A coleta foi viabilizada por uma metodologia própria do Instituto Phi, que forma e capacita moradores das favelas para atuarem como pesquisadores em suas próprias comunidades. Com margem de erro de 1,56 ponto percentual, a pesquisa oferece uma escuta inédita da base do crime, revelando o que leva essas pessoas a entrar, permanecer e o que poderia motivá-las a sair.
Os dados mostram que a entrada no crime está menos ligada ao desejo de poder ou prestígio e mais às condições materiais: 36% dos entrevistados ingressaram no tráfico para sustentar a família, enquanto 21% disseram não enxergar outra alternativa de renda. Apenas 5% citaram o reconhecimento social como motivador.
Apesar do risco constante, 52% recebem até R$ 3 mil por mês, e apenas 6% ultrapassam R$ 10 mil. Em muitos casos, os valores não cobrem nem os custos familiares básicos.
Questionados sobre o que os faria deixar o tráfico, 61% apontaram um emprego com salário equivalente ou superior ao atual. Outros 43% disseram que só sairiam com proteção física para si e seus familiares, dado que revela o alto risco envolvido na tentativa de ruptura. Além disso, 38% indicaram acesso à educação ou formação técnica como caminho para reconstruir a vida.
A pesquisa também desconstrói a tese da “família desestruturada” como causa central do ingresso no crime. Apenas 13% apontaram episódios de alcoolismo, uso de drogas ou violência doméstica como fatores de entrada no crime.
As mulheres representam 18% da amostra. Muitas ingressam por laços afetivos ou familiares e acumulam a função de chefia do lar. Nesses casos, a permanência no crime está ligada à falta de creche, de alternativas de renda e ausência de rede de apoio.
É claro que o combate ao consumo também precisa ser considerado, mas o estudo mostra que, embora o enfrentamento policial siga necessário, a repressão atinge apenas a superfície do problema. Por oferecer um retrato objetivo das engrenagens que sustentam o tráfico e das condições reais para enfrentá-lo de forma efetiva – basta observar a falta que uma creche faz -, o estudo do Data Favela merece atenção prioritária de gestores públicos e candidatos às eleições de 2026. Sua principal conclusão é que só políticas públicas bem estruturadas e sustentáveis têm o poder de desarticular a base econômica e social que mantém o crime organizado nas periferias.




























