Quando craques do futebol foram à guerra na Revolução Constitucionalista de 1932
Na Revolução Constitucionalista de 1932, Friedenreich, Heitor e outros atletas trocaram os gramados pelas trincheiras, enquanto clubes doaram troféus para financiar a guerra

Quando a Revolução Constitucionalista de 1932 interrompeu as competições esportivas em São Paulo, parte dos principais nomes do futebol paulista deixou os gramados para integrar os batalhões que combatiam nas frentes de batalha.
Craques como Arthur Friedenreich, considerado o maior jogador brasileiro da época, e Heitor Marcelino Domingues, um dos maiores ídolos do Palestra Itália, trocaram as chuteiras pelos fuzis. Ao mesmo tempo, clubes abriram mão de parte de seu patrimônio esportivo, entregando medalhas, troféus e objetos de valor para financiar o esforço de guerra.
Esse capítulo pouco conhecido da história da Revolução Constitucionalista está sendo resgatado pelo pesquisador Eric Apolinário, autor de obras sobre o conflito. Segundo ele, um livro dedicado ao Batalhão Esportivo será lançado em 2027, como parte das comemorações pelo centenário da revolução, reunindo documentos, fotografias, cartas e biografias de atletas que participaram dos combates.
A Revolução Constitucionalista teve início em julho de 1932 e se estendeu até outubro daquele ano. O movimento armado buscava derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e pressionar pela promulgação de uma nova Constituição para o Brasil. Durante o conflito, diversas modalidades esportivas suspenderam suas atividades, enquanto dirigentes, atletas e clubes passaram a colaborar diretamente com a mobilização paulista.
Da floresta ao front
As pesquisas de Apolinário mostram que o envolvimento foi muito além do futebol. Representantes de diferentes modalidades participaram da criação de batalhões compostos por esportistas, enquanto clubes da capital e do interior contribuíram financeiramente para a campanha conhecida como “Ouro para a Vitória”, destinada a arrecadar recursos para custear a guerra.
O historiador Michael Serra, pesquisador da história do São Paulo Futebol Clube, relata em seu livro “São Paulo Futebol Clube: Onde a moeda cai em pé” que a Chácara da Floresta, estádio do clube naquele período, foi transformada em centro de treinamento para os integrantes do Batalhão Esportivo. No local, os voluntários recebiam instruções militares básicas para o manuseio de fuzis e metralhadoras antes de seguirem para o front.
Segundo Serra, “atletas dos mais variados esportes foram para as linhas de frente, empunhando fuzis, dispostos a matar e a morrer pela causa que defendiam”.
O batalhão foi oficialmente apresentado em 16 de junho de 1932, embora alguns atletas já estivessem em combate antes dessa data. Entre os jogadores ligados ao São Paulo que participaram da revolução estavam Luizinho, Araken Patusca, Junqueirinha, Milton, Faria e os nadadores Guilherme Schall e Agostinho Oliveira.

Alistamento e sacrifício alviverde
No Palestra Itália, atual Palmeiras, o engajamento também foi expressivo. O historiador Fernando Rizzo Galuppo destaca que nomes importantes do clube, como Ambrosini, Victorio Papaiz e o artilheiro Heitor Marcelino Domingues, participaram dos combates. Heitor chegou a atuar ao lado de Arthur Friedenreich na mobilização de outros esportistas para integrar as tropas paulistas.
Além dos jogadores, dirigentes também aderiram ao movimento. Galuppo cita Ludovico Bacchiani, Pedro Baldassari e Delfino Facchina entre os integrantes dos batalhões esportivos. O então presidente do clube, Dante Delmanto, afastou-se da função para lutar no 1.º Batalhão, retornando ao cargo apenas após o encerramento da guerra. Ao final da campanha, havia alcançado a patente de 1.º sargento.
A participação do Palestra não se limitou ao envio de atletas. O clube entregou medalhas, taças e cartões confeccionados em ouro e prata para serem convertidos em recursos destinados ao financiamento do conflito. Entre os objetos doados estava uma pá de prata utilizada, em 1929, no lançamento simbólico da pedra fundamental das arquibancadas do estádio Palestra Itália.
Segundo Galuppo, tratava-se de uma peça produzida especialmente para marcar o início da construção da primeira estrutura de concreto armado daquele porte na cidade. Durante a revolução, o estádio também foi colocado à disposição das autoridades, servindo como espaço para treinamentos militares e sede da Cruz Vermelha.
El Tigre
Arthur Friedenreich, principal nome do futebol brasileiro naquele momento — conhecido como “El Tigre” —, tornou-se uma das figuras mais conhecidas da campanha constitucionalista. De acordo com Serra, o atacante utilizava transmissões de rádio para incentivar outros atletas a aderirem ao movimento. Após seu alistamento no 1.º Batalhão Esportivo, centenas de esportistas seguiram o mesmo caminho em poucos dias.

