Solidão acolhida
Carinhosamente chamada por todos de dona Regina, Josefa Regina da Conceição Peterson, 63, vive no peculiar apartamento de número 1614. “Você precisa que eu soletre o meu sobrenome, querida? Ele é chique, né? É importado. Arrumei nos States”, explica, numa gargalhada. “Morei dez anos na América, minha filha. Morei oito meses de aluguel aqui no 827. Arrumei um gringo, casei e fui morar lá. Voltei porque estava com saudades e porque me divorciei. Não queria ficar naquele país sozinha. Voltei para o que é meu.”
Com problemas cardíacos, hipertensa e diabética, dona Regina explica que não tem parentes e não consegue ver futuro fora do Holiday. Quanto ao passado, a memória é falha e ela não consegue explicar bem. “Eu tenho a escritura escondida, porque aqui tem muita gente esperta.” Abre um armário marrom, de duas portas, que fica colado com a geladeira vazia. “Comprei esse kitnet em 1973. Quanto de tempo isso é? Também não sei quanto que paguei, veja aí”, pede, me mostrando o documento que indica o valor de R$ 9.754. “Mas na reportagem coloque R$ 10 mil ou mais, que é pra dar uma valorizada”, explode em uma gargalhada.
O kitnet de dona Regina estava bagunçado, indicando as dificuldades que ela enfrenta ao morar sozinha diante de todas as suas limitações de saúde. Logo na entrada, acima do sofá de couro sintético laranja, um lenço estampado com uma onça fica estendido na parede, assumindo a função de um quadro. Flutuando à frente, um balão feito de metal está enfeitado com laços de fita. Do lado de direito, uma cortina de conchas separa o banheiro do corredor, repleto de bugigangas coloridas e distribuídas em desordem. O corredor leva até o quarto que também é cozinha. No meio de tudo isso, muitos artigos de decoração. Na estante do cômodo estão pendurados sete óculos. “Na verdade são oito. Tem um perdido por aqui”, brinca. O bom humor de dona Regina é invejável em meio ao caos pelo qual passa o Holiday.
Ela é aposentada. Trabalhava de recepcionista no aeroporto de Brasília onde, segundo conta, se acidentou. “Passei 30 dias desmaiada. Tenho uma cicatriz enorme da perna.” Perguntada como veio parar no Recife e conseguiu comprar o apartamento, ela é taxativa. “Com dinheiro, óbvio”, e ri. No momento em que terminava de contar sua história, uma equipe da assistência social e da saúde da Prefeitura do Recife chegou ao apartamento a pedido de uma vizinha, a fim de avaliar a situação de dona Regina, que será levada para um abrigo. “Eu acho que tem coisa por trás dessa decisão, mas estão dizendo que querem ajudar, que é temporário. Já que é temporário eu vou, mas vou deixar minhas coisas para quando eu voltar, né?”, questiona, esperançosa.
Assim como ela, outros moradores solitários foram acolhidos pelo Edifício Holiday, a exemplo de José Antônio Filho, de 77 anos, único morador do 1723. “Eu estava enterrando minha mãe em Natal. Quando cheguei, dei de cara com essa notícia de interdição”, revela. Ele mora no prédio há 36 anos, assim que chegou na capital pernambucana vindo da capital do Rio Grande do Norte. Já ocupou os apartamentos 1519 e 1616. “Eu fui subindo. Aqui em cima é mais tranquilo.
Trabalhei por 23 anos na Compesa e quando me aposentei investi todo o meu dinheiro, de uma vida inteira, nesse kitnet. Paguei R$ 30 mil, há dois anos. Mas vale. Olhe essa vista.” A janela de José fica exatamente entre um vão formado por dois arranha-céus localizados à beira mar de Boa Viagem. “Eu vejo o mar todo dia. Veja se não é de partir o coração deixar isso para trás. Eu vou ficar até o fim, minha filha. Não vou abrir mão disso, não”, lamenta.
José não se diz preocupado em relação ao seu futuro. “Tenho uma filha em João Pessoa. É a pessoa mais próxima, mas não quero ir pra lá. Vou ver se vou para algum abrigo da Prefeitura, para poder voltar depois”, planeja. “Olhe, cada um que tente culpar alguém. Eu só sei que tenho as contas todas pagas. Por que cortaram a minha luz, se não devo?” De acordo com a Celpe, houve um problema na rede elétrica do prédio, que ficou sem energia no dia 06 de março. Os moradores relatam que o problema foi provocado pela Companhia, para que fosse realizada a suspensão no fornecimento. Desde então, José se viu obrigado a refazer a rotina. “Eu só desço uma vez por dia, quando desço. São 17 andares, muita coisa. À noite, quando abro a janela, tudo fica claro. Aproveito as luzes dos outros prédios e da lua. Também tenho uma lanterna, mas funciona com bateria, então não pega”, conta, enquanto passa um pente pequeno e amarelo nos cabelos grisalhos, se preparando para a foto. “Vão ter que me tirar daqui à força”, diz para si mesmo, de frente para um espelho pequeno em cima da cômoda.
José conta que ficou muito triste com a situação, mas que a indignação poderia ser pior, como a que ele sente pela situação do vizinho Inaldo Teixeira, de 49 anos. Ele comprou o apartamento também por R$ 30 mil, há apenas oito meses. “E ainda fiz duas reformas. Eu tenho outra casa, tenho para aonde ir. Mas gosto de morar aqui. Vivo nesse edifício há seis anos e nunca vi uma situação de violência. Não é puxando sardinha para o Holiday, mas é que eu nunca vi nada como isso aqui”, ressalta. Ele é pescador e não pensa em se afastar do mar. “Não sei ainda o que fazer, mas vou tentar vender, reaver parte desse dinheiro. Tem construtora interessada”, contou. “O prédio precisa de manutenção, mas não é isso que falam. A estrutura é boa. Mais fácil cair esses novos que tem por aí. Você tem que ver os apartamentos reformados. Vá lá no 10º. Tem um que nem parece que é do Holiday. Olhando para a porta, fica para o lado esquerdo.”