Coisas que não sabemos da Segunda Guerra Mundial
Muito do que sabemos da 2ª Guerra está nos filmes, livros, seriados e o que nos contaram os mais velhos. Mas isso ainda é pouco para tudo o que aconteceu

Sabemos que nazistas, fascistas e japoneses começaram uma guerra que envolveu de modo direto mais do dobro de nações que a Primeira Guerra Mundial. Nem todos conhecem com precisão que a União Soviética entrou na guerra 21 meses depois; que os Estados Unidos ingressaram nela 27 meses após o começo; e que a França, em seis semanas, sentiu que seria destruída e assinou o armistício mais humilhante que potência alguma propôs em qualquer guerra moderna.
Poucos reparam que o Reino Unido durante um ano e uma semana (15 de junho de 1940 a 22 de junho de 1941) lutou em solitário, sem nenhuma outra potência, enfrentando o Eixo: se tivesse desistido, os Aliados teriam perdido a guerra na Europa e, hoje, o mundo seria outro. Menos ainda se sabe que os japoneses, em todo esse período inicial, apenas eram confrontados por neozelandeses, australianos e pequenos e mal-armados exércitos coloniais, e por isso conseguiram ocupar a maior extensão que, ao longo da história, qualquer império conquistou na Ásia. Esses são dados que estão à mão, porém não aparecem explicitamente, deixando a impressão de que, “o tempo todo, todos lutaram contra todos”.
A maioria pensa que a Alemanha começou a guerra porque queria eliminar os judeus, daí o Holocausto, quando isso é apenas um capítulo da seção ‘Horrores’ e um episódio – marcante – dos muitos que encadernou a crônica da guerra toda; mas esse não foi o leiv motiv que levou o nazismo a começar a maior hecatombe dos tempos modernos. O Holocausto não foi causa, foi consequência.
Os planos — e vítimas — de Hitler
Hitler queria recuperar os territórios perdidos após a derrota do Segundo Reich na Primeira Guerra Mundial; almejava lavar o ultraje que ele considerava tinha-se cometido com Alemanha quando assinou o Tratado de Versalhes em 1919; aspirava ampliar o máximo possível, especialmente dentro da Europa, a geografia alemã para restaurar o Sacro Império Romano-Germânico dos séculos X e XII.
Tudo isso o necessitava para impor seu Lebensraum (espaço vital alemão) no qual só habitassem arianos, a raça superior segundo sua obcecada crença: para isso precisava eliminar todo aquele que não o fosse, não apenas os judeus (maioria), também ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, deficientes físicos e mentais – inclusive se fossem arianos – e qualquer etnia que contaminasse a pureza do sangue teutônico, além de opositores políticos e criminosos.

Achar que o Holocausto foi a tentativa de extermínio dos judeus e só dos judeus é ignorar as outras vítimas que, por razões mais ou menos óbvias, após a guerra, não tiveram a voz ampliada como tiveram os judeus. Estima-se que em 1939, em todo o mundo, os judeus puros, os Volljude (tinham os quatro avós judeus), eram 15 milhões; mas os nazistas não iam sós atrás deles, também perseguiam aqueles que participavam da comunidade e consideravam plenos, os Geltungsjude (três avós judeus), os casados com judeus, os Mischlinge de primeiro grau (dois avós judeus) e os Mischlinge de segundo grau (um único avô judeu). Somando todos, talvez o número passasse por bastante dos 20 milhões. A política antissemita eliminou 6 milhões, menos da terceira parte de eles.
O caso dos ciganos, ainda que em valores absolutos fosse muito menor, proporcionalmente a chance de extermínio foi bem maior. Do milhão que se calcula que existia, no mundo, nos campos de concentração teriam morrido entre 350 mil e 500 mil, esta última cifra representaria 50%, metade. Porém, eles não repercutiram. Por quê? Porque o preconceito com os ciganos não era só nazista, praticamente todos os rejeitavam, ainda que não os matassem. Então, o Porajmos (Holocausto cigano), pro rata, foi bem maior, assim, no pós-guerra, não houve caçadores de nazistas anti ciganos como houve caçadores de nazistas antissemitas. A história sempre contou o que o contador dela quis contar.
