Fracassa tentativa de diálogo sobre crise na Ucrânia

Falta de resultados no campo diplomático pressiona UE a aplicar sanções

Sean Gallup/Getty Images

Tropas da Rússia desembarcam na base aérea de Belbek, na Crimeia – Sean Gallup/Getty Images

Uma tentativa de trazer à mesa Rússia e Ucrânia para discutir a crise na Crimeia fracassou nesta quarta-feira. A proposta era promover um diálogo direto entre Moscou e Kiev, mas o chanceler russo Sergei Lavrov boicotou um encontro com o ministro das Relações Exteriores do governo interino ucraniano, Andriy Deshchytsia, que seria realizado em Paris. A Rússia não reconhece o governo que assumiu o país depois da deposição de Viktor Yanukovich, presidente que era próximo do Kremlin.

Se a ideia de colocar Moscou e Kiev frente a frente para uma conversa diplomática acabou frustrada, ao menos Lavrov discutiu a crise com representantes europeus e com o secretário de Estado americano, John Kerry, que encerrou o dia esforçando-se para ilustrar um cenário otimista. “Todas as partes concordaram hoje que é importante tentar decidir essas questões por meio do diálogo. Hoje iniciamos um processo que, ao longo dos próximos dias, esperamos, vai nos levar ao caminho da redução das tensões”.

Ao falar sobre o encontro entre os chanceleres russo e ucraniano, que não ocorreu, Kerry afirmou que “não tinha expectativas de que uma reunião desse tipo poderia ocorrer”. Acrescentou, no entanto, que algumas ideias novas para resolver a crise foram apresentadas e serão levadas para análise dos presidentes Barack Obama e Vladimir Putin. “Eu prefiro estar onde estamos hoje do que onde estávamos ontem”, finalizou.

Apesar do tom positivo da fala do secretário americano, Lavrov foi bem mais irônico ao responder se havia encontrado com seu homólogo ucraniano: “Quem é esse? Eu não vi ninguém”. Deschchytsia, da mesma forma, também foi direto ao responder por que a reunião não havia ocorrido: “Perguntem a Lavrov”, disse a jornalistas.

A ausência de resultados pela via do diálogo coloca mais pressão sobre os países da União Europeia para que recorram a medidas punitivas contra o Kremlin, principalmente porque a expectativa de que Moscou fizesse concessões simbólicas para tentar evitar sanções não se concretizou. Nesta quinta-feira, lideranças do bloco econômico vão se reunir em Bruxelas para avaliar sanções contra a Rússia que obriguem Putin a recuar da invasão na Crimeia.

No entanto, as sanções a serem discutidas são mais simbólicas do que substantivas, segundo oGuardian, que cita como exemplo o congelamento de negociações sobre a facilitação do trânsito de russos para a Europa – conversas que já estão interrompidas de forma não oficial. O impacto de medidas como esta seria muito mais a longo prazo do que imediato, apesar de a Rússia já ter ameaçado com retaliações. Fontes consultadas pelo jornal britânico em Bruxelas admitem que há poucos sinais de disposição da Rússia em buscar uma solução política. No entanto, a hipótese de uma proposta de último minuto do Kremlin não pode ser totalmente descartada como manobra para evitar sanções.

Soldado da força aérea ucraniana descansa sobre sacos de areia na base militar de Belbelk, na Ucrânia

Soldado da força aérea ucraniana descansa sobre sacos de areia na base militar de Belbelk, na Ucrânia – Viktor Drachev/AFP

​Nesta quarta, a UE anunciou uma oferta de 11 bilhões de euros em ajuda financeira à Ucrânia ao longo dos próximos dois anos. O bloco também afirmou ter congelado por um ano os ativos de dezoito funcionários ucranianos que estariam envolvidos no desvio de dinheiro público durante o governo de Yanukovich. As sanções também contêm disposições destinadas a facilitar a recuperação do dinheiro, informou o Conselho da UE. O próprio ex-presidente está entre os sancionados.

Em Washington, o Congresso prepara uma legislação que permita a Obama ter à disposição uma série de medidas punitivas, incluindo a não emissão de vistos e o congelamento de bens. Em um ponto mais extremo, os EUA poderiam impor restrições ao comércio com a Rússia, independentemente de decisões tomadas pela Europa.

Obama e o premiê britânico David Cameron conversaram por telefone nesta quarta sobre a crise. Um comunicado distribuído pela Casa Branca afirma que ambos consideraram “inaceitável” a violação da soberania da Ucrânia e afirmaram que a Rússia “já começou a pagar os custos por suas ações, como a redução da confiança dos investidores”. Cameron e Obama também discutiram formas de apoio para estabilizar a economia da Ucrânia.

Confrontos – Enquanto os diplomatas tentam encontrar uma saída para a crise, os conflitos seguem na Ucrânia. Nesta quarta, tropas russas controlaram parte de uma unidade de defesa em Yevpatoria, na costa oeste da Crimeia, mas não conseguiram dominar a central de comando, segundo o Ministério da Defesa ucraniano.

No norte da península, no istmo que liga a república autônoma ao restante do país, soldados russos usaram dez caminhões para bloquear o trânsito e passaram a checar documentos de quem deseja atravessar o local. Duas bandeiras russas foram colocadas na região, segundo oNew York Times.

Em Donetsk, no leste, onde a população de origem russa é maioria, manifestantes pró-Moscou exigindo mais autonomia de Kiev enfrentaram a polícia e invadiram um prédio da administração regional – foi a segunda ocupação da sede nesta semana. Confrontos entre as forças de segurança e os manifestantes resultaram em vários feridos.

Cronologia dos protestos na Ucrânia

O presidente ucraniano, Viktor Yanukovich (esq), ao lado do presidente do Parlamento Europeu, Martin SchulzA União Europeia (UE) não conseguiu convencer a Ucrânia a assinar um acordo selando sua aproximação com o Ocidente, em função da pressão de Moscou, o que constitui uma derrota para os europeus. No final da terceira cúpula da Parceria Oriental entre a UE e seis ex-repúblicas soviéticas – Ucrânia, Geórgia, Moldávia, Bielo-Rússia, Armênia e Azerbaijão – os resultados foram aquém do esperado. Somente Moldávia e Geórgia assinaram o acordo. O presidente ucraniano Viktor Yanukovich explicou que, antes de firmar um acordo, Kiev necessita “de um programa de ajuda financeira e econômica” da UE. “Não se pode, tal e como quer o presidente ucraniano, pedir que paguemos para que a Ucrânia entre nesta associação”, retrucou François Hollande, presidente da França. Saiba mais sobre por que UE e Rússia querem tanto a Ucrânia.

História: Ucrânia, um país com um histórico de tragédias

Fonte: Veja

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