Casarão onde viveu Clarice Lispector pode começar a ser reformado em 2016

Sobrado colonial com vista privilegiada para a Praça Maciel Pinheiro está fechado há quatro anos

Anamaria Nascimento

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Imóvel onde a escritora morou durante a infância tem três pavimentos
O sobrado colonial onde viveu a escritora Clarice Lispector durante a infância pode começar a ser reformado no próximo ano. O imóvel, que ocupa a esquina da Rua do Aragão com a Travessa do Veras, no bairro da Boa Vista, deve ser transformado em um espaço cultural dedicado à memória da família Lispector e à obra da ilustre moradora. O primeiro passo da reforma deve ser a recuperação do telhado, que ruiu. A troca do teto está orçada em R$ 250 mil.

O casarão, com vista privilegiada para a Praça Maciel Pinheiro, está fechado há quatro anos, e a Santa Casa de Misericórdia – proprietária do imóvel – alega estar tendo prejuízo, pois a casa tem sido alvo frequente de depredação. “Fomos procurados pela sobrinha-neta de Clarice (a cineasta Nicole Agranti), que queria transformar a casa num memorial da família. Desocupamos o imóvel, que era alugado, para que ela pudesse captar os recursos necessários”, explicou a diretora da Santa Casa Rilane Dueire.

Como Nicole não conseguiu verba para tirar o projeto do papel, a Santa Casa assumiu a responsabilidade pela requalificação da casa. Agora, a entidade procura parcerias e recursos públicos para iniciar a transformação do sobrado. Rilane disse que procurou a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) para conseguir verba para o projeto, que está sendo finalizado. O órgão estadual informou que, por enquanto, não vai se posicionar sobre o assunto.

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Depois de ter sido alvo de depredação, casarão foi fechado pela Santa Casa de Misericórdia
Se não conseguir recursos com a Fundarpe, a Santa Casa vai submeter, em 2016, o projeto ao Fundo Nacional de Cultura (FNC), mecanismo da Lei Rouanet, do governo federal, que destina recursos à execução de programas, projetos ou ações culturais. “O poder público já devia ter se interessado em transformar a casa em um espaço cultural, pois a passagem de Clarice pelo Recife foi fundamental em sua obra”, afirmou a escritora e pesquisadora da obra de Lispector, Georgia Alves.

Segundo o professor do curso de Letras da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Robson Teles, o Recife aparece em 15 a 20% dos contos e crônicas da escritora. “Embora Clarice tenha produzido muito no Rio de Janeiro, ela não esqueceu o Recife. A cidade tem uma grande importância simbólica em sua vida e obra”, destacou.

Praça também precisa de reparos


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Lixo, piso desnivelado e fonte desativada na Praça Maciel Pinheiro

A situação atual da Praça Maciel Pinheiro, em frente ao imóvel, reflete a decadência de uma área que já foi um dos principais pontos de convivência do Recife no século passado. Reduto dos judeus imigrantes que chegavam à capital pernambucana, a praça hoje está entregue ao lixo e à falta de manutenção.

A fonte de pedra contendo leões, máscaras, ninfas e uma índia está desativada. Esgoto a céu aberto ronda a praça. O piso está desnivelado e é fácil encontrar lixo no espaço público. Cascas de frutas, caixas, embalagens e até absorventes usados são descartados entre os bancos. “É triste ver uma praça tão bonita servindo de lixão”, disse a veterinária Maria Barbosa, 36, ao passar pelo local.

A Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) informou que enviará uma equipe para verificar a situação da Maciel Pinheiro. “O órgão esclarece que a praça foi requalificada pela gestão municipal em março de 2013. Na ocasião, foram recuperados os jardins, a fonte e a iluminação do local e o custo da obra foi de R$ 30 mil. A área, contudo, sofre com ações de depredação recorrentes, o que prejudica a boa conservação do espaço. A fonte, por exemplo, precisou ser desativada por conta da má utilização”, respondeu por nota.

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A Maciel Pinheiro era reduto dos judeus imigrantes no século passado

A historiadora, antropóloga e presidente do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Tânia Kaufman, afirmou que o abandono da praça entristece a comunidade judaica do estado. “A Maciel Pinheiro era um ponto de encontro que reunia tanto mães com suas crianças como ambulantes judeus que, ao fim do expediente, se encontravam para trocar ideias”, contou. “Ela permanece na memória dos judeus quase como um local sagrado e há um sentimento de tristeza com o desprezo da praça pelo poder público”, completou.

Saiba Mais:

Clarice Lispector

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1920 – Nasce em Tchetchelnik, na Ucrânia. Recebe o nome de batismo de Haia

1922 – Chegada em Maceió da família Lispector

1925 – Família Lispector se transfere para o Recife

1928 – Clarice passa a frequentar o Grupo Escolar João Barbalho

1935 – Mudança para a cidade do Rio de Janeiro

1942 – Começa a trabalhar como repórter no jornal A Noite

1943 – Naturaliza-se brasileira e publica o primeiro livro, Perto do coração selvagem

1952 – Assume a página Entre Mulheres do jornal Comício, sob o pseudônimo de Tereza Quadros

1967 – Torna-se cronista do Jornal do Brasil e publica seu primeiro livro infantil, O mistério do coelho pensante

1977 – Em 9 de dezembro, morre de câncer, às vésperas de completar 57 anos

Praça Maciel Pinheiro

Inaugurada em 7 de setembro de 1876

Construída em comemoração à vitória das tropas brasileiras na guerra do Paraguai (1864-1870)

Quando foi inaugurada, a praça apresentava um grande chafariz. O jardim era cercado por grades de ferro

Lampiões antigos que iluminavam todo o ambiente e havia muitos bancos de madeira

A fonte de pedra contém leões, máscaras, ninfas e uma índia

Antes da Segunda Guerra Mundial, com as perseguições contra os judeus, ocorre uma grande migração para Pernambuco

A Praça Maciel Pinheiro se torna o reduto da colônia judaica do estado

Era ponto de encontros e debates entre imigrantes e pernambucanos que moravam nos arredores

Trechos da biografia Clarice, (2009), de Benjamin Moser

Clarice Lispector, escritora
“Meses antes de morrer, Clarice Lispector fez sua última viagem ao Recife, para dar uma palestra na universidade. Ela insistiu em se hospedar no Hotel São Domingos, na esquina da praça Maciel Pinheiro, onde ficava o velho banco judaico.”

“Passou horas na janela olhando para a pracinha onde crescera. Para a pequena Clarice, conforme ela lembrou numa entrevista, aquele jardinzinho, onde os motoristas de táxi flertavam com as empregadas domésticas, parecia uma floresta, um mundo onde ela escondera coisas que nunca mais conseguiu recuperar.”

“Depois de todos aqueles anos, só a cor da casa tinha mudado: ‘Minha lembrança é a de olhar pela varanda da praça Maciel Pinheiro, em Recife, e ter medo de cair: achei tudo alto demais […] Era pintada de cor-de-rosa. Uma cor acaba? Se desvanece no ar, meu Deus.’”

Fontes: Site oficial Clarice Lispector, Fundação Joaquim Nabuco e Livro Clarice

Com informações do DP

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