No município de Heliópolis, região dos indígenas da tribo Kiriri, a 317km de Salvador, em certa época, os umbuzeiros imperavam poderosos com suas frondices sem igual. A amplitude dos seus galhos de grosso calibre conseguia sustentar e proteger a quem, por destreza e coragem, para lá se esgueirasse atrás dos seus deliciosos frutos doces e ao mesmo tempo ácidos e azedos.
A depender de quantas horas escolhesse ficar pulando de galho em galho — dezenas ou centenas deles — no desfrute da suculência dos seus frutos, corria o risco de descer com os dentes em extrema sensibilidade, com uma espécie de ‘ginge’, como se diz em certas cidades interioranas.

Dizem que nos últimos anos a cidade ceifou muitos pés desse xodó sertanista, que fez e faz parte da vida de muita gente, principalmente dos vaqueiros. Numa grande necessidade, e sol a pino, retiravam das raízes a água que precisavam para tirar o grupo viajante do sufoco.
O umbu ou imbu tem origem no tupi-guarani (ymbu), que significa “árvore que dá de beber”. Isso porque, além do fruto, a frondosa árvore armazena água em suas raízes, fazendo a festa dos vaqueiros em plena caatiga. Eles corriam — muitos ainda correm, mas hoje essa figura é mais rara neste pedaço do sertão — atrás da saborosa água dos umbuzeiros.

Euclides da Cunha, em seu livro Os Sertões, de 1905, fala dessa ilustre fruta nas páginas 46 e 47, como generosamente cita a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú.
“É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frizante exemplo de adaptação da flora sertaneja”.
Em outro trecho replica: “E ao chegarem aos tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor requintado para o preparo da umbuzada tradicional. O gado, mesmo nos dias de abastança, cobiça o sumo acidulado das suas folhas. Realça-se-lhe, então, o porte, levantado, em recorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o chão, à altura attingida pelos bois mais altos, feito plantas ornamentais entregues à solicitude de práticos jardineiros”.
Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros.Euclides da Cunha,
Eita palavreado bonito, menino! Beleza que se estende aos umbuzeiros, aos umbus, tão típicos do verão, tão baianos. O chef de cozinha e pesquisador Alício Charoth lembra o quanto delicioso e sustentável é o nosso umbu.

“A utilização dos frutos, das folhas e da batata são comuns na alimentação humana e animal. Podemos identificar sua importância como marcador da nossa “sazonalidade” ou da época, o que é um sinalizador da sua transformação em iguarias regionais, agregando valor ao produto in natura, bem como doces, compotas e até produtos de inovação; cascas e sementes podem ser reutilizadas, abrindo um amplo espectro de possibilidades de uso na culinária, no artesanato”, lista o pesquisador.
Estamos na temporada do fruto euclidiano que já se avista nas feiras, nos supermercados e na cidade de Heliópolis.
“É a temporada!”, conta Evânio Oliveira, um dos moradores da cidade, que tem a sorte, durante sua caminhada matinal por algumas ruas, de se deparar com alguns umbuzeiros. “Ainda encontramos muitos por aqui, mas a quantidade que existia antigamente não tem mais”, conta.

E Charot nos brinda com uma deliciosa umbuzada, iguaria muito típica do ensolarado sertão baiano, que tem cheiro de infância, de prosas euclidianas, verão, férias e cidades interioranas. Vamos então comprar essa fruta de preço acessível que pode ser encontrada logo ali, na feira de São Joaquim. Aproveitem!
Umbuzada
Ingredientes:
2kg de umbu verde
1/2 litro de leite
Açúcar a gosto
Depois de lavar os umbus, coloque em uma panela com água fervente até cobri-los e leve ao fogo.
Depois de esfriar, amasse os frutos com a mão e retire os caroços.
Os umbus ficarão na consistência de uma massa. Bata no liquidificador junto com o leite e o açúcar.
Passe em uma peneira fina até virar um creme.
Sirva deliciosamente gelado.





























