Ciro Gomes está com fixação com o meio e no meio de quê? Qual o meio que procura?

Ciro ataca e desqualifica as pessoas, e não as ideias que representam. E faz isso porque fica mais fácil transitar na posição política de um lado ao outro

Ciro Gomes está com fixação com o meio e no meio de quê? Qual o meio que procura?

Por Francisco Celso Calmon

Ciro é um extravagante com as palavras, é um frasista, nem sempre feliz, perde o aliado mas não a frase, demonstra mais satisfação com a frase do que com o efeito e a consequência de seu verbo e ato. Mais apego às palavras do que a verdade dos fatos.

“Eu quero me voluntariar para formar um grupo, com juristas nos assessorando, que se a gente entender que o Lula pode ser vítima de uma prisão arbitrária, a gente vai lá e sequestra ele e entrega ele numa embaixada. Isso eu topo fazer”, declarou em vídeo, quando Lula estava prestes a ser preso.

“Lula é um encantador de serpentes. A presunção dele é que as pessoas são ignorantes e que pode, usando fetiches, intrigas e a absoluta falta de escrúpulos que o caracteriza, navegar nisso”. Declarou logo após Lula sair da cadeia.

Lula na prisão ou na embaixada agrada àqueles que o querem fora da política ou pelo menos fora da disputa e interferência eleitoral.

Mais aspas para Ciro Gomes, o político que se acha mais inteligente que todos os demais, sem modéstia.

Quem criou esse monstro Eduardo Cunha foi Lula”

“O Bolsonarismo e o petismo se sustentam”

“Ou você acha que o Bolsonaro se elegeria sem o que o PT fez? O Bolsonaro nunca foi o candidato da direita brasileira. O Bolsonaro foi engolido pela direita brasileira porque era o cara que foi identificado pelo nosso sofrido povo como o mais tosco intérprete do antipetismo que era a força dominante”. 

O raciocínio cartesiano serve para fazer coro com a direita e responsabilizar Lula e o PT por tudo que não presta.

É evidente que o PT e os governos encabeçados por ele mudaram a realidade socioeconômica do país em favor das classes desfavorecidas e afirmara a soberania e o protagonismo do Brasil no cenário internacional. A continuidade dessa política era temida pela classe oligárquica que domina o país desde sempre. Aonde iria dar? – indagavam suas lideranças.

Apesar dos erros cometidos por priorizar incluir a população no mercado de consumo, sem em paralelo ter fomentada a sua organização autônoma e participação cidadã, como sujeito dessa construção, a classe dominante temia que a educação e o consumo para a maioria gerassem a consciência emancipadora das classes trabalhadoras.

E os Estados Unidos da América temiam sobremaneira a independência soberana e alinhamento com os Brics à medida que o nosso potencial energético e hídrico sustentasse àquela política externa, conferindo força à uma reorganização geopolítica internacional.

Antes que viesse a ocorrer (se é que viria) a estratégia golpista já estava em gestação, numa articulação com todos as forças institucionais (com STF e tudo o mais).

Com o governo dos EUA provocando no mundo a velha contradição: ou a favor deles ou contra, ou direita ou terrorismo, ou capitalismo de desastre ou o seu oposto, foi mais um ingrediente para o surgimento da extrema direita, antes adormecida, vir com a  fúria da sociopatia que a caracteriza, encarnada no Bolsonaro e nas suas milícias nazifascistas.

Acertam no óbvio, mas assertivam mecanicamente a conclusão, ou seja: a tese materializada pelo lulismo gerou a sua antítese. Contudo, a vitória do Bolsonaro não foi consequência direta do lulismo, mas de erros da elite da direita, ao não ter candidato único, competitivo, e ter subestimado e depois protegido o Bolsonaro, aceitando a sua fuga dos debates e a sua “facanews”. E do lado progressista pela deserção do Ciro do segundo turno.

Afirmar que não haveria bolsonarismo se não tivesse havido petismo, é simplificar e reduzir a dialética da história ao mais rasteiro mecanicismo.