No início de agosto, Friedenreich embarcou com outros voluntários na Estação da Luz rumo a Campinas, onde as tropas eram organizadas antes do deslocamento ao Front Leste. Posteriormente, foi enviado para a região de Eleutério, atual distrito de Itapira, sendo promovido de sargento a 2.º tenente por sua atuação durante os combates.
Sua notoriedade também o transformou em alvo da propaganda adversária. Durante o conflito, jornais do Rio de Janeiro divulgaram falsamente que o jogador havia morrido em combate. A informação acabou reproduzida por veículos nacionais e estrangeiros, chegando inclusive à imprensa argentina, onde ilustrações mostravam como teria ocorrido sua morte.
Para Serra, o episódio demonstra a força que Friedenreich exercia como símbolo da causa paulista. O pesquisador também chama atenção para a escassez de equipamentos militares disponíveis aos batalhões esportivos. Muitos combatentes sequer possuíam capacetes de aço, o que levou dirigentes da Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) a organizarem campanhas de arrecadação junto aos clubes e torcedores.
Relíquias resgatadas e o exílio carioca
Foi nesse contexto que ganhou força a campanha do ouro, responsável por reunir troféus e medalhas para serem fundidos. Um dos objetos mais emblemáticos envolvidos nesse processo foi a Taça Penteado, pertencente ao Club Athletico Paulistano. Adquirida em 1904 por 20 mil francos, ela havia desaparecido em 1911 e reapareceu apenas durante a mobilização de 1932, acompanhada de um bilhete informando que fora encontrada no leito do Rio Tietê. Antes que fosse derretida, acabou resgatada mediante pagamento em dinheiro.
Outro episódio curioso envolveu o zagueiro Sebastião Teixeira, atleta do time aspirante do São Paulo. Quando a revolução começou, ele estava no Rio de Janeiro e não conseguiu retornar à capital paulista. Durante o conflito, acabou defendendo o Vasco da Gama até o encerramento das hostilidades, repercute o Estadão.
Entre os atletas ligados ao São Paulo, apenas Agostinho de Oliveira morreu oficialmente durante a guerra. Integrante das equipes de natação e polo aquático, o jovem de apenas 17 anos faleceu em 7 de setembro de 1932 em consequência dos ferimentos sofridos quando combatia pelo Batalhão “Paes Leme”. Poucos meses antes, havia conquistado o vice-campeonato da Travessia de São Paulo a Nado, uma das principais provas da modalidade naquele período.
Armistício e retorno aos gramados
Segundo o historiador e filatelista Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior, o movimento de adesão ao conflito ultrapassou os grandes clubes da capital. Pequenas agremiações de bairros e cidades do interior também enviaram atletas aos batalhões esportivos. No início de agosto, cerca de 1.400 esportistas já haviam se alistado. Um mês depois, esse contingente alcançava aproximadamente 2 mil voluntários.
Além do futebol, dirigentes de modalidades como basquete, esgrima e atletismo também participaram da mobilização. Ribeiro Júnior destaca que os esportistas receberam treinamento militar básico antes de seguirem para a linha de frente e enfrentaram seu primeiro combate poucos dias após chegarem à região de Eleutério.
A Revolução Constitucionalista terminou em 2 de outubro de 1932, quando as forças paulistas assinaram o acordo de rendição na cidade de Cruzeiro, no Vale do Paraíba. Com o encerramento do conflito, as competições esportivas foram retomadas. O Campeonato Paulista foi concluído e teve como campeão o Palestra Itália, que conquistou o título após vitórias expressivas sobre Corinthians, Portuguesa, Germânia e Santos.
Enquanto o futebol voltava aos gramados, a participação de atletas, dirigentes e clubes na guerra permanecia registrada na memória daqueles que trocaram, ainda que temporariamente, o esporte pelas trincheiras.

























