Por Maciel Melo*
O sinal fechado e o silêncio assombrando a madrugada. Do lado direito, uma marquise com os vergalhões expostos, minando gotas de ferrugem, como se lacrimejasse sobre o abandono de alguns retalhos humanos estendidos na calçada de um velho armazém.
Descrevi essa imagem ao ver uma fotografia, há muito tempo atrás, estampada na folha de Pernambuco. Um jornal que resiste e insiste em existir na contramão da velocidade tecnológica, que avassala sobre o olhar analógico de leitores que como eu, precisa apalpar e sentir o cheiro do papel.
Pois bem, mais adiante, um mendigo tenta acender uma ponta de cigarro que apanhou no chão da porta de um botequim, fazendo concha com as mãos. Vira prum lado, vira pro outro, numa peleja infinda entre o vento e a vontade de fumar.
O sinal vai abrir; volto o olhar para a realidade e me revolto com as incongruências da vida. Uns com tanto, outros com tão pouco; mas tudo depende do jeito de quem vê̂ a vida. Eu a vejo todo dia, e todo dia me decepciono com um mundo cada vez mais desumano, mais nocivo e mais demente com as coisas do coração.
Quando eu vejo a plebe rastejar sobre as vicissitudes causadas pela opressão, enquanto seus algozes multiplicam a miséria para chegarem ao poder, me dá́ um nó na garganta e engulo o choro para não engasgar a voz que afinei para cantar aquela canção que ainda não fiz.
O sinal abriu, sigo o trajeto que tracei na hora da saída, com destino à Rua da Hora. Lá, qualquer hora é hora de chegar; lá, somos Reis e Rainhas; lá́, não existe solidão; lá́, o garçom é meu amigo, e a menina da mesa ao lado me faz um aceno, me sorri, e diz que leu um texto onde eu afirmava que a vida era só́ um simples jeito de ser.
*Cantor e compositor


