Aliados do Eixo
Hitler não esteve sozinho na sua demencial aventura, com ele agiu Mussolini, que queria que o antigo Império Romano revivesse na sua Itália: “Noi siamo i discendenti dei Cesari” (“Nós somos os descendentes dos Césares”), repetia em seus discursos na Sacada do Palácio de Veneza, em Roma. A eles também os acompanharam Hirohito e seus generais, que, sob o lema “Hakkō ichiu” (“Todos os cantos do mundo sob um único teto”), pretendiam consagrar ao Japão como o maior império asiático da história. A essa virtual área exclusiva nipônica, no Pacífico, a chamavam “Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental”. Os três, Hitler, Mussolini e Hirohito coincidiam na sua mentalidade expansionista sem um incomodar os outros: os espaços pareciam naturalmente definidos.
Consequentemente, os italianos não foram enceguecidos atrás dos judeus, eles não estiveram entre suas prioridades (os que deportaram foi por pressão do nazismo, assim como a promulgação das Leis Raciais, de 1938, que – copiada das leis nazistas – proibiram os judeus de ocupar cargos públicos, possuir propriedades e casar-se com não-judeus). E os japoneses, em todos os territórios que iam ocupando, não encontravam judeus, certamente os teriam assassinado, não por judeus, simplesmente porque matavam todos os que cruzavam em seu caminho, independente de sua religião ou raça. Concretamente, na Ásia de seu interesse, não havia judeus.
Assim, a guerra começou pela megalomania expansionista de três líderes de três nações que coincidiram nesse espírito conquistador num momento no qual o resto do mundo não queria mais guerras, não se armava, estava desmilitarizado e recuperando-se de 1929, quando nos EUA eclodiu o Crash de Wall Street afetando quase todas as economias do planeta. No período de Entre guerras, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, antecessor de Churchill, havia lançado sua política de ‘apaziguamento’ (appeasement), conceito de ingênua paz compartilhado pela França. Era a oportunidade perfeita para os expansionistas irem por mais, pelo menos testar quanto de verdade havia nisso.

E testaram. Hitler anexando Áustria (Anschluss), quitando-lhe a Tchecoslováquia, os Sudetos e a Boêmia e Morávia; Mussolini continuando suas pretensas campanhas ‘italianizantes’ no norte da África e ocupando a europeia Albânia; e o Japão, que já tinha Coreia e Taiwan, invadindo a costa da China e, no norte, internando-se até a fronteira com a URSS e Mongólia. Passaram o teste. Ninguém fez nada. Tinham calibrado bem. Aí, seguiram. O silêncio de todos soou como um convite para os três ampliarem a festa expansionista.
A Guerra do esquecimento
Do mesmo modo, comumente se acredita que a guerra terminou em 8 de maio de 1945, quando capitulou a Alemanha, porque é a data na qual o Ocidente (achando-se umbigo do mundo) comemora anualmente o final da guerra em seu continente. Esquece que as beligerâncias continuaram por mais quatro meses na encarniçada Guerra do Pacífico, na qual os americanos, principalmente eles, terminaram de derrotar os japoneses, que se renderam oficialmente no início de setembro (dia 2, ainda quando em 15 de agosto, seis dias após a segunda bomba atômica – a lançada em Nagasaki –, anunciaram que deporiam as armas).
A cerimônia de rendição em Tóquio selou oficialmente o fim da Segunda Guerra Mundial, porém em muitos outros lugares Divisões do Exército do Império do Sol Nascente, que não acreditavam que seu imbatível país tivesse se rendido – não suportavam essa ideia –, continuaram com as ações bélicas até dezembro deste ano, sem contar os soldados isolados que em algumas ilhas, esquecidas por Deus, combateram até a década de 1970.
