Professor da Ufba é acusado de machismo e homofobia

  • Fernando Conceição é professor da Faculdade de Comunicação da Ufba - Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

    Fernando Conceição é professor da Faculdade de Comunicação da Ufba

O professor Fernando Costa da Conceição, da Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), foi acusado por estudantes de machismo e homofobia. Em uma nota de repúdio (veja abaixo), divulgada nesta segunda, 7, os estudantes reclamam da postura do docente durante as aulas de comunicação e atualidade I.

Eles alegam que o professor é preconceituoso com as alunas, que não conseguem ter espaço nas aulas. A nota também aponta algumas frases supostamente ditas por Conceição, como “Livro grosso serve para bater na namorada”, “Homem só gosta de mulher bonita e não inteligente” e “Machismo, racismo e homofobia são opiniões”.

Em nota publicada no Jornal Extra, o professor contestou a acusação e disse que a iniciativa tem cunho político. “As ‘organizações’ ou pseudo-organizações autoras da ‘Nota’ são todas política, partidária e facciosamente orientadas”, disse, no comunicado.

O docente também ressaltou que 13 das 30 pessoas que assinam a nota não são alunas dele. Além disso, outras cinco já possuem mais de 16 faltas. “Pode uma pessoa que não está nos debates e discussões acadêmicas na sala de aula atacar com uma nota infame, caluniosa, maldosa, um professor? Qual a motivação por trás disso?”, questionou.

Fernando Conceição também argumentou que costuma discutir assuntos atuais em suas aulas e que nesta segunda, 7, ele e os estudantes conversaram sobre maternidade, quando ele explanou sua opinião sobre o assunto, desagradando um grupo.

O diretor em exercício da Facom, Fábio Sodral, disse que tomou conhecimento da acusação nesta segunda e conversou com os alunos no mesmo dia. O docente também foi informado do caso e será ouvido nesta terça.

Além disso, a diretoria da Facom comunicou a Reitoria da Ufba para verificar quais os procedimentos institucionais e legais que devem ser seguidos nesse tipo de denúncia.

“Não vamos ignorar a denúncia, nem queremos isso. Mas queremos seguir os trâmites legais para ser justos com todos”, disse Sodral, ressaltando que não houve outra reclamação formal contra o docente.

Leia a íntegra da resposta de Fernando Conceição:

“Sobre a “Nota de Repúdio” que me tem por alvo, deixe-me deixar claro logo uma coisa.

1. As “organizações” ou pseudo-organizações autoras da “Nota” são todas política, partidária e facciosamente orientadas.

2. Todas, dentro ou fora da Facom, são aparelhos de determinado partido político cujas principais lideranças estão investigadas na Operação Lava Jato.

3. Operação Lava Jato que aplaudo, não por paixão ou ódio, mas por entender necessária no desmonte de um esquema criminoso contra um dos mais importantes patrimônios do país.

4. De algumas dessas organizações, conheço os seus “donos”. Caciques, alguns exercendo mandatos parlamentares, com os quais mantive (ou mantenho) relações pontuais. Afinal, como parte deles, sou forjado na luta.

5. A “Nota” é mentirosa. Falseia a verdade dos fatos e, suspeita, falseia suas reais intenções.

6. 13 (treze) das 30 pessoas que colocam seu nome na “Nota” não são alunas nas duas turmas da disciplina Comunicação e Atualidade 1 que ministro no presente semestre. Não sei quem são. Nem se o 13 é um número cabalístico.

7. Duas delas tem já 21 faltas, uma 17 e duas 16 faltas. O semestre mal começou e esses 5 (cinco) signatários meus alunos ou já perderam ou estão prestes a perder a matéria. Uma terceira pessoa daquelas já acumula 14 faltas. Importante ressaltar: pode uma pessoa que não está nos debates e discussões acadêmicas na sala de aula atacar com uma nota infame, caluniosa, maldosa, um professor? Qual a motivação por trás disso?

8. Os “organizadores” politicamente orientados da “Nota”, como organização partidariamente orientada, buscam a adesão de “apoiadores”. Eu buscarei a afirmação da verdade e da autonomia do pensamento intelectual.

9. Nas disciplinas que ministro todas e quaisquer discussões obedecem a um cronograma rígido de leituras, a uma bibliografia dada no programa entregue a todos no primeiro dia de aula.

10. No caso de Comunicação e Atualidade I, além dos livros (a maioria a ser lidos por inteiro) as discussões se centram ainda no debate sobre temas da atualidade, com base as leituras obrigatórias da revista Veja e dos jornais Folha de S. Paulo, A Tarde e Correio. Nas aulas deste 7 de março, uma turma concluiu a leitura de Thomas Skidmore (Brasil, de Getúlio a Castello), tendo de nas aulas seguintes passar para Renato Ortiz (A Moderna tradição brasileira) e a segunda turma concluiu a leitura de Milton Santos (Por uma outra globalização) e deu inínio hoje mesmo à leitura de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil). Isso depois de nas primeiras semanas ambas as turmas debaterem a Constituição da República Federativa do Brasil.

11. No presente semestre, o tema central desde a primeira semana de aulas são a crise político-institucional e a crise econômica que maculam o Brasil. Tenho me posicionado a favor de uma saída dessas crises com a valorização da Justiça (no caso, principalmente as investigações levadas a termo pela chamada Operação Lava-Jato), defendendo a postura do juiz Sergio Moro, inclusive na recente 24ª fase, que levou à condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tenho, inclusive, dito da importância do comparecimento aos atos deste domingo, 13 de março, por uma Brasil menos corrupto. Estranho um professor universitário de uma faculdade “progressista”, com alunos defensores de causas “do bem”, afirmar tais heresias.

12. Discussão de temas à margem ocorrem, sendo que todo e qualquer aluno pode e deve defender suas posições. De minha parte, assim como aos alunos é dado esse direito, apresento e defendo os meus, mas sempre trazendo referências de leitura. Como na aula de hoje, quando em tema paralelo entrou a questão da maternidade, que entendo ser atributo exclusivo (na maioria das espécies) do sexo feminino.

13. Algumas alunas reagiram a isso como uma “ofensa”, e então citei Schoppenhauer. Para uma dessas alunas, a que encabeça a lista de nomes na nota, um “cientista” abominável, que não leu e deve ser repudiado de per si. Expliquei-lhes ser este um filósofo (não cientista) importante na tradição da filosofia ocidental e destaquei a arrogância e prepotência de alunos sabichões donos da verdade.

14. Tal postura autoritária de alunos que querem impor sua visão de mundo aos demais, sem contraditório, transformando o espaço de debates de divergências comum na universidade, jamais será por este Professor compactuada.

15. Tudo discutido, sem peias, a partir de referências bibliográficas e leituras obrigatórias, exatamente para diminuir o risco de opinionismos subjetivos e certezas absolutas.

Fernando Conceição, professor

Faculdade de Comunicação da UFBA”

Fonte: A Tarde

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