Passados dias da tentativa de homicídio que sofreu, o médico Anderson Juliano de Lima segue temendo pela vida. Ele foi agredido por um vizinho no bairro de Rosarinho, Zona Norte do Recife, na madrugada da quarta-feira (31/12), dentro de casa. Durante as agressões, foram desferidos gritos homofóbicos.
O suspeito foi identificado como Túlio André Coelho Silva. Ele chegou a ser preso em flagrante, mas, na quinta-feira (1°), teve liberdade provisória concedida pela Justiça. Ele está de volta ao condomínio, mas está proibido de transitar nas áreas comuns do local, se aproximar ou tentar contato com Anderson.
Em entrevista à Folha de Pernambuco, a vítima explicou que, enquanto o homem continuar no condomínio, não conseguirá se sentir segura.
“É um absurdo completo. Ele mora no mesmo prédio que eu. Ele pode cruzar comigo no elevador. Meus advogados explicaram que se a gente fizer contato visual, ele está preso. Mas essas coisas não acontecem de imediato, né? No dia da agressão eu precisei me identificar como médico para haver algum tipo de agilidade no processo de resgate”, disse.
“É muito triste, mas a gente está à mercê. Nem em casa você tem segurança. A cada dia tem uma reportagem diferente. Você no seu lazer, um caso de violência após o outro. Estamos num estado de calamidade com relação a segurança. Temo sim que algo posssa acontecer comigo”, completou.
Anderson também disse que já colocou câmeras de segurança na entrada e interior da casa. Ele afirmou que fez isso porque o condomínio só tem vigilância com imagens nas áreas cumuns e nos elevadores. Ele também irá reforçar a porta.
O médico teve lesões nos olhos, nariz, boca, coxa, ombros, braços e costas. Além do dano físico, no entanto, o principal impacto está sendo psicológico.
“Não estou dormindo bem, estou dormindo vigilante, naquele sono que você fica meio acordado. É um cara perigoso, que deveria estar preso, e não foi. A justiça não foi feita. Foi uma tentativa de homicídio”, afirmou.
“Eu achava que ia morrer”
Tudo aconteceu por volta das 4h da madrugada da última quarta-feira (31/12), no último dia do ano. Segundo a vítima, o suspeito foi à sua casa e começou a bater na porta, identificando-se como “Túlio”. Quando o médico devolveu que não conhecia alguém com esse nome e disse que fosse embora, o homem começou a proferir ofensas, inclusive homofóbicas.
A porta estava trancada, mas, segundo a vítima, foi arrombada com um chute do agressor. Foi nesse momento que as agressões, que pareciam não ter fim, começaram.
“Se eu estivesse esperando, pelo menos… quando você sofre um ataque, você tenta se defender quando está esperando. Eu jamais esperaria que um vizinho tentaria fazer isso. Ele continuou me agredindo, tentando me matar. Ele não parava de me bater. Eu achava que ia morrer”, relatou.
Anderson esclareceu, ainda, que nunca havia visto o homem ou a esposa dele, que apareceu depois no local.
“Em alguns vídeos que gravei, ele tentou justificar como se eu estivesse dando em cima dele, o que é mentira, porque eu nunca vi ele ou a mulher dele”, contou Anderson.

Próximos passos
O médico ainda informou que já se reúne com seus advogados para formalizar o processo contra o agressor. Ele também sinalizou que pode processar o condomínio pela “falta de segurança” no local.
A vítima destacou, ainda, que só descansará quando a justiça for feita pelo caso. “Estou recebendo muito apoio dos vizinhos, da comunidade médica e nas redes sociais. Não vou parar ou me deixar abater por isso”, começou.
“Hoje vou formalizar com meus advogados um processo, e vai ser de fato uma briga na justiça. Estou lutando para que esse casop saia sem punição. É inadmissível uma pessoa agredir a outra sem nem conhecê-la, e agora estar livre, enquanto eu estou sofrendo as consequências”, completou.
Investigação
Por meio de nota, a Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) informou que o suspeito, que tem 30 anos, foi preso em flagrante pelos crimes de lesão corporal, racismo por homotransfobia e violação de domicílio.
A reportagem acessou a Consulta Processual do caso no sistema do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), onde consta a concessão de liberdade provisória para o suspeito.
A decisão veio em audiência de custódia presidida pelo juiz de Direito Plantonista Walmir Ferreira Leite, do Plantão Judiciário Criminal do Recife. No texto, ele cita que determinou a liberdade provisória porque o suspeito não tinha antecedentes da prática dos crimes.
“Considerando que o autuado é primário e não responde a nenhum outro processo, inexistindo notícia de que tenha agredido física ou verbalmente a vítima anteriormente, entendo que ele faz jus ser processado em liberdade, mediante imposição de medidas cautelares diversas, em sede de audiência de custódia”, afirmou o juiz em trecho do texto.
O homem também não teve que pagar fiança para ser liberado. Ele deve, no entanto, seguir algumas determinações, como não se aproximar ou ter contato com a vítima, além de estar proibido de frequentar as áreas comuns do condomínio de apartamentos.
Confira, abaixo, a nota do TJPE na íntegra.
Em audiência de custódia realizada na Central Especializada das Garantias do Recife, na quinta-feira (01/01), foi concedida a Túlio André Coelho Silva liberdade provisória mediante o cumprimento das medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP, sob pena de revogação do benefício, quais sejam: I – comparecimento mensal em juízo, em data a ser fixada pelo juízo de garantias/processante, para informar e justificar atividades; II – proibição de ausentar-se da comarca por mais de 08 (oito) dias, sem autorização do juízo de garantias/processante, e de mudar de endereço, sem informar ao juízo de garantias/processante; III – recolhimento domiciliar no período noturno, das 21h às 06h, diariamente; IV – proibição de manter contato ou se aproximar da vítima; V – proibição de frequentar as áreas comuns do condomínio de apartamentos, permitida a utilização apenas dos espaços necessários para a entrada e saída da sua unidade, e apenas pelo tempo necessário para tanto.
Como denunciar crimes de homofobia
Para denunciar homofobia, use o Disque 100 – ligação gratuita – ou pelo WhatsApp +55 61 99611-0100.
Também é importante registrar o Boletim de Ocorrência (B.O.) online ou na delegacia, e coletar provas (prints, gravações), se possível, para apresentar à polícia ou à Defensoria Pública, que pode dar as orientações jurídicas devidas para a responsabilização do agressor e, caso necessário, ações por danos morais.



























