sua Gente’, de sua autoria. A desconfiança de que os despojos da condessa nunca estiveram depositados na Capela de Nossa Senhora da Piedade e o início da montagem do quebra-cabeça para se desvendar o mistério começaram com registros históricos guardados no Arquivo Nacional, no Museu da Justiça, na Biblioteca Nacional, no Itamaraty e no Consulado do Brasil, em Londres.
Segundo documentos e cartas, em 1877, a condessa descobriu um tumor no ovário e, em 1882, partiu para a Inglaterra para se tratar. Ela viajou acompanhada de uma escrava e do médico Randolpho Penna, casado com uma sobrinha dela, mas não resistiu e morreu. Como não teve filhos com o marido, Visconde do Rio Novo, ela deixou testamento doando bens, terras, e libertando seus escravos. No documento, Marianna manifestou ainda o desejo de ser enterrada em sua terra natal, junto aos pais e ao marido.

Foto: Divulgação
Por causa de trâmites burocráticos, um caixão de zinco com os supostos restos mortais da condessa chegou ao Porto do Rio três anos depois. O caixão ficou abandonado por vários dias, até ser levado para a capela em Três Rios, onde foi erguido um jazigo. Dois anos depois, foi sepultada num caixão de cedro. O livro de Cinara relata que reproduções do jornal “Novidades” mostram que, no momento do sepultamento, o caixão foi aberto e, para a surpresa de familiares, foram encontrados apenas alguns ossos envolvidos em serragem, sem a arcada dentária e cabelos, o que levantou suspeitas de possível fraude.
Padre Medoro: ‘Essa dama tem que ser repatriada’
O administrador da Capela de Nossa Senhora da Piedade, Jorge Pereira Nunes, 73, resume o sentimento do povo de Três Rios: “Estou arrasado, decepcionado. Essa história centenária agora terá de ser recontada na forma correta”, diz. O padre Medoro Souza Neto, 60, iniciou um movimento informal para repatriar a ossada da condessa.
“Essa dama tem que vir para sua terra natal. Ela foi um exemplo de mulher, avançada social e culturalmente para sua época. Enquanto a Princesa Isabel fez uma misancene, pois assinou a Lei Áurea por conta do agravamento da crise do café, jogando os escravos sem assistência nas estradas, Marianna integrou os negros ao comércio local e os libertou oito anos antes”, justificou.

Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia
A Marianna também é atribuída a criação da primeira reserva ecológica da região, no distrito de Bemposta, numa área em que ela proibiu a plantação de café.
Em nota, o prefeito de Três Rios, Vinicius Farah (PMDB), disse estar “surpreso, assim como todos os cidadãos trirrienses”. “A partir da comprovação oficial por meio de documentos (de que a ossada não é da condessa), a situação será analisada junto à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para providências”, comentou.
A Câmara de Vereadores aprovou a recuperação do telhado da capela, proposta pela prefeitura, em parceria com o Instituto <USTitCoordenaV1-0>do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), no valor de R$ 500 mil. As obras devem começar até dezembro e vão proteger não só o túmulo da condessa, mas também de seus pais, o Barão e a Baronesa de Entre-Rios, além de pinturas bíblicas raras, de artistas de São João Del Rey (MG).
“Só quem não ama Três Rios é que não acha importante trazer os restos mortais da condessa para o município”, diz Cinara Jorge, adiantando que uma produtora já estuda transformar a história da condessa em filme.
A ‘Condessa do Rio Novo’, Marianna Claudina Barroso Pereira de Carvalho
Para passar a história da Condessa do Rio Novo a limpo, a arqueóloga Valdirene Ambiel – que fez a exumação de Dom Pedro I – se ofereceu para acompanhar o caso. Um exame de DNA dos ossos de Marianna e de seus pais deverá ser feito nos próximos meses. Outros mistérios precisarão ser solucionados, como a quem pertenceria a ossada que está em Três Rios, no caso de DNA negativo, e por qual motivo os restos mortais de Marianna teriam ficado em Londres.
Na época, esqueletos como o enviado para Três Rios, em 1882, eram estudados em laboratórios e somente médicos tinham acesso. Documentos históricos levantam suspeitas sobre a conduta e personalidade de Randolpho Penna, revelando que ele preencheu cheques assinados pela Condessa e deu calote no aluguel em Londres.

























