James Lovelock, morto aos 103 anos, elaborou hipótese de que Terra funciona como organismo vivo

Por Rafael Garcia

James Lovelock, morto aos 103 anos, elaborou hipótese de que Terra funciona como organismo vivo

James Lovelock, em foto de 2010 Reprodução

Morreu na manhã desta terça-feira, aos 103 anos, o cientista britânico James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, segundo a qual a Terra funciona como um organismo vivo. Autor influente entre ambientalistas e ecólogos nas décadas de 1970 e 1980, ele passava por complicações de saúde após ter sofrido uma queda em sua residência, em Dorset, na Inglaterra.

No meio científico, Lovelock foi sempre uma figura controversa, mas que provocou reflexões importantes. A Teoria de Gaia (batizada com o nome da deusa grega que representa a Terra) postulava que o planeta como um todo possui uma espécie de consciência própria, um mecanismo orgânico de autorregulação que atua para criar condições para a vida.

Por seu apelo místico, a hipótese atraiu inicialmente muitos adeptos do movimento Nova Era, que ajudaram a impulsionar a militância ambientalista no fim do século XX. No meio acadêmico, porém, até hoje a hipótese de Gaia enfrenta obstáculos, por ser considerada uma abordagem falha para a questão do ponto de vista filosófico, atribuindo intenção a fenômenos da natureza.

O debate que a teoria provocou, porém, ajudou a consolidar a ideia de que existem de fato alguns mecanismos de autorregulação no planeta, alguns deles desencadeados atualmente pela mudança climática. No meio ambientalista, Lovelock, que é formado em medicina, é um dos grandes responsáveis pela ideia mais bem aceita de que a Terra pune os humanos quando estes destroem os ecossistemas.

A Teoria de Gaia, criada na década de 1960, ganhou muita popularidade a partir da década seguinte, após a bióloga Lynn Margulis ajudá-lo a desdobrar e modernizar sua ideia. Após os anos 2000, uma forma menos esotérica da hipótese aumentou sua aceitação acadêmica.

No Brasil, um dos cientistas inspirados pelo mecanismo de Gaia é Antonio Nobre, pioneiro no estudo do transporte de umidade da Amazônia que ajuda a sustentar outros biomas do continente. Sua ideia ficou conhecida como teoria dos “rios voadores”.

A despeito da notoriedade que Lovelock ganhou ao longo das décadas, algumas de suas posições — particularmente a defesa das usinas nucleares — o colocaram em conflito com a comunidade ambientalista. Por ser uma fonte de energia que não emite CO2, ele acreditava que a energia atômica merecia um papel maior no combate ao aquecimento global, a despeito de outros risco que oferecia.

Também foi alvo de críticas a sua defesa da contracepção como forma de combate à mudança climática, para que a redução do crescimento populacional freasse a demanda por combustíveis fósseis no planeta. A declaração não foi bem recebida por ativistas dos direitos reprodutivos.

O legado que James Lovelock deixa, porém, vai além da elaboração da Teoria de Gaia e da vocação para o polêmico. O cientista teve importantes trabalhos em infectologia, particularmente sobre a transmissão do vírus da gripe. Foi também pioneiro de estudos sobre criogenia, a preservação de organismos vivos por meio do congelamento.

Um dispositivo que o cientista inventou (um detector de moléculas por captura de elétrons) foi uma ferramenta importante na década de 1960 para estudo dos clorofluorcarbonos, gases que danificam a camada de ozônio.

No imaginário público, Lovelock também deixa um legado importante, por ter contribuído para a ideia de que os humanos não são um elemento apartado da natureza.

“Nós somos a elite inteligente da vida animal na Terra, e quaisquer que sejam nossos erros, a Terra precisa de nós. Esta pode parecer uma afirmação estranha depois de eu ter dito que os humanos se tornaram um organismo patogênico para o planeta no século XX”, escreveu o cientista em seu livro “The Vanishing Face of Gaia” (A face efêmera de Gaia), de 2009. “Mas a Terra levou 2,5 bilhões de anos para evoluir um animal capaz de pensar e comunicar seus pensamentos. Se nós nos extinguirmos, ela tem poucas chances de evoluir outra espécie dessas.”

Fonte: O Globo

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