Do lado perdedor, Adolf Hitler é o nome mais mencionado, um ser desprezível que todos conhecemos, amarrado à ideia dos campos de concentração (o cinema tem um pouco de culpa nisso), e Mussolini, pelo menos na Europa, tem suas citações vinculadas à Segunda Guerra Mundial; e quase mais ninguém. Pelo lado vencedor, os holofotes sempre apontam na loquaz figura do primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, porém, na Europa também guardam espaço para o mais digno francês, Charles de Gaulle; e de modo controverso, como ‘o definidor’ da guerra aparece o soviético Josef Stalin, o perverso homem que com seu Exército Vermelho aniquilou os nazistas que ousaram invadi-lo.
No meio deles, quase sempre esquecidos, há bastantes personalidades tão importantes quanto eles, porém menos famosas e que o tempo vai apagando injustamente. Certo é que também não se sabe tanto de Hitler, Mussolini, Churchill, de Gaulle e Stalin; o que todos conhecemos é o que sempre se repete, repete e repete. Mas eles são figuras que, para mal ou para bem, preencheram os arquivos com mais do que isso que se divulga. Eles, como a guerra, são um círculo vicioso que não sai da sua circunferência. A pauta, aqui, é ressaltar alguns fatos que vão além do óbvio deles, além dos reiterados combates e além dos ‘países de sempre’. Por exemplo…

… Nunca se escreve que o plano de Hitler era começar a guerra em 1945 e adiantou as invasões devido ao Mal de Parkinson que padecia e viu acelerar-se. As drogas que controlavam seu mal o tornaram adicto e influenciaram na tomada de decisões erradas que o levaram a perder a guerra e também a cometer suicídio, ainda que neste caso o fator decisivo fosse à informação de que, o dia anterior, Mussolini tinha sido morto pelos próprios italianos, seu corpo deturpado pelos antes seus fanáticos admiradores e agora quem mais o odiava, e exposto, pendurado, num posto de gasolina. Poucas horas depois, não querendo arriscar que isso aconteceria com ele, tirou sua vida. Acredita-se que nunca pensou em se matar para escapar dos julgamentos, não chegou a essa instância. Seu ego estético decidiu o suicídio antes dessa reflexão.
Churchill e o passado esquecido
De Churchill rara vez alguém lembra que foi um genocida: matou de fome milhões de indianos, colônia britânica na época, queimando tudo o comestível para evitar que, caso os japoneses conseguissem invadir o atual país com a maior população do planeta, não tivessem como alimentar-se. Os japoneses não conseguiram invadir e os que morreram por inanição foram as famílias dos indianos que estavam em diversas frentes lutando em nome da coroa britânica. Como os Aliados venceram, Churchill foi aplaudido.
O mesmo ocorreu com o maléfico Stalin, quem até ser traído por Hitler (tinham um pacto de não-agressão) não era Aliado e atuava tão selvagemente quanto os nazistas. Também invadiu a Polônia, após tentar conquistar a Finlândia, e aterrorizou os ‘países bálticos’. Derrotar a Hitler limpou seu passado sem importar que dentro da União Soviética continuavam suas purgas e tinha os gulags siberianos lotados de prisioneiros políticos e de guerra que morriam congelados. E o pior caso de omissão proposital foi o que envolveu o imperador japonês, Hirohito: não foi julgado, foi tratado como um pacifista.
++ Mais detalhes destas histórias estão na coleção que Aventuras na História apresenta, denominada “A Guerra de Todos”. Dividido em oito livros, escrito pelo jornalista Edgardo Martolio, a coleção ajuda a entender a magnitude do conflito e também conta tudo aquilo que ainda pouco conhecemos da Segunda Guerra Mundial.
O primeiro livro da coleção “A Guerra de Todos”, que possui o título de “O Eixo: Agressores, Iludidos e Anexados” já está em pré-venda. Saiba mais detalhes clicando

























