Há 30 anos, centro financeiro de Salvador ‘migrava’ do Comércio para o Iguatemi

João Gabriel Galdea
Imagem feita nas proximidades do Detran, em 1993: ao fundo, o Viaduto Raul Seixas e o Shopping IguatemiImagem feita nas proximidades do Detran, em 1993: ao fundo, o Viaduto Raul Seixas e o Shopping Iguatemi (Foto: Marcelo Tinoco/Arquivo CORREIO)

Em 1993, região se consolidava como principal polo econômico da cidade; especialista já aponta nova migração em andamento

Não faz mais que 10 anos (ou será que faz?), costumava sextar em algum bar da Rua Minas Gerais, aquela espremida entre as avenidas Octavio Mangabeira (orla) e Manoel Dias da Silva, na Pituba. Tinha uma boa diversidade de opções, de caranguejo a mexicano, e até boates para calibrar mais e fechar melhor a noite. Mas, de uns anos pra cá, quase ninguém que conheço vai biritar por ali, e ao que parece o polo cachacístico deixou de existir. Ou será que mudou de lugar?

Ao que tudo indica, boa parte dos empresários que lá investia migrou para espaços como a Vila Jardim dos Namorados, na orla, inaugurada no final de 2018. E esse tipo de movimento já foi observado em escala ainda maior, em Salvador. Foi o caso da mudança de centro financeiro, como o registrado pelo Correio da Bahia há 30 anos. “Cidade ganha um novo centro financeiro” era o título da reportagem de 15 de janeiro de 1993, que traz como linha de apoio um dado revelador: “cresce cada vez mais o número de escritórios e consultórios no Iguatemi”.

Caderno Aqui Salvador da edição de 15 de janeiro de 1993 (Imagem: Arquivo CORREIO)

A reportagem explica o cenário da época, em perspectiva. “O centro financeiro de Salvador está mudando de endereço. Deixa aos poucos a área do Comércio, na Cidade Baixa, para se instalar em modernos prédios da Avenida Tancredo Neves, no Iguatemi. O bairro concentra hoje uma movimentação intensa de pedestres e veículos”, descreve a matéria, lembrando que a implantação da rodoviária e de um grande shopping, em 1975, foi o início desse processo.

“Tudo começou com o surgimento do Shopping Center Iguatemi, um dos primeiros da cidade, e do outro lado da pista, o Terminal Rodoviário. No local foram construídos prédios arrojados, sendo o primeiro a Casa do Comércio, e é onde o governador Antonio Carlos Magalhães despacha, num gabinete do Desenbanco. Mas nem só de negócios vive o bairro, que conta também com alguns condomínios residenciais luxuosos”, situa o texto.

A reportagem, que não está assinada, também lembra que a população optou por “se referir à área que vai do Profissional Center até a entrada da Avenida Magalhães Neto como sendo Iguatemi”, e reforça que “inúmeros escritórios e consultórios médicos” passaram a se concentrar na região.

“O Iguatemi ainda perde para o Comércio em número de agências bancárias. Mas com o surgimento do shopping, em 1975, o bairro angariou a maior concentração de lojas, desbancando o tradicional comércio da cidade que se limitava, até então, à Avenida Sete e Rua Chile. Se num passado recente o shopping foi motivador para o crescimento da área, até então desocupada, hoje é um ponto de apoio para a movimentação financeira do bairro. Sem falar que ao lado está um grande supermercado, o Hiper Paes Mendonça”, continua o texto, destacando também o grande número de terrenos ainda não ocupados.

Nova mudança a caminho
Como se vê, a mudança de centro financeiro foi um processo que durou quase duas décadas. Mas quais os fatores que mais influenciam um movimento como esse? Segundo o professor Daniel Rebouças, escritor e doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o mais preponderante tende a ser o fator político.

“Pegando a retomada econômica da capital, ou mesmo do Estado, a partir da década de 1950, todos os grandes planos de desenvolvimento – urbano, industrial e imobiliário – foram liderados pelo poder público”, diz o professor, destacando que a expansão em direção ao Iguatemi atendia mais a um “desafogamento e maior agilidade de circulação de produção industrial (CIA e depois Polo Petroquímico)”, diz Rebouças.

Ainda de acordo com o especialista, um novo movimento está em curso, com a Avenida Paralela caminhando de forma até mais rápida para se consolidar como principal centro de finanças da cidade. “Entendo na Paralela uma combinação histórica e urbana que, para  região do Iguatemi, ocorreu de forma mais traumática e demorada. Explico: o Iguatemi foi primeiro centro comercial e, depois, residencial (imobiliário). Na Paralela, entendo que essas duas dimensões já nascem juntas, imaginando uma rotina urbana na qual as pessoas evitam, o quanto pode, grandes deslocamentos. Então, acho que a tendência da Avenida Paralela é aglutinar mais essas funções, incluindo a financeira”, prevê.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *