O dia em que Fidel Castro quase morreu em jantar na casa de Lula
O antigo líder e revolucionário cubano Fidel Castro quase morreu durante um jantar informal na residência de Lula em São Berbardo do Campo, em 1990

Em março de 1990, uma visita política de Fidel Castro ao Brasil quase terminou em tragédia dentro da casa do atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.
Na ocasião, o líder cubano, que havia viajado ao país para demonstrar solidariedade a Lula após a derrota presidencial de 1989, participou de um jantar informal na residência do petista. Durante a refeição, porém, sofreu um grave engasgo que interrompeu sua respiração e provocou momentos de pânico entre os presentes.
Jantar quase trágico
O prato servido naquela noite era um tradicional bife a rolê, preparado com fatias de carne recheadas com cenoura, bacon e linguiça calabresa. Para manter a carne enrolada durante o preparo, utilizavam-se palitos de dentes.
Segundo os relatos posteriores, a cozinheira da residência decidiu cortar as pontas aparentes dos palitos para melhorar a apresentação do prato, empurrando os fragmentos restantes para dentro da carne.
A mudança estética na receita acabou criando um risco invisível para quem desconhecia a estrutura do prato. Diferentemente dos demais convidados, Fidel Castro não sabia da presença dos palitos ocultos.
Foi então que, ao experimentar a refeição, demonstrou satisfação com o sabor, mas engoliu um pedaço de carne sem mastigá-lo adequadamente. O fragmento de madeira ficou preso em sua garganta, provocando asfixia imediata.
O incidente transformou rapidamente o jantar político em uma situação de emergência. Fidel começou a perder a respiração e teve o rosto arroxeado enquanto os presentes tentavam ajudá-lo. Os relatos sobre a forma como o líder cubano foi salvo variam de acordo com as versões registradas posteriormente por personagens ligados ao episódio.
No segundo volume da biografia de Lula, escrita pelo jornalista Fernando Morais, o resgate teria ocorrido quando um dos seguranças da comitiva cubana subiu sobre a mesa e introduziu a mão na boca de Fidel Castro para retirar o objeto preso mecanicamente.
Já o ex-ministro José Dirceu descreveu o episódio em suas memórias como “uma cena entre engraçada e apavorante”. Segundo ele, “desavisado, Fidel comeu um bife a rolê sem se dar conta do palito. Engasgou-se e não conseguia devolvê-lo. À força de tapas, na verdade, murros, conseguimos, seu segurança, médico, Lula e eu, que expelisse o palito,” repercute o Metrópoles.
Após a retirada do pedaço de madeira, o ambiente de tensão deu lugar ao alívio. O próprio José Dirceu resumiu o episódio afirmando que, “por pouco, Fidel não morreu”. Depois do susto, Lula teria explicado ao líder cubano a preparação detalhada do prato para evitar novos acidentes semelhantes.

Trajetória de Fidel Castro
O episódio doméstico em São Bernardo do Campo tornou-se uma curiosidade pouco conhecida envolvendo Fidel Castro, personagem cuja trajetória política foi marcada por sucessivas situações de risco muito mais associadas a conflitos armados, perseguições políticas e tentativas de derrubada de seu governo.
Décadas antes do jantar no Brasil, o líder revolucionário já havia escapado de circunstâncias extremamente perigosas durante o processo que culminaria na Revolução Cubana. Em novembro de 1956, Fidel Castro organizou no México a expedição que levaria um grupo de exilados de volta a Cuba para iniciar a luta armada contra o governo de Fulgêncio Batista.
A viagem começou em 25 de novembro daquele ano, quando 82 homens embarcaram no iate Granma, adquirido de um cidadão estadunidense chamado Robert Bruce Erickson por 15 mil dólares. O barco, encontrado parcialmente submerso no Rio Pantepec, apresentava condições precárias já antes da partida.
Projetado originalmente para transportar cerca de 20 pessoas, o Granma foi sobrecarregado com combatentes, armas, munição, suprimentos e milhares de litros de óleo diesel. O arsenal incluía 90 rifles, 40 pistolas, três submetralhadoras Thompson, dois fuzis antitanque e combustível armazenado tanto no tanque principal quanto em galões extras.
O excesso de peso reduziu drasticamente a velocidade da embarcação. Segundo os relatos, o iate demorou cerca de uma hora apenas para deixar a foz do rio e o porto de Tuxpan. Além disso, o sistema de rádio funcionava de forma limitada, conseguindo apenas receber mensagens sem transmitir respostas, o que comprometeu a coordenação entre os rebeldes no mar e os apoiadores que já atuavam em Cuba.
Enquanto o Granma ainda navegava próximo às Ilhas Cayman, militantes liderados por nomes como Frank País e Celia Sánchez já haviam iniciado ações armadas na ilha em 30 de novembro de 1956, acreditando que o desembarque ocorreria naquele momento.
Início da Revolução Cubana
A chegada a Cuba, no entanto, só aconteceu em 2 de dezembro. Após serem detectados por um helicóptero militar, os rebeldes precisaram alterar a rota original e desembarcaram nos manguezais de Las Coloradas. O Granma encalhou em barreiras de corais, obrigando os combatentes a transportar equipamentos e armas por pequenos botes, o que provocou a perda de parte do material na lama da região.
Poucos dias depois, em 5 de dezembro, o grupo sofreu uma emboscada em Alegría de Pío. Segundo os relatos, os guerrilheiros haviam sido denunciados por um guia local chamado Tato Vega, que inicialmente se oferecera para conduzi-los até Sierra Maestra.
A ofensiva das forças ligadas ao governo Batista desarticulou completamente o grupo rebelde. Dos 82 homens que partiram do México, apenas 12 conseguiram escapar do cerco inicial. Entre os sobreviventes estavam Fidel Castro, Raúl Castro — seu irmão —, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos.

Os remanescentes passaram cerca de duas semanas tentando se reencontrar nas montanhas de Sierra Maestra. A partir desse pequeno núcleo sobrevivente, a guerrilha começou a reorganizar suas operações, realizando ataques rápidos contra posições militares isoladas para capturar armamentos e ampliar gradualmente sua presença territorial.
Em janeiro de 1957 ocorreu o primeiro ataque considerado bem-sucedido pelos rebeldes. Meses depois, a tomada do quartel de El Uvero passou a ser vista por Fidel Castro como a consolidação da “maturidade militar” da força revolucionária. Ao final daquele ano, os guerrilheiros já haviam estabelecido uma base fixa em La Plata, fortalecendo a estrutura que, posteriormente, contribuiria para a derrubada do governo de Fulgêncio Batista.

