Leia também:  Ruas de cana e ruas de gente, por Lúcio Verçoza

Se em vez de uma concepção mecanicista-moralista da história aplicasse a concepção dialética, perceberia que não houve ainda a síntese nessa luta antagônica dos atuais contrários.

Há pesquisas, embora de rigor científico duvidoso, que sustentam que a esquerda tem a simpatia entorno de 30% do eleitorado e a direita entorno de 27%, praticamente empate. Ocorre que a população que está fora desses 60% não tem posição definida, geralmente se posiciona ocasionalmente ao sabor da conjuntura e da propaganda dos meios de comunicação.

Ciro sabe que não representa a esquerda, quem a representa eleitoralmente é o Lula ou candidato do PT apoiado por ele. Então, o que faz? Vai para a trincheira do antipetismo e faz malabarismo retórico para não parecer como direita, quando poderia dialogar com os 40% sem posição sedimentada.

“Comigo unidade é o cacete. Unidade é na luta. E na luta em cima da mesa”.

 “Com esta burocracia do PT não quero nem ir pro céu”

Ciro afirmou ainda que tem respeito pelo “petista médio”. “Meu problema é com a cúpula corrompida do lulopetismo. Com essa gente nem para ir para o céu”.

Atacou a cúpula do partido e o militante de base, e aliviou o que denominou petista médio. Sabe o que conseguiu? Desagradou a todos.

Ciro ataca e desqualifica as pessoas, e não as ideias que representam. E faz isso porque fica mais fácil transitar na posição política de um lado ao outro, seja do lado do “estagiário”, como qualificou o Huck, até o lado do “inescrupuloso”, como qualificou o Lula.

Eu sou contra ao estagiário na Presidência da República, não interessa se pela direita ou esquerda”. E diz que lula devia dá um tempo. (Será que considera o Boulos também estagiário?)

Novamente o desejo de ver Lula fora da política: cadeia, embaixada ou anátema.

‘Ciro é um babaca, quer Lula preso’, disse recente Zé de Abreu.

A questão dos extremos. Quem se coloca contra integralmente a um extremo está geometricamente no outro extremo, não há como estar no meio. No meio fica o que não está integralmente contra o extremo. Estando o bolsonarismo num extremo, o outro extremo é o que se coloca integramente contra ele.

O raciocínio do Ciro é exótico na geometria e na política.

Por derivação seria o mesmo de dizer que a ditadura militar fora consequência da luta pelas reformas de base, ou seja: as propostas pelas reformas (ou janguismo) é que foram responsáveis pelo golpe militar.

Lula está livre, e a e correlação de forças começa a ser alterada, e aí, Ciro, o onipotente, vai se oferecer para ser o porta voz da direita? Ou entender que a polarização é real, não é fruto de ideias, de desejos, de subjetividade.

Há várias formas de somar na luta contra o Estado policial do bolsonarismo, menos no caminho da “unidade é o cacete”.

Apesar da verborragia agressiva e radical, Ciro pratica a conciliação de classes, desde que seja com ele, no protagonismo, por isso, tem dificuldade de conceber a história como resultado da dialética da luta de classes e entender que na atual conjuntura, o antagonismo entre civilidade e barbárie, entre Estado democrático de direito versus Estado policial miliciano, é a contradição principal, cujo desfecho, cuja síntese, será consequência da correlação de forças.

Sua verborragia deveria ser menos giratória e com mais foco no alvo protonazifascismo brasileiro. Menos destempero e mais temperança.

Não há que excomungar os opostos, há que temer os mediadores da conciliação.

Existem diversas trincheiras no combate ao bolsonarismo, mas as armas da crítica dessas trincheiras não deveriam apontar para os lados, somente para a frente onde se encontra o inimigo do povo brasileiro.

Ciro, use de sua expertise e combata a quadrilha do Moro&Dallagnol e a ingerência imperialista dos EUA em toda a América Latina, desestabilizando governos e empoderando fantoches fascistas. Assim prestará um relevante serviço à democracia e à pátria.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017)

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