Carlos Lamarca: a vida do ‘Che Guevara brasileiro’ em 5 curiosidades

Há 54 anos, o lendário guerrilheiro brasileiro Carlos Lamarca foi executado; conheça a vida do “Che Guevara brasileiro” em 5 curiosidades!

Carlos Lamarca quando ainda era capitão do exército / Crédito: Arquivo Nacional

Nesta quarta-feira, 17 de setembro, marca-se os exatos 54 anos da morte de um emblemático militar desertor e guerrilheiro brasileiro, que foi um dos líderes da luta armada contra a ditadura militarCarlos Lamarca. Ele foi executado com sete tiros por agentes da repressão da ditadura, mas ficou eternizado na história nacional como um verdadeiro símbolo de luta, ficando conhecido inclusive como “Che Guevara brasileiro“.

Apesar da jornada memorável, a figura de Lamarca e suas ações durante a ditadura até hoje são motivo de controvérsias, sendo ele, um ícone da esquerda revolucionária brasileira, visto como herói por uns, e como vilão por outros.

Confira a seguir a vida de Carlos Lamarca e seu legado na história nacional em 5 curiosidades:

Cartaz de procurados da época da ditadura militar, com a foto de Lamarca em destaque / Crédito: Reprodução

1. Ingressão militar

Nascido no Rio de Janeiro em 23 de outubro de 1937, Carlos Lamarca ingressou na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, com apenas 18 anos, e dois anos depois foi transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. Ele se tornou oficial do exército, e era reconhecido principalmente por suas capacidades como atirador.

No início da década de 1960, ele estava atuando no 4º Regimento de Infantaria, em Osasco, São Paulo, com uma carreira aparentemente promissora. Ele também integrou o Batalhão Suez, nas Forças de Paz da ONU, atuando no Oriente Médio; e, ao retornar ao Brasil, começou a servir na 6ª Companhia de Polícia do Exército de Porto Alegre, quando, em 1964, os militares deram o golpe.

Embora fosse militar, ele apoiou o governador Leonel Brizola em um ato contra a tomada de poder pelos militares, e não apoiava o novo regime que se instaurava. Ainda assim, permaneceu nas Forças Armadas por mais algum tempo e, em 1967, foi promovido a capitão. Porém, também foi nesse momento que teve seu primeiro contato com obras de revolucionários comunistas, como Vladimir Lenin e Mao Tsé-Tung, o que mudaria completamente os rumos de sua vida.


2. Vanguarda Popular Revolucionária

Após conhecer outros revolucionários comunistas, e observando o próprio cenário político conturbado que se instaurava aqui no Brasil, Lamarca logo começou a organizar e manter contato com líderes de resistência da luta armada. Em 1968, ele já tinha certeza que a ditadura deveria ser derrubada, e substituída por um governo socialista.

Por isso, dentro do Exército, Lamarca costumava pegar armamento para repassar aos guerrilheiros. No entanto, ele logo abandonou as forças armadas: com a instauração do AI-5, que permitia até mesmo a violação de direitos humanos, ele se viu na necessidade de desertar do exército; mas, antes, precisava assegurar um esconderijo seguro para a família.

Foi então que ele se encontrou com outro importante líder guerrilheiro da época, Carlos Marighella, que conseguiu enviar sua esposa, Maria Pavan, e seus filhos Cláudia e César para Cuba. Feito isso, Carlos Lamarca abandonou o exército e se juntou à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) em janeiro de 1969, se tornando, assim, mais um “inimigo” — como descreviam os militares — da nação.


3. “Che Guevara brasileiro”

Fotografias de Che Guevara e Carlos Lamarca / Crédito: Domínio Público / Secretaria de Direitos Humanos

Como guerrilheiro e afastado de sua família, Lamarca passou a viver em várias bases temporárias em São Paulo — algumas chamadas de “aparelhos”, que eram casas de militares —, e na clandestinidade. Sua rotina era “acordar, comer, fumar, beber café, estudar, ler livros sobre Marxismo para aumentar seu conhecimento teórico e dormir”, segundo Elio Gaspari, autor de ‘A Ditadura Escancarada’.

Ainda no início da carreira como guerrilheiro, ele conheceu Iara Iavelberg, do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), que foi sua amante nos anos que se seguiram. No tempo que se seguiu, enfrentou a dolorosa guerra contra a ditadura, sofrendo com a morte de Marighella em 1969, e precisando fugir constantemente dos militares. Inclusive, ele se submeteu a uma cirurgia plástica no nariz para dificultar seu reconhecimento, e até enganou bloqueios militares, fugindo disfarçado com o uniforme de soltados. Nesse momento, ficou conhecido por muitos como “Che Guevara brasileiro”.

Em uma carta à esposa, ele contou sobre a vida na guerrilha: “Invejo vocês que aí estão, mas meu lugar é aqui. Falam no meu nome com extraordinária esperança. O nosso povo já foi traído por seus falsos líderes e, embora eu não tenha esta pretensão, sou uma esperança para o povo. A nossa Organização transformará esta esperança em realidade e não eu. O Che dizia ‘Não há libertadores, os povos libertam-se por si mesmos’. A organização, como vanguarda desse povo, vai fazer com que o povo se liberte, custe o que custar”.


4. Associado a Rubens Paiva?

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro — que já chamou atenção em várias ocasiões por ser um defensor da ditadura militar e crítico de Lamarca —, que viveu parte de sua adolescência na cidade de Eldorado, no interior de São Paulo, já disse que ajudou militares a procurarem Lamarca na mata da região. No entanto, essa informação já foi desmentida por um antigo companheiro do guerrilheiro; além de que, na época, ele nunca se baseou em Eldorado — mas sim em uma cidade localizada a cerca de 25 quilômetros de lá, Jacupiranga.

Bolsonaro também associou diretamente Lamarca ao deputado Rubens Paiva, cuja história inspirou o filme ‘Ainda Estou Aqui’. Ele disse que Lamarca se estabeleceu com sua guerrilha na Fazenda Caraitá, que pertencia a Jaime Paiva, pai de Rubens (mas que era apoiador da ditadura); porém, na verdade, a base de Lamarca ficava em uma área de mata fechada chamada de Capelinha, e não há qualquer comprovação de que Lamarca e Rubens Paiva tenham sequer se conhecido.


5. Morte

Após se envolver em uma série de assaltos a bancos, lutas armadas e treinamento de jovens guerrilheiros, o governo militar travou uma dura caçada contra Carlos Lamarca em 1970, com o único objetivo de exterminá-lo a qualquer custo. Essa missão de extermínio foi chamada de Operação Pajussara, e em várias ocasiões quase pegou Lamarca, que conseguiu escapar por algum tempo.

Em 1971, quando integrava o MR-8, Lamarca foi enviado para o sertão da Bahia em uma nova unidade de guerrilha e, nessa época, militares realizaram uma intensa caçada de 40 dias atrás dele, que levou também à prisão e morte de vários outros guerrilheiros que o apoiavam, e à ocupação da cidade de Buritis, com tortura e assassinatos públicos visando a atenção do líder de guerrilha.

No entanto, no dia 17 de setembro daquele ano, Lamarca enfrentou a tragédia que colocou fim à sua vida. Após mais de 20 dias de fuga pela caatinga ao lado de José Campos Barreto, mais conhecido como Zequinha, já doente, a dupla parou para descansar em certa ocasião, pensando estar com certa vantagem com relação aos militares. Mas, pouco depois, enquanto dormiam, eles foram surpreendidos por oficiais e foram fuzilados no mesmo local.

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