Mulher presa após dizer ter 12 anos passou por abrigo para menores no Recife

Amanda Maria Souza de Oliveira foi acolhida em equipamentos do Recife em 2023. Devido a inconsistência, o caso chegou a parar na delegacia

Jorge Cosme

Amanda Maria Souza de Oliveira está presa preventivamente. (Foto: Reprodução)

A cearense Amanda Maria Souza de Oliveira, de 38 anos, que foi presa em Joinville-SC e virou ré por falsa identidade e estelionato após afirmar ter 12 anos, passou por abrigos do Recife, onde também declarou ser menor de idade. Segundo a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome (SAS) da Prefeitura do Recife, Amanda passou por dois abrigos e um Centro Pop da cidade em 2023.

Amanda foi atendida em julho de 2023 pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas), da capital, que atua em diversos bairros da cidade oferecendo acolhimento institucional, encaminhamentos para a rede de saúde, apoio para emissão de documentos e inclusão em programas e benefícios sociais para pessoas em situação de rua.

Na ocasião, ela aceitou ser acolhida e foi encaminhada ao Abrigo Noturno Irmã Dulce dos Pobres, no bairro de São José, área central do Recife.

A mulher se apresentou como Gabrielly Souza de Oliveira e informou ter 12 anos. Ela também disse se chamar Gabrielly em outros estados onde alegou ser criança.

Como o abrigo Irmã Dulce dos Pobres atende adultos, ela não poderia seguir no local. O Conselho Tutelar do Recife, então, foi acionado e fez o encaminhamento de Amanda para a Casa de Acolhida Raio de Luz, localizada no bairro da Madalena, Zona Oeste da capital, voltada para adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

“Durante o período de acolhimento, foram identificadas inconsistências nas informações prestadas”, declarou a Secretaria. O caso foi encaminhado à delegacia, onde foi registrado boletim de ocorrência. “Após os procedimentos cabíveis, ela foi liberada”, completa a pasta.

Retorno

Cerca de 10 dias depois, Amanda procurou o Centro POP José Pedro, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, solicitando acolhimento temporário. O equipamento atende homens e mulheres adultos em situação de vulnerabilidade social.

Inicialmente, ela foi atendida pela equipe de psicologia do equipamento e disse ter 18 anos, a idade mínima para ser acolhida no espaço.

Durante o atendimento, entretanto, ela chamou a atenção da equipe por apresentar voz infantilizada, trejeitos compatíveis com alguém mais jovem e comportamento que indicava possível ocultação de informações pessoais. “Embora afirmasse ter 18 anos, buscava transmitir a impressão de que era menor”, informa a SAS.

Devido às inconsistências, os profissionais fizeram verificações e identificaram que se tratava da mesma pessoa já atendida anteriormente pela rede socioassistencial. “Também foi constatado que as informações prestadas não correspondiam à realidade”, acrescenta a secretaria.

Após a confirmação da identidade, Amanda ainda permaneceu algumas horas no Centro Pop, mas deixou o local por iniciativa própria, sendo este o último contato registrado pela Prefeitura do Recife.

Teatro

“Chamava a atenção o comportamento muito pueril, muito infantilizado dela. Na época, ela ficava com um ursinho debaixo do braço”, conta uma psicóloga que trabalhava na rede de assistência do Recife à época e atendeu a mulher. A psicóloga não quis se identificar.

“O que também chamou a atenção é que ela era muito escorregadia na questão de documentação”, lembra a profissional. “Demonstrava uma irritabilidade quando a gente falava em encaminhar para retirar documentação”.

A psicóloga conta que a equipe não acreditou que a mulher tinha 12 anos, inclusive tendo dúvidas se ela seria de menor.

“Parecia um esforço muito grande nesse comportamento, não era algo muito genuíno ou natural. A gente percebia que tinha um teatro ali, mas a gente também ventilou haver uma questão de transtorno, de um déficit cognitivo também”, diz.

Apesar da desconfiança, a mulher precisou ser transferida já que reiteradamente dizia ser menor de idade.

Amanda viveu cerca de 14 meses como filha adotiva em uma casa em Joinville-SC. Ela foi presa em 2 de junho na residência em que estava morando e teria confessado integralmente à polícia a autoria dos fatos. Diligências apontam que ela agiu da mesma forma nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás e Ceará.

Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, para sustentar o disfarce e ganhar confiança da família, ela alegava falsamente ser portadora de autismo e outras condições clínicas.

“Ela justificava sua aparência física adulta argumentando que seus traços eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância”, informou a polícia. Segundo a instituição, Amanda mantinha comportamentos infantilizados, como utilização de chupetas, mamadeiras e objetos lúdicos, para reforçar o papel de criança.

O delegado do caso, Rodrigo Bueno Gusso, afirmou que a suspeita chegou à família depois de procurar uma igreja e dizer ao pastor que havia fugido do Pará por sofrer maus-tratos. A comunidade religiosa passou a ajudá-la financeiramente e conseguiu uma casa.

“A menina não ia para a escola porque conseguiu convencer a família adotiva de que, se fosse para a escola, o ‘pai abusador’ saberia onde ela está”, disse o delegado.

A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) contra Amanda na terça-feira (9), tornando a mulher ré por estelionato e falsa identidade. Ela está presa preventivamente e deve passar por exame de sanidade mental.

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