Autora de ensaio: Prostituta hermafrodita é ‘feliz por ser como é’

 

O ensaio foi batizado apropriadamente de “La Vie en Rose”. Nele, a fotógrafa francesa Malika Gaudin-Delrieu mostra a rotina da hermafrodita Claudette, que também é marido, pai de três filhos, avô, competidor de ciclismo e prostituta na Suíça. Durante dois anos, Malika conviveu com Claudette, que, segundo o relato da francesa, é “feliz sendo exatamente como é”.

Claudette deixou que Malika entrasse no seu mundo. A fotógrafa passou a acompanhar a rotina no lar da hermafrodita e de sua mulher, Andreé, no trabalho, com seus clientes, ou em um simples dia de compras de lingeries. Em entrevista exclusiva ao PAGE NOT FOUND, Malika contou sobre suas impressões e aprendizados proporcionados pelo ensaio e pelo contato com o mundo da prostituição (Clique aqui para ver mais imagens)

PAGE NOT FOUND:  Você disse que o ensaio oferece um ponto de vista diferente sobre um assunto que geralmente é tratado de forma clichê. O que faz o seu documentário diferente?

MALIKA GAUDIN-DELRIEU: Geralmente, quando se fala em trabalhos sobre sexo a maioria retrata o tráfico sexual, que é apenas um aspecto desse assunto, mas não toda a questão. Existe também a crença de que ser uma prostituta, mesmo que por escolha, seja resultado de um trauma ou de algum problema. Em muitos casos, isso não é verdade e a voz dessas pessoas tem sido calada porque desafia ideias pré-concebidas. Neste documentário eu conheci alguém que foi contra todas essas crenças. Eu quis permitir que ela tivesse condições de contar sua história, de mostrar que é possível ser uma profissional do sexo sem ser definida a partir de sua profissão. Espero que esse documentário mostre para as pessoas que há tanta diversidade nesta profissão quanto em qualquer outra.

PNF: Claudette teve dificuldade ou ficou tímida para falar com você sobre a vida dela? O que mais chamou atenção nela?

MALIKA: Ela não é nada tímida. Nós nos conhecemos quando eu estava morando na Suíça por alguns meses. Naquela época, eu estava interessada no fato de a prostituição ser legalizada naquele país e ser ilegal na França. Eu queria entender a diferença na legislação, entrei em contato com uma associação que defende os direitos dos profissionais do sexo e passei a conduzir um projeto com eles. Claudette trabalhava nessa associação, foi onde nos conhecemos. Rapidamente eu entendi que haveria tantas histórias sobre prostituição quanto o número de pessoas que trabalham naquilo. Então, eu decidi focar em apenas uma história. Claudette e eu nos demos muito bem e ela entendeu o que eu estava tentando fazer. Ela percebeu que aquelas fotos retratariam verdadeiramente o que a vida dela é. Foi a partir daí que ela passou a se comprometer completamente com o projeto.

PNF:  Como vocês ficaram próximas?

MALIKA: Nós ficamos bastante tempo juntas. O projeto começou dois anos atrás e esse foi o tempo necessário para que a nossa intimidade se estreitasse o suficiente para que eu fizesse as fotos que queria fazer.

PNF: Na sua opinião, como “La Vie en Rose” pode transformar a vida de Claudette?

MALIKA: Claudette se tornou uma figura pública na Suíça agora. Ela é uma das poucas pessoas que tem lutado pelos direitos dos profissionais do sexo usando o nome real e se assumindo como tal. Ela se tornou uma porta-voz da comunidade e tem recebido muita atenção neste sentido. Eu acho que esse projeto pode dar mais visibilidade para a causa, e mostrar que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, ela é uma pessoa realizada, com o seu trabalho e com o seu gênero. Eu espero que Claudette possa ver o impacto positivo que ela tem sobre as pessoas por ser a personificação do quanto se pode ser feliz sendo verdadeiramente o que se é.

PNF: Claudette foi a pessoa mais interessante que você já fotografou?

MALIKA: Eu tenho tido muita sorte para encontrar e escolher os assuntos dos meus documentários, e também para conhecer pessoas interessantes. Claudette, no entanto, foi uma pessoa única e provavelmente a que passou mais tempo comigo.

PNF: O que mais você encontrou quando estava pesquisando sobre tráfico sexual na Suíça?

MALIKA: Eu descobri que a legislação suíça tornou o ambiente de trabalho mais seguro para os profissionais do sexo. De muitas maneiras, as leis francesas são hipócritas e fingem proteger as garotas. A legislação francesa faz com que essas mulheres procurem cada vez mais “viver nas sombras” e permite que os cafetões sejam mais poderosos. As garotas que querem trabalhar com sexo na França não podem fazer isso com segurança e as que são obrigadas a essa condição não têm acesso a lugares onde possam denunciar seus carrascos. Na Suíça, eu descobri que as leis foram feitas para que os profissionais do sexo possam trabalhar com liberdade, tenham acesso a lugares seguros e, mais ainda, sejam respeitados.

PNF: O que você sentiu sobre a relação de Claudette com a esposa dela, Andreé?

MALIKA: Eu senti como se fosse um casamento muito normal. Porque tudo o que parece fora do comum é vivido por elas de uma maneira muito natural. Você acaba se esquecendo do primeiro momento de surpresa e, de repente, você se vê como testemunha de uma família normal. Foi um privilégio poder conhecer Andrée. Ela é uma pessoa incrível, muito doce e cuidadosa. Elas formam um casal muito bonito, além de serem belos pais.

PNF: O que mais a surpreendeu no mercado do sexo?

MALIKA: Eu descobri que as mulheres que eu conheci estão longe de serem vítimas. A maioria entrou na prostitução porque tinha problemas com dinheiro e escolhas limitadas. Muitas escolheram entre se prostituir ou viver recebendo auxílios do governo. Elas foram muito fortes sobre essa decisão e agora controlam suas vidas. Eu também conheci os clientes delas e conversei com eles. Descobri caras normais, muitos eram sozinhos e tímidos. A maioria deles não era formada por homens pervertidos e nem estava interessada em tirar proveito das garotas.

PNF: Qual foi a cena que mais a marcou nesse trabalho?

MALIKA: Uma entrevista com um cliente, na qual ele me contou que procurava prostitutas porque não queria machucar as mulheres. Ele me disse que conheceu muitos homens que iam a bares para ficar com uma mulher e mentiam para elas. Muitos diziam que eram médicos, banqueiros ou coisas assim apenas para levá-las para cama. Depois, eles iam embora e nunca mais procuravam por aquelas mulheres. Para ele, tudo aquilo era muito desonesto e ele sentia que não poderia fazer isso com ninguém. Como ele não queria um relacionamento, ele ia atrás de prostitutas. Dessa forma, ele sabia que não ia estar magoando ninguém. Todo mundo sabe o porquê de ele estar ali, assim ninguém se sente traído ou enganado. Isso me pareceu um argumento, muito, muito bom.

 

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