Caixão da ‘Princesa de Bagicz’, que viveu na era romana, tem idade reavaliada

Novo estudo utilizou a dendrocronologia, técnica que analisa os anéis de crescimento das árvores, para reavaliar idade do caixão

Giovanna Gomes

O caixão de madeira da Princesa de Bagicz – Crédito: Domínio público

Em 1898, um sepultamento acabou deslizando de um penhasco costeiro próximo a Bagicz, no noroeste da Polônia, após anos de erosão causada por ventos e ondas que fazem a linha da falésia recuar até um metro por ano. O desmoronamento revelou um caixão oco feito de troncos de carvalho, datado da Idade do Ferro romana, com o esqueleto de uma jovem em seu interior.

Arqueólogos relacionaram o túmulo à cultura Wielbark, ativa entre os séculos 1 e 4 d.C., cujos integrantes costumavam enterrar seus mortos em caixões ou estruturas de madeira revestidas por gravetos. Como a madeira raramente se preserva nos solos arenosos da Pomerânia, o achado é considerado o único exemplar bem conservado desse tipo na região.

De acordo com informações do portal Archaeology News, a jovem foi sepultada com objetos pessoais, entre eles uma fíbula de bronze, um alfinete, duas pulseiras do mesmo metal e um colar composto por contas de vidro e âmbar. Relatos antigos também mencionavam um pequeno banco de madeira e uma pele de gado, itens que não resistiram ao tempo. Por parecer um enterro isolado e relativamente rico em ornamentos, pesquisadores chegaram a descrevê-la como uma “princesa“, hipótese revista depois que escavações identificaram um cemitério mais amplo nas proximidades.

Determinar a data exata do sepultamento, porém, revelou-se um desafio. Na década de 1980, análises tipológicas dos objetos funerários situaram o enterro entre aproximadamente 110 e 160 d.C. Já em 2018, testes de radiocarbono realizados em um dos dentes indicaram uma cronologia muito mais antiga, entre 113 a.C. e 65 d.C., criando uma discrepância de quase um século.

O que diz novo estudo

Um estudo recente publicado na revista científica Archaeometry voltou a investigar o caso utilizando dendrocronologia, técnica que analisa os anéis de crescimento das árvores. Ao comparar os padrões do carvalho do caixão com cronologias já estabelecidas, os pesquisadores concluíram que a árvore foi derrubada por volta de 120 d.C., com margem de erro de sete a oito anos. O resultado coincide com a estimativa arqueológica inicial e sugere que a datação por radiocarbono havia sido distorcida.

Para explicar o desvio, a equipe examinou a dieta da mulher por meio da análise de isótopos estáveis em seus ossos. Os dados indicaram alto consumo de proteína animal, especialmente peixes de água doce. Esses peixes podem incorporar carbono mais antigo dissolvido de rochas calcárias presentes nos rios e lagos; quando consumidos por humanos, esse carbono “antigo” altera os resultados do radiocarbono, fazendo os restos parecerem mais velhos do que realmente são.

O ambiente local pode ter intensificado essa distorção. A água da região é considerada moderadamente dura, condição que favorece a incorporação de carbono geológico por organismos aquáticos e, consequentemente, afeta toda a cadeia alimentar.

Os pesquisadores também recorreram à análise de isótopos de estrôncio para investigar a origem geográfica da mulher. Os valores obtidos lembram aqueles registrados em áreas da Escandinávia, incluindo a ilha de Öland. No entanto, depósitos glaciais presentes na própria Pomerânia produzem assinaturas químicas semelhantes, o que dificulta distinguir entre indivíduos locais e possíveis migrantes apenas com esse método.

Ao combinar arqueologia tradicional, radiocarbono, estudos isotópicos e datação por anéis de árvores, os cientistas conseguiram esclarecer a cronologia do sepultamento: o caixão de carvalho pertence, na verdade, ao início do século 2 d.C.

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