
Cerca de 15km separam a Praça Onze, bairro que abrigou o terreiro de Tia Ciata, e São Conrado, onde fica o apartamento de Beth Carvalho. O que une esses dois lares tão distintos, claro, é o samba. Enquanto uma das mais famosas mães de santo do país abriu suas portas para Pixinguinha, Heitor dos Prazeres e Sinhô no início do século passado, a mangueirense foi anfitriã de um encontro também histórico: a convite da Canal Extra, ela, Martinho da Vila, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho se reuniram para festejar os cem anos do samba. O marco inicial do gênero foi o registro de “Pelo telefone”, de autoria de Donga, em 1916. Desde então, o Brasil nunca mais parou de esquentar nossos pandeiros — e essa gente bronzeada finalmente mostrou todo seu valor.
No sofá de Beth, o quarteto não conversou sobre a autoria controversa de “Pelo telefone”, nem discutiu se o ritmo é carioca ou baiano (veja no fim desta reportagem um vídeo com a linha do tempo do centenário do samba). A ideia do bate-papo era falar sobre as histórias deles, que se tornaram alguns dos grandes expoentes de nossa maior riqueza cultural, e têm lugar garantido em qualquer antologia da música brasileira.

Martinho da Vila é o capitão desse time. Foi o primeiro sambista a fazer sucesso popular, vendendo milhões de cópias. Como a própria Beth diz, ele “abriu os caminhos”. Em meados dos anos 60, quando a juventude estava dividida entre o rock, a bossa nova e a MPB, o gênio da Vila resgatou o partido-alto e botou o país para cantar “Menina moça”, no 3° Festival da Record, em 1967.
— Na época, ninguém sabia tocar partido-alto. Gravaram um disco com as canções do festival e “Menina moça” parecia outra música, porque eles não acertavam a batida — lembra Martinho.
— É verdade. E a grande sacada de João Gilberto foi pegar o ritmo do partido-alto pra criar a bossa nova. Ele faz a batida do pandeiro no violão — acrescenta Beth.

O som de Martinho fez tanto sucesso que chegaram a dizer que ele havia inventado o partido-alto. Logo em seguida, surgiu a proposta para gravar um disco. Mas quem disse que Martinho desejava ser cantor?
— A gravadora RCA me deu um estúdio para eu gravar minhas músicas e mostrar para outros artistas. Quando eles ouviram, resolveram lançar e o disco estourou. Nunca quis cantar, não tinha esse sonho. Na época, precisava ter voz grave para ser cantor.
— Samba não pode ser cantado, tem que ser interpretado. Quando se metem a cantar o samba, colocando aqueles “trinados”, estragam a música — decreta Zeca.
Arlindo, Beth, Martinho e Zeca cantam “Pelo telefone”
A sorte de Martinho é que ele mesmo interpretou “Menina moça”, diferentemente do que estava previsto, arrebatando o público. E os festivais, embora tenham ficado marcados pela MPB e pelas músicas de protesto, também escreveram seu nome na história do samba. Em 1968, Beth Carvalho ficou em terceiro lugar no Festival Internacional da Canção, com “Andança”. Foi o batismo da estrela que anos depois se tornaria madrinha de boa parte dos sambistas.
— Eu era da Zona Sul, tinha uma identidade forte com a bossa nova. Mas sempre gostei de samba de raiz. Quando ouvi Clementina de Jesus no show “Rosa de ouro”, decidi ser sambista. Aquilo me emocionou de uma forma que eu pensei: “É isso que eu quero pra mim” — conta Beth, que não sentiu resistência no subúrbio por ser de Ipanema: — A Zona Sul é que ficou chateada! Os sambistas me receberam muito bem. Eles reconhecem pelo olho quem é apaixonado pelo ritmo.
E foi com esse olhar apurado que Beth deu destaque a grandes compositores de nossa música, como Nelson Cavaquinho (com a gravação, em 1973, de “Folhas secas”) e Cartola (“O mundo é um moinho”, em 1977). Com o autor de “As rosas não falam”, a cantora estabeleceu uma relação pra lá de especial: é difícil pensar numa canção de Cartola sem a voz de Beth. E não é só a Madrinha que tem seus ícones no samba. Os quatro bambas reunidos para esta reportagem têm forte afinidade artística com poetas que já não estão mais entre nós, mas que tiveram importância fundamental nestes cem anos. O EXTRA, então, pediu que cada um deles escrevesse uma carta a um ídolo do passado. A emoção dos textos refletem características marcantes do gênero: a amizade entre os sambistas e a reverência aos mais velhos.

Arlindo Cruz, por exemplo, mostrou sua devoção a Silas de Oliveira, o imperiano que deu ao samba-enredo o status de obra de arte. Seu único lamento é não ter conhecido o mestre. A faculdade musical de Arlindo foi no Cacique de Ramos, estudando embaixo da tamarineira. Um de seus colegas de turma era Zeca Pagodinho.
— Mas, antes de conhecer Zeca, conheci Martinho. Foi na casa do Candeia, com quem eu tocava. Eu devia ter uns 16 anos. Martinho já era “o cara”, eu ficava olhando para ele de longe — conta Arlindo.

Aquele menino envergonhado depois se tornaria parceiro do mestre da Vila: neste carnaval, os dois assinam juntos o samba da Unidos de Vila Isabel, repetindo a dobradinha de 2013, quando a escola foi campeã.
Mas é com Zeca Pagodinho que Arlindo formou uma das duplas de compositores mais importantes do país, com sucessos como “Bagaço da laranja”, “Casal sem vergonha” e “Camarão que dorme a onda leva”. Essa última, assinada também por Beto Sem Braço, foi a responsável pela estreia de Zeca num palco. Em 1983, no lançamento do disco “Suor no rosto”, no Asa Branca, o rapaz do Irajá, que até então só gostava de rabiscar seus versos, foi quase forçado a pegar o microfone e cantar que “hoje é dia da caça / amanhã do caçador”.

— Depois disso, nunca mais tive sossego. E também nunca mais fiquei pobre — brinca Zeca, lembrando que a noite de estrela terminou mal: — Arrumei confusão com a minha namorada e fui parar na delegacia. Sorte que o pessoal do Fundo de Quintal foi lá me salvar.
Mas salvação mesmo era gravar com a Madrinha. Beth Carvalho nessa época garimpava sucessos dos compositores no Cacique de Ramos, onde estavam Zeca e Arlindo. A turma toda queria ter música na voz “da mulher”.
— Eu ia lá toda quarta-feira. Aquilo era uma usina de bons sambas. Eu nem conseguia gravar todos. Mostrei muitas composições para artistas como Emílio Santiago e Alcione — diz Beth, cuja afinidade musical com os bambas do Cacique não escondia uma pequena diferença, ela não bebia cerveja: — Eu tomava Coca-Cola. Era uma vergonha. Colocava até a garrafa num cantinho para ninguém ver.

Quem nunca passou por isso foi Zeca. O então morador mais famoso de Xerém levou a inseparável cervejinha para muitos lugares.
— No Teatro Fênix (onde eram gravados diversos programas da TV Globo), não podia entrar cerveja. Eu ficava no botequim esperando a hora da gravação. Até que, um dia, o segurança deixou. Faustão dizia que eu era o único que bebia lá dentro.
A cerveja de Zeca é uma mostra curiosa de como o samba foi ganhando seu espaço. Mas o cenário nem sempre foi essa maravilha. Pixinguinha, um dos integrantes da Santíssima Trindade do gênero (ao lado de Donga e João da Baiana), nunca deixou de sofrer preconceito. Um desses episódios marcou Martinho da Vila. Em 1966, ele foi assistir ao “Show do Crioulo Doido”, no Teatro Toneleros. Em determinado momento do espetáculo, os atores mostravam uma placa da “Rua Pixinguinha”, com a explicação: “Musicólogo”. “Mas Pixinguinha nem sabe o que é isso!”, dizia o texto do musical. Martinho, é claro, não gostou. E deu sua resposta: lançou o LP “ Nem todo crioulo é doido”, com vários compositores de escolas de samba, como Zuzuca e Darcy da Mangueira.
Hoje em dia, doidos ou não, crioulos e brancos se juntam para sambar sem pensar duas vezes. Pixinguinha ganhou estátua no Centro do Rio e é reverenciado como patrono do choro. Martinho lançou livros, fez muito sucesso com a música e é tido como um dos gênios de sua época. Beth levou seu samba até para Marte. Zeca juntou as classes A e E na mesma roda. Arlindo modernizou a batucada, fundindo com diversos outros gêneros. E a nós só resta reunir esses bambas, como numa prece pelos próximos cem anos.


